Eternamantes
Gosto das coisas duráveis
que as quero permanentes
como gema inalterável
como cena no presente
como nó inarredável
como deus onipotente.
Gosto das coisas seguras
que nelas eu adormeço:
mão de pai na noite escura
um colo como endereço
criador e criatura
olhar do santo de gesso.
Gosto das coisas eternas
que as quero sempre antes
como adulações maternas
como anel de diamantes
como toque em tuas pernas...
Gosto de estarmos amantes.
O Ilhéu
A ilha é uma porção de terra
que desertou do continente.
Eu, desertor, aliei-me à ilha;
condenei-me a morrer de tédio constante
ou de maremoto súbito;
isolei-me sem papel, sem garrafa, sem farol.
Morri na ilha deserta.
Morri qualquer dia desses
(perdi a conta dos dias).
Vivi de sol a sol e de só a só
(nem sei qual o dia em que não morri).
A ilha é deserta.
Decerto o deserto sou eu - só
errando na ilha deserta;
morrendo na ilha deserta;
sem dia, nem hora, nem data; no ermo
desperto cansado - já morto a termo.
Vivo, morri, morro, vivi.
O tempo é deserto e o espaço é agora:
faço versos e sulcos na areia das horas.
Quem lerá os meus versos que o mar apagou?
Quem dirá que vivi, que morri, quem eu fui, como sou?
Quem me conhecerá além de mim?
Quem me amará a partir do meu fim?
Morri, um poeta deserto, e só agora me dei conta disso:
morri num dia qualquer na ilha deserta
e nenhum noticiário falará do meu sumiço.
Minha ilha jamais vai ser descoberta.
Novo Mundo
Nessas horas em que tudo desaba
desmorona o cosmo sobre si mesmo
e do Ser e de Deus a idéia acaba
algum verso me escapa e segue a esmo.
Conduzindo um vago sentido d'alma
- desprovido que está de referências -
perambula por entre novas alas
do que agora se faz minha ciência.
Esse verso que anima a vida incerta
ao revelar sinais de um mundo novo
é como a pomba de Noé na descoberta
que põe Colombo em pé, em vez do ovo.
Canto Desesperado
Este é mais um canto desesperado
e de nada e a nada servirá.
Como a música de muitas músicas
transportará dores;
veiculará males
como transplante de córnea entre cegos
e de nada e a nada servirá.
Ai, dor torturante
que não quero só senti-la
que, só, não quero tê-la
que antes o mundo precisa vê-la
quanto antes todos devem ouvi-la.
Lanço meu canto desesperado no mar da minha ilha:
como garrafa - afunda de peso;
como rede - volta sem peixe;
como barco - parte-se a quilha.
Papel de Pedra
A verticalidade do penhasco fincado
tem a grave missão de sustentar o rio
que se derrama e permanece sustentado:
é o rio no alto; a cachoeira; e embaixo o rio.
Indiferente segue o rio seu curso d'água
sem dar nenhum sinal de ter sentido a queda.
Abandonada a penha jaz petrificada
e compõe a paisagem - seu papel de pedra.
Imobilizado e mudo e sempre ignorado;
arrimo eterno e trampolim pro salto alheio...
- morre em areias de nunca se ter chorado;
morre o penhasco de manter o peito cheio.
Velho penhasco que carrega o rio nas costas
e que possibilita o ser da cachoeira:
ninguém o vê ou lhe confere qualquer nota
(exceto eu, que fui penhasco a vida inteira).
O Neutrino
Meu coração foi atravessado
por um neutrino:
passou rápido e mal disse a que veio.
Vou escrever um verso raiado
partindo da palavra SOL ao meio.
Vou partir esse sol em pedaços;
vou tirar todos os sóis de dentro;
espalhar os seus raios desolados
e mostrar meu coração ao centro.
Está fisicamente comprovado:
um neutrino célere me assolou;
perpassou meu coração despido.
Irradiando um verso meio de amor
revelou-se o insuspeitado:
o neutrino era a seta de cupido.
Aging
When the shadow of age comes
only helplessness remains.
We sing our songs for no one.
We give our cries in vain.
For the best of our days are gone
and the rest of our hopes are dead.
Now the space is still to come
and the time stands not ahead.
Friends no more than names in stones.
Tears of widows upon their graves.
Wives living their lives alone
Left in freedom as life slaves.
While I'm passing my days at home,
writing letters I never send,
I say to myself, "now it's done!"
It's too late to be the end!
Minhas Impressões
Sete mil lanças na carne e nos ossos
Sete mil dores de parto por lança
Sete mil vezes, suores nos corpos
Sete mil gritos e um nó na garganta.
Sete mil coisas zombando do eterno
Sete mil tempos perdidos no mundo
Sete mil bestas atadas em verso
Sete mil nadas e um zero rotundo.
Dilúvio Eterno
À beira da estrada e acima e ao longe
erosões de outras chuvas me dizem do tempo;
esculturas cavadas na carne do monte
despertando a atenção pro que já estou atento.
Vou girando o volante e também a cabeça
fixando a estrada e fitando o abismo
onde gotas de chuva percutem a terra;
onde terras feridas aumentam abismos.
Em conluio com o tempo que toca seu hino
com a cumplicidade da chuva escultora
vai, assim, o planeta cumprindo o destino
deafundar-se em si mesmo nas eras vindouras.
Novamente
Tudo já foi dito
mas eu vou dizer de novo.
Que mortes passem obliquamente
dilacerando o texto
expondo o nervo
deixando o verso inacabado.
Mortes de renascer mil vezes
até que se conclua o tempo;
até que se satisfaça o fado.
O texto nada mais é
do que o início repetido;
do que o fim antecipado.
O nervo dilacera o texto
que expõe o verso
que satisfaz o tempo
e que conclui o fado.
A morte, como já foi dito,
passa obliquamente...