O Neutrino
Meu coração foi atravessado
por um neutrino:
passou rápido e mal disse a que veio.
Vou escrever um verso raiado
partindo da palavra SOL ao meio.
Vou partir esse sol em pedaços;
vou tirar todos os sóis de dentro;
espalhar os seus raios desolados
e mostrar meu coração ao centro.
Está fisicamente comprovado:
um neutrino célere me assolou;
perpassou meu coração despido.
Irradiando um verso meio de amor
revelou-se o insuspeitado:
o neutrino era a seta de cupido.
Uma Palavrinha
Ouve minha palavra!
ela vale mais que mil imagens.
Abraços, beijos, carícias
- pra isso haja imaginação;
mas para o amor por trás disso
não existe imagem, não.
Eu sinto um sentir sem imagem
cujo objeto é mulher.
Não há imagem pro ser
e a minha palavra é.
A minha palavra é fiel
- expressa-me literalmente -
põe o meu amor no papel
enquanto te acolho na mente.
Assim é a minha palavra
e já te dei toda que tinha.
Já te dei a minha palavra
- imagem da palavra minha.
Vozes
Fale cale
calendas lenda
a hand in hand
humano a mano
brando a cerca
de onde estou falando
quando ando
a fim de tudo
mudo isso ouço
o papo o Papa
tá ficando ruço
lusco-fusco
busco o pulso
a pulso de ferro
berro à beça
essa agora
é boa
soa à toa
como vaga
onda ronda
a praia saia
caia de cabeça
fale cale
faleça.
Ato Falho
Muitos têm sido meus equívocos.
Não conheço o exato das coisas
muito menos o gesto preciso.
Admito meus desacertos
(que eles têm a idade do Universo)
mas não minto jamais
(que meus olhos não deixam;
que eles portam o intuito do inverso).
Vou em busca do dia humilde e franco
em que os olhos todos possam expressar
a falha do ato, o semblante do espanto
no exato momento, no ato de errar.
Minhas Impressões
Sete mil lanças na carne e nos ossos
Sete mil dores de parto por lança
Sete mil vezes, suores nos corpos
Sete mil gritos e um nó na garganta.
Sete mil coisas zombando do eterno
Sete mil tempos perdidos no mundo
Sete mil bestas atadas em verso
Sete mil nadas e um zero rotundo.
A Ela
Mulher - objeto não identificado;
indecifrável
e sinuoso objeto
indireto
por linhas tortas
certo
por linhas curvas.
Mulher - esse ser indispensável
(às vezes impensável)
de tão complicado interior.
Mulher - senhora dona dos seios
(esses definidores de mulher)
adoráveis e multiformes
carregados de sentidos.
Mulher - conflito eterno
entre
a carreira
o corre-corre
e a corrida
para os braços do seu homem.
Mulher:
entre o seu falar
e o meu ouvir
entre o seu chamar
e o meu ir
não há simultaneidade.
Mas haverá, creia, sempre
uma total e cúmplice
disponibilidade.
Necrológio do Amor Contido
Desprende-se de mim o fogo-fátuo
do verso que se afogou na razão;
do verbo que se embotou em metáfora
morrendo no peito e evitando a mão.
Desprende-se de mim o fogo-fátuo
de todos os versos que eu enterrei.
Evolam-se restos mortalizados
de todas as rimas que eu não ousei.
Como fantasmas, arrastam correntes
e uivam de sede e uivam de fome
os ectoplasmas em nada contentes.
A fome que bebe, a sede que come
devoram-me e sugam-me lentamente
- fogos que queimam e escrevem teu nome.
Espaçotempo
Nas horas dos mundos que habito
é sempre um tempo diverso
gerando-me sérios conflitos;
descompassando meu verso.
Começo a medir o infinito
com mãos de palmos eternos:
o espaço fica eternito
e o tempo fica infiterno.
O espaço e o tempo domados;
arrebatados da esfera:
o espaço por mim limitado
e o tempo em compasso de espera.
As Cores do Tempo
Hoje me olhei no espelho
(que rima com vermelho)
e vi que estava velho
(que não rima com verde).
Um fruto maduro colore
para chamar à atenção.
Um homem maduro se encolhe
para atentar pra razão.
Cores, imagens, idades...
(duro adequar as rimas).
Hoje me olhei no espelho...
corei: vi que estava velho.
Os Olhos do Tato
Na madrugada todas as horas são pardas
(e o olhar obsessivo adora simetrias);
toda cor se degrada nas lentes do tato
e formas desiguais ganham certa harmonia.
Abolida a visão em proveito do toque
o contato penetra pela superfície
em diversos sentidos, com um novo enfoque
diluindo na mão o que o olho fazia.
No teu corpo o que eu toco é o prazer exato;
o contorno uniforme que se evidencia
e se espalha por dentro e por fora o contato
e retorna pra mão em forma de poesia.