Lista de Poemas

𝑷𝒐𝒓 𝒒𝒖𝒆 𝒐 𝒕𝒆𝒎𝒑𝒐 𝒑𝒂𝒔𝒔𝒂?

Ah, esse caminho...
Ainda vive em mim o aroma dessa estrada,
Indestrutível no crisol do tempo,
Que me levava onde minha flor prócere morava.

Hoje, pisoteado, sem qualquer consideração,
Circulam de qualquer forma por esse panteão.
Sou consumido pela consternação
Ao ver tamanha e desmesurada profanação.

Essa vereda era só minha, quando por ela transitava
Com o espírito vestido de júbilo e anseio.
Dói-me profundamente na alma
Saber que já não tem o meu amor como destino.

A quem a roubou de mim, agradecerei,
Se me conceder a graça de ao menos voltar a ver
Aquela beldade — mesmo que pela última vez,
Mesmo que à distância.
Ah! Por que o tempo passa?

Careço, sim, livrar meu coração
Desse grande mal que nele padece,
Ao dizer-lhe que foi a melhor coisa que conheceu,
Que aquele lugar nele ainda é seu,
E que o único culpado por tê-la perdido sou eu.

Ah! Por que o tempo passa?
Por que o tempo passa?...

Luanda, Maio de 2025

140

𝑻𝒆𝒏𝒉𝒐 𝑴𝒆𝒅𝒐

Carrego milhões de sonhos
nas costas de um corpo cansado.
Milhões de anseios me cercam,
como pássaros num céu pesado.

Vejo tantos vencendo ao lado,
e o medo cresce —
feito sombra em pleno dia,
feito nó no passo apressado.

É fobia, sim —
não de tentar,
mas de tombar no silêncio
onde ninguém vem me levantar.

Os planos, os sonhos,
não são capricho:
são mapas de fuga
do vazio onde me deixo.

Às vezes, a força me falta,
e a alma se dobra no escuro.
Mas o mundo exige firmeza,
e o fracasso... é um muro.

Sofro quieto,
como quem grita sem som.
Engulo tempestades
com a boca de um monge em jejum.

Este mundo não tolera tropeços.
Ou brilhas, ou és ninguém.
Prefiro a morte à névoa
de viver sem um "amém".

Socorre-me, Deus —
antes que eu me apague por dentro.
Dá-me espada e abrigo,
dá-me chão, dá-me vento.

De que vale existir
sem jamais florescer?
Que farei da vida
se ninguém souber me ler?

Sem olhos que me vejam,
sem palmas no fim,
sem um gesto de afeto,
sem um abraço em mim...

Luanda, Maio de 2025

75

𝑴𝒂𝒑𝒂 𝑽𝒂𝒛𝒊𝒐

Aonde me levas, coração errante,
Com asas feitas de pensamento?
Bebes da emoção como vinho quente
E deixas na boca o vinagre do arrependimento.

Às vezes, fico suspenso —
Uma bússola danificada num mar de silêncio.
Sobrevoo abismos de sentimentos antigos,
Tendo a solidão como único companheiro.

A ausência dos que amamos
Cria buracos na alma.
É fácil perder-se
Quando o amor era o mapa.

Recolho-me, então,
Ao escritório de escuridão desmedida,
Folheando ao acaso o diário da memória,
Tentando, em vão, decifrar o idioma da vida.

Assusta-me, às vezes, a existência:
Um ponto piscando no vácuo,
Numa casa cheia de paredes e ecos,
Onde o coração bate — mas não ressoa.

Sem o calor humano,
O frio se torna morada.
As lágrimas congelam nos olhos,
E só o fogo das lembranças
Para derretê-las e derramá-las.

Às vezes, crio uma pessoa imaginária,
E juntos voamos e roubamos estrelas.
Juntinhos na vastidão da noite,
Mergulhamos em belas conversas.

Dói ver os sonhos deslizarem pelos dedos
Como água.
A dor é tão funda
Que, por um instante, penso:
Mais vale uma vida não sonhada.

Quando sonho e realidade colidem,
O choque me atravessa como raio.
E hoje sei:
É mais fácil suportar a fome do corpo,
Mais suportável, até, a dor —
Do que a fome de amor.

Luanda, Maio de 2025
 

55

𝑴𝒖𝒏𝒅𝒐 𝒐𝒖 𝒗𝒆𝒏𝒕𝒓𝒆?

Vida de príncipe:
Tudo lhe é servido,
Até do frio é protegido,
Só alegria e paz de espírito...

Ah, que felicidade!
Até a impetuosa tempestade —
Sem oxigênio, corpo moído,
Seu mundo em completo desastre.

Agora, só dor e choro,
Privado de tudo o que conhecia.
Era tudo o que amava,
Era o mundo que tinha.

Num lugar, outrora,
De segurança e conforto,
De vento em popa,
A lugar algum, agora...

Até os olhos se abrirem,
Com o fluir do tempo.
Desfrutar a verdadeira alegria
E compreender o processo.

Quiçá, ó céus,
Esse mundo é um ventre?
Talvez, quando morremos,
Na verdade, nascemos.

Luanda, Maio de 2025

69

#PENSAMENTOS_SOLTOS

A Teoria da Relatividade está certa; vive pouco tempo quem vive rápido. A pressa é inimiga da vida longa.

154

#PENSAMENTOS_SOLTOS

Há, dentro do ser depressivo contemporâneo, um mundo colapsado após a explosão resultante do confronto violento e incessante entre a pressão social e a limitação do próprio indivíduo.

104

#PENSAMENTOS_SOLTOS

Inimizade com o mundo não é apenas inimizade com Deus, mas também com a alma – com o espírito.

76

#PENSAMENTOS_SOLTOS

Percorro as veredas do conhecimento com amor, paciência e prudência, para não tropeçar e cair no abismo da ignorância ou da loucura.

98

#PENSAMENTOS_SOLTOS

A Teoria da Relatividade está certa: vive pouco tempo quem vive rápido. A pressa é inimiga da vida longa.

98

#PENSAMENTOS_SOLTOS

A morte é a janela para a realidade.

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Comentários (3)

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solua_kuryos

Tens uns poemas de arrepiar mano

10012019

Olá, irmão! Obrigadão, tuliodias!

_tuliodias

Olá irmão!

Kanienga L. Samuel (José) é um pensador e poeta que escreve com o coração ferido e os olhos bem abertos. Entre a filosofia, a crítica social e a poesia, suas palavras nascem do espanto diante da dor humana e da esperança teimosa de que ainda podemos ser mais do que produtividade e aparência.

Crente de que a poesia é um sussurro de eternidade no barulho do mundo, seus versos abordam temas como a solidão, a pressão social, a fé, o fracasso e o brilho — esse novo imperativo silencioso que aprisiona gerações.

Nascido em Angola, escreve para não sufocar e para acender, com outros, uma pequena chama no meio da escuridão.