Uma Palavrinha
Ouve minha palavra!
ela vale mais que mil imagens.
Abraços, beijos, carícias
- pra isso haja imaginação;
mas para o amor por trás disso
não existe imagem, não.
Eu sinto um sentir sem imagem
cujo objeto é mulher.
Não há imagem pro ser
e a minha palavra é.
A minha palavra é fiel
- expressa-me literalmente -
põe o meu amor no papel
enquanto te acolho na mente.
Assim é a minha palavra
e já te dei toda que tinha.
Já te dei a minha palavra
- imagem da palavra minha.
Trilema Equino
Vivo fugindo de cavalos.
Não, eles não estão no meu encalço.
Andam por aí uivando como não uivam cavalos;
uivam para todos, para ninguém, para si próprios, sei lá!
para atrair ou intimidar dessemelhantes
e eu fujo para além da possibilidade
de atender a alguns instintos bestiais básicos:
eu sou um perigo para os cavalos!
Fujo, também, dos jumentos
- aqueles que roçaram em celebridades religiosas.
Esses trazem uma resignação cortante
nos olhos de peixe morto
calam com os olhos e me atemorizam
(nunca se sabe que castigos imerecidos clamam por suportar
no seu intimismo altruístico)
e eu fujo para longe da porta da conversão:
eu seria um perigo para os jumentos!
Não me esquivo dos burros.
Nutro por eles total desprezo;
nenhuma fascinação me exercem
que não são jumentos, nem cavalos, nem ambos, nem nada.
Incapazes de uivar como não uivam cavalos
ou de calar como não falam os jumentos ópticos
eles são estéreis de ausências híbridas;
estampam na cara a sua burrice explícita
e eu me aproximo, destemido, para aquém da cifra fácil
com uma instantânea intimidade:
eu serei o paradigma dos burros!
Visões
Ante a mim o horizonte e o mar prostrados...
Deitado, aqui, na praia da Bahia
insatisfeito e meio alienado
eu enlouqueço quieto a cada dia.
Vastíssimo horizonte divisado...
que da oriental praia baiana
a horizontal me faz sempre inclinado
a ver muito além-mar a vida humana.
Basta fechar os olhos um instante
pra ter um mundo vário descoberto;
a vida nova paira no horizonte
e só não vê quem tem o olho aberto.
Pra além do muito mar há nova vida
(diversa desta aqui - precária e triste)
presente na visão bem definida
a qual vejo sem ver, mas sei que existe.
Visões. São só visões - não as acolho:
a minha vida excede o inaparente.
Sou bem maior que o que cabe em meu olho.
Toda visão se inclina ante o vidente.
Um Olhar para o Alto
As nuvens contém todas as formas;
todas as fórmulas.
As nuvens fazem escadas
pra que eu suba nelas;
fazem estradas
pra que eu ande nelas;
e eu vou...
Sei da nuvem;
sei da nuvem pelo que eu sei;
e esse meu saber de nuvem
é só meu e dela
e nunca o direi.
E a nave não vai
Não vou te tocar, te abraçar, nunca!
Jamais irei beijar-te os lábios.
O teu corpo estará sempre distante, inacessível
como um continente após o abismo dos oceanos.
Jamais serei um navegante audacioso
(desses que não acreditam em abismos de mares findos).
Estás lá, para além dos meus horizontes
e nem tomas conhecimento
do teu remoto e pretenso descobridor
que em ti lança âncoras
e te dá nomes de flores, de deusas, de musas.
Descubro-te todos os dias santos e santos dias;
dias que excedem minha vida insuficiente e medíocre
em que me faltam gestos e me sobra sono e expectativas vãs.
Não! Nunca irei te ter por perto;
receber de ti um olhar terno;
despertar em ti qualquer sentimento ou desejo.
Jamais acrescentarei um batimento sequer
aos do teu coração.
Contentar-me-ei em sonhar-te;
postar-me no topo do mastro e amar-te...
...até que o mar te traga ou me trague.
As Cores do Tempo
Hoje me olhei no espelho
(que rima com vermelho)
e vi que estava velho
(que não rima com verde).
Um fruto maduro colore
para chamar à atenção.
Um homem maduro se encolhe
para atentar pra razão.
Cores, imagens, idades...
(duro adequar as rimas).
Hoje me olhei no espelho...
corei: vi que estava velho.
Ato Falho
Muitos têm sido meus equívocos.
Não conheço o exato das coisas
muito menos o gesto preciso.
Admito meus desacertos
(que eles têm a idade do Universo)
mas não minto jamais
(que meus olhos não deixam;
que eles portam o intuito do inverso).
Vou em busca do dia humilde e franco
em que os olhos todos possam expressar
a falha do ato, o semblante do espanto
no exato momento, no ato de errar.
Cansoneto
Recebe esta canção imaginária
- sonata que recém sonhei pra ti;
compassada de maneira ternária
parte de minh'alma que eu reparti.
Quero despertar-te com mil acordes
e adormecer-te, de novo, em meus braços.
Beijar sutilmente os lábios que mordes;
montar-te os sonhos com sons em pedaços.
E logo quando a ouvires, por certo
suspeitarás que a conheces há muito
(algo tipo: déjà vu ou presságio).
Então, aos poucos, chegarás bem perto
dar-me-ás, na face, um beijo fortuito
e, por fim, me dirás que é tudo um plágio.
Vai e Vem
Vai é verbo ir
e vem é verbo vir.
Vai-e-vem é um certo substantivo.
Tudo é permitido
desde que acenda a libido.
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eu fujo para além da possibilidade
de atender a alguns instintos
bestiais básicos:
eu
sou um perigo para os cavalos!
Fujo,
também, dos jumentos
-
aqueles que roçaram em celebridades religiosas.
Esses
trazem uma resignação cortante
nos olhos de peixe
morto
calam
com os olhos e me atemorizam
(nunca
se sabe que castigos imerecidos
clamam por suportar
no seu intimismo
altruístico)
e
eu fujo para longe da porta da conversão:
eu
seria um perigo para os jumentos!
Não
me esquivo dos burros.
Nutro
por eles total desprezo;
nenhuma
fascinação me exercem
que
não são jumentos, nem cavalos, nem ambos, nem nada.
Incapazes
de uivar como não uivam cavalos
ou
de calar como não falam os jumentos ópticos
eles
são estéreis de ausências híbridas;
estampam
na cara a sua burrice explícita
e
eu me aproximo, destemido, para aquém da cifra fácil
com
uma instantânea intimidade:
eu serei o paradigma
dos burros!
Amores e Humores
Sou do tempo do amor carnal
e não deste, de amor "borrachal".
Do tempo da mistura de humores:
os humores dos amantes;
os humores dos amores.
Nada mais é como antes...
Há barreiras, há temores
humor negro, maus humores:
humores contaminantes
esterilizando amores.