leal maria

leal maria

n. , Águeda

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a sombra das palavras

as palavras,
já gastas pelo tempo;
esbatem-se nas sombras do que senti.
e na impossível memória 
do sentimento,
folheio em parágrafos 
o sonho do qual fugi.

sentado… 
à espera não sei bem de quê…
olho o caminho…
nada nele se anuncia!
nem quando… 
nem como… 
porquê...?
que é feito do desejo
que então em mim havia?

passam e não lhes ligo.
ignoro as promessas de novas verdades.
Incomplacentes; 
cruas;
aprisionam-me as saudades…

deixo-me ficar!
expectante
no que já tomei como certo.
paradoxo 
em que me deixo enredar;
pelo conforto de um coração deserto. 

mas algo se move em mim!
há uma inquietude 
que me substancia .
não… não é ainda o fim!
surgir-me-ão novas palavras...
esculpirei nelas mais uma poesia!



leal maria (todos os direitos reservados)

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Poemas

31

a vontade

foi talvez o marulhar d´águas
o som nítido e claro na manhã soalheira
aquele esquecimento de todas as mágoas
uma manhã parecida quem sabe com a primeira

não se ouviam os pássaros no seu chilrear
só uma espécie de grandes corvos 
pairando algo sinistros no céu azul
e por uma vez em muitos meses 
ausentou-se a necessidade de matar
na vontade do homem da Europa do sul

e recordou os seios adivinhados 
das raparigas a quem amou
recordou os mercenários corpos 
onde aliviou os sentidos 
e um pouco da ilusão do amor que então buscou
nesses corpos onde repousam os amores perdidos 

e de novo
todos esses cheiros renasceram-lhe na memória
e a pátria lá ao longe já dele esquecida
vergou-o ao peso de ter que lhe escrever a história 
de ter que levar o impossível de vencida 

sentou-se na margem desse rio
observando-lhe o fluir sem pressa das suas águas de cristal 
e sentiu saudades da sua terra no estio
quando menino
lhe explorava montes e do mundo se ausentava todo o mal

deu-se conta que tudo isso ficou para trás
o seu fado era a infrutífera busca da fortuna no desconhecido
com ferros matava e com ferros iria morrer
mas pelo sonho valeria a pena por ele houvera renascido

o mar não o afugentou com o seu tenebroso rugir
resistiu ao frio à fome e ao escorbuto
sob a sua espada quem andava ao corso teve de fugir
aumentando-lhe o pecúlio com o seu produto

deu ao mundo novas coordenadas novas latitudes
outras vaidades e o sabor inebriante da especiaria
afectadas atitudes 
uma outra dimensão e um outro sentido à poesia 

nunca se fiou nas toscas respostas que lhe impunham
no mundo imenso perduravam-lhe tantos porquês
e era feito de mais coisas do que eles supunham
tivera a sorte que o destino houvera de o nascer português

foi talvez o marulhar d´águas 
sulcando mais uma ruga de expressão ao rosto do mundo
foi talvez a vontade
de realizar o sonho maior e o desejo mais profundo 


leal maria
799

seara maldita

de quantos horizontes encurtados,

na curva ascendente da vida;

precisam eles que sejam ofertados,

para alcançarem a terra prometida?

 

quantos gritos querem anunciados,

por quem no desespero se aprisionou?

por quantos corpos despedaçados,

eles acham que o céu se comprou?

 

férteis são os campos onde semeiam…

o  ódio dá-lhes profícua semente!

e nas frustrações que os rodeiam,

amortalham-se na promessa do eternamente…

 

que estranha forma de amar?

que estranha forma de obedecer?

objectivos no indiscriminado matar…

esperam recompensa no morrer!?

 

que Deus é esse que veneram,

atribuindo-lhe um amor que não têm?

e o paraíso por que tanto esperam,

é erigido no ódio com que nos vêem?

 

piedosos de dentes arreganhados,

corroídos  pelo que tanto invejam…

dissimulam, dizendo-se enganados;

renegando o que secretamente mais desejam.

 

férteis são os campos onde semeiam…

o  ódio dá-lhes profícua semente!

e nas frustrações que os rodeiam,

amortalham-se na promessa do eternamente…

 

 

 

 

leal maria

1 028

loucura

absorto
imune ao estéril murmurinho da multidão
pouco mais sou que um vivo morto…
a própria personificação da solidão

caminho alheio 
a estas paredes guardadoras de tantos segredos
passo-lhes de permeio
e o único tributo que lhes dou
é uma leve e distraída carícia com os dedos

feéricas, as cores da cidade
na sua orgia cromática
tentam-me num convite à insanidade
energia para mim ainda tão estática
onde continuo a não encontrar nenhuma verdade

tudo nela é-me irreal
mais etérea que esse lugar onde os sonhos se formam
bizarrias do meu mundo original
que em fugazes memórias a mim tornam

sei-me perdido
sou-me um paradoxo de loucura
razão desprovida de todo o sentido
gesto de ódio germinado em ternura

os corpos passam-me pelas mãos sem que os conheça
os rostos não passam de esgares destruindo a beleza que lhes vi
nada há nos seus sabores que me impeça
de me afundar ainda mais neste abismo aonde caí

irrita-me este embaraçar-me os passos
rejeito todo e qualquer vislumbre do que então havia
e se por momentos finjo render-me aos abraços
são para lhes adulterar o que têm de poesia

procuro a perdição
busco aquilo que os demais têm por medos
o completo vazio do coração
a divina mão de Deus a quem amputaram os dedos


leal maria (todos os direitos reservados)
732

(sem titulo)


vem… chega-ta aqui e vê!
olha o céu… vê-lhe os anjos a cair!
mas não me questiones o porquê,
da lágrima no canto do olho, quando para ti sorrir.

vem!
chega-te a mim de mansinho…
tem cuidado!
não me magoe essa tua ternura no olhar…
que o sentir talvez passe muito devagarinho;
e eu não tenha que te vir a sonhar.

alto!
deixa-te aí estar por um momento!
que eu quero assim ver-te;
corpo encarnado do sentimento…
quimera de um esconso deus, criado somente para querer-te.

vem de novo… caminha para mim!
mas encerra nos silêncios,
quaisquer palavra que tenhas para me dizer.
que eu já cheguei a um fim;
e se dou outro passo, espera-me o precipício;
e o peso de tantos sonhos me fará perecer…

mas… afinal, já aqui estás!
esconde pelo menos, no lábio, esse teu anárquico beijo!
aconcheguei-me nessa ilusão que me dás…
tentemos mitigar-lhe a intensidade do desejo.

nada de promessas!
saboreemos simplesmente, este intervalo que se deu à realidade.
que um tempo sem pressas,
nunca é suficiente para nos subtrair ao que será saudade.

deixa a minha mão agarrar a tua.
deixa que lhe sinta os segredos no seu toque de suavidade.
despe-te de todos os medos e vem-me de alma mais nua;
para que sejas minha nesta irreal e breve eternidade!

não… não olhes para o que atrás ficou!
concentra-te na fundamental razão pela qual vieste…
encontra no mais profundo de ti todo o sonho que te sonhou;
para que não te surpreenda o quanto ele pode ser agreste.

deixemo-nos por agora estar assim…
irmanados na duvida de qual será o próximo passo.
ao caminho ainda não lhe vislumbro o fim…
e eu quero a doce mortalha do teu abraço!

vem!
chega-te ao pé de mim e sente-me etérea, a perdição.
vê mais ainda, para lá do simples pormenor…
e dá-me, por favor, de volta isso que afagas na tua mão;
devolve-me o que sobrar desse meu amor…





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777

o canto da memória

guardo-te a um canto, 
no mais profundo de mim 
entre uma ténue luz
impondo-se à escuridão
nesse canto 
está a essência de onde eu vim
o húmus 
que fertilizou o meu primordial chão

fazem-te companhia 
as coisas da minha memória
por vezes esquecidas,
mas nunca deitadas fora
e nos caracteres 
com que escrevo a minha história 
deixo-me à tua guarda 
quando me for embora

sussurra-me na alma
(ela sempre te escutou)
as palavras 
que me atormentaram por tanto as desejar
esqueça-mos o tempo 
que para trás ficou 
que eu vou adiante 
e somente te deixo o meu sonhar

não! não sou eu que vou partir 
nem tão pouco irei chegar
é outro que no meu corpo há-de vir
que o meu “eu” está já cumprido 
e vai contigo ficar

guarda bem essa minha antiga morada
nela ficará o sal do meu mar
que entre a partida e a chegada
aí, nunca por ti findará o meu amar

que interessa o passado ou o futuro
aí…. será sempre presente
o tempo não se metamorfoseia num muro
e perene se torna 
o que no momento se sente

outro “eu” ocupará o “espaço”
que foi o meu lugar no mundo
feito pelos fragmentos 
dos muitos que me fizeram
que a vida
é um suspiro de um sonho profundo
e comigo levarei, a essencial substância 
“desses” muitos que me antecederam




leal maria
679

no arame

no arame… 
sobre tantos precipícios suspensos,
no periclitante equilíbrio da indecisão…
amorfos…
vejo amigos, vós, que sois imensos;
confiar o destino em alheia mão!

nascestes com a vida já hipotecada!
outros têm-vos como sua propriedade!
e tudo fazem
para que a vossa voz se mantenha calada, 
não vá a algazarra 
despertar-vos para dignidade.

e é com espalhafatosos laços, 
ornamentando-vos as belas indumentárias;
que vaidosos, vos deixais amordaçar.
mal sabeis que cavais a cova, 
onde lentamente vos estão a enterrar.

de sorrisos forçados nos rostos,
habitando-vos um imenso vazio.
viveis os dias engolindo desgostos
com a felicidade 
constantemente inalcançável por um fio.

e mesmo assim resignais-vos à vossa sorte.
sempre à espera do Homem providencial.
como se fosse possível adiar a morte;
e ficar a salvo de tudo quanto é mal.

em corpos de sinuosas geografias,
vendem-vos enlatada, a realização pessoal.
obrigando-vos a deixar para trás ancestrais poesias,
numa permuta sempre desigual…

alguém vos toca no ombro esquerdo
e olhais nessa direcção.
alguém faz o mesmo no ombro direito
e dai-lhes também a mão.

mas eis que outros vêm também 
reclamar-vos para o centro.
e vós, não lhes tributais o merecido desdém;
não vá algum ter miraculoso unguento. 

é nessa improfícua esperança,
que bailais o bailinho dos cordeiros amansados.
à espera da quimera que, garantiram-vos, se alcança,
no altar onde a esses Deuses sois sacrificados.

e das suas retóricas sem substância,
fazeis o filosófico credo 
com que alimentais os vossos filhos.
prometendo-lhes, 
ser deles o futuro que vislumbram à distância;
abstendo-os de escolher outros trilhos.

arre! arre… que sois bestas de carga!
cuspis nos corpos que se deceparam para vos fazer!
porque adocicais os lábios com bebida tão amarga,
quando o futuro está no que a vossa vontade quiser!?

é tempo de lhes mostrar qual é o caminho!
as escolhas serão tomadas por todos nós!
ninguém reinará sozinho;
que para isso se sacrificaram os nossos avós!

mas… a escolha é vossa!
tendes a opção de olhar em frente ou viver vergados.
mas se vos resignares a viver nesta permanente fossa,
mereceis esse semblante de permanente derrotados! 





leal maria (todos os direitos reservados)

755

see deeply in the sky´s your own destiny



see deeply... in the sky´s
not de clouds but the hope
which arises
in the brightness of your eyes
when you try break the rope

many found answers before you
in love in family
even in a words of a book
and they think they know what to do
trying changes
with a new soul or a new look

but you still lost
trying to bring your life a glorious day
nobody see how much cost
to do things your own way

go baby go strong
right to the end of an eternity
sings low an unknown song
put yourself
face to face with your own destiny

shouted the maximum you can
you must give fight to illusion
clarifies all things that do not understand
enter deeply into the feelings confusion

no matter the amount of your tears
crying is not a suicide
close your soul to all fears
just put all that you have inside

you know what the future is
is just a blank sheet
write it with your own hand
see where you put your feet

go baby go strong
right to the end of an eternity
sing low an unknown song
put yourself
face to face with your own destiny




Author: leal maria




754

sombras de fogos-fátuos

ofuscam-me as intensas luzes que achei
dissimuladas, são de outros as suas verdades
em vão foi que afoito as busquei
não servem para me iluminar as cidades

querem-me na forma que lhes convém
desenhado segundo os seus desejos
mas as minhas razões votam-nos ao desdém
que mentiras tenho eu de sobejos 

às realidades que me querem impor
respondo-lhes de dedo em riste 
que nos fogos-fátuos em que alardeiam ardor
vislumbro a escuridão que neles subsiste 

não serão eles dizer-me para onde vou
renego esses fornicadores de almas alheias
vejo bem a petulância que tanto os inchou
ao alimentarem-se dos cadáveres que repartem a meias

porque lá… no mais profundo que há em mim
outros são os abraços em que me irei amortalhar
recuso que me destinem um fim
não será pela força que me farão soçobrar 

do passado, ouço os gritos dos nossos avós
sepultados no limbo dos injustiçados 
perfilam-se no caminho para que não o faça-mos sós 
que passou o tempo dos homens escorraçados

vem então… junta a tua à minha vontade
retesa o braço para a batalha que se anuncia
assaltaremos a fortificada cidade
vergar-lha-emos à força da nossa poesia

na talha da palavra descobriremos 
o que há p´ra lá do que nos querem mostrar
e então o futuro far-se-á como queremos
e os gritos serão das canções que iremos cantar

por certo que erraremos algum compasso
haverá notas deslocadas das pautas
mas à nossa frente, todo esse mar aberto no espaço
encontrar-nos-á intrépidos nautas 

e do passado…
sepultados no limbo dos injustiçados
ouviremos os gritos dos nossos avós:
não queremos mais homens escorraçados
perfilar-nos-emos no caminho…
não o fareis sós! 



leal maria (todos os direitos reservados)

689

em mim, a memória do mundo

exigem-me um curriculum vitae...
curiosos,
pedem-me aquilo que sou contado como numa história.
tolos… 
não me vêm encimado num pedestal que não cai? 
não sabem que sou a humanidade em toda a sua memória!?

eu sou o soldado de Roma: o legionário;
para a batalha perfilado, entre a coragem e o medo…
eu sou o romance tirado ao imaginário,
de quem desesperadamente amava em segredo.

sou o inicio de um grito,
que se abafa sob a mão dos torturadores…
eu sou o dia bonito,
agradando à donzela que pinta no jardim as flores.

eu sou o infeliz e valente marinheiro,
que se levantou da morte mais vezes que as que caiu no mar.
eu sou o que se disse: “o primeiro!”
e sob o nome de seu senhor, veio as possessões reclamar.

eu sou o choro da criança ao nascer
e o desconsolado olhar da sua mãe de muitos filhos…
o gemido de lamento do velho ao morrer;
a coordenada que indicou os novos trilhos…

as minhas mãos têm sementes de fome e de pão!
na minha carne há o sabor de milénios de suor!
sou o furtivo vulto na escuridão…
sou feito de tantos e tantos poemas de amor!

sou o suicida que ao desespero se abandonou…
sou o soldado que se sacrificou pelos camaradas.
sou o sonho que uma vida inteira se buscou...
sou o tempo que diz que as coisas são passadas.

sou o actor da peça cheia de ambiguidades;
o dramaturgo de uma vida que não interessa a ninguém. 
sou a lágrima que inadvertidamente revela as saudades;
o cínico sorriso que tenta disfarçar o desdém…

sou o deus que virou a cara ao seu povo!
o sacerdote que perdeu a fé.
sou o pregador anunciando o mundo novo…
o sub-reptício politico prometendo “amanhás” ao sabor da maré

sou o lavrador que rasga a terra,
numa prece aos deuses da boa sorte.
sou a declaração de guerra,
que prenuncia campos cheios de morte.


sou tudo e esse tudo não me cabe na vida...
sou o que foi e o que vai ser!
sobre as brumas da memória já perdida…
sou eu (e tu) que trago às costas,
esta humanidade que se recusa a perecer…




leal maria





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715

a criação do mundo

contemplei a minha criação 
Agradando-me a sua agrura 
Mas no meu coração 
Senti faltar-lhe ternura 

Foi então que te sonhei 
Pontilhada de brilhos 
E na tua imagem me fixei 
Fazendo-te destino dos seus trilhos 

Tornei-te o geodésico ponto 
Da agreste natureza 
A fada do fantástico conto 
Que lhe suaviza a dureza 

E as montanhas na sua grandeza 
Prestaram-te vassalagem 
Porque viram na tua beleza 
Reflectida a sua imagem 

Então cometi, o original pecado 
De olhar-te como minha criação 
Desejando ser por ti amado 
Entregando-te o meu coração

 

 

leal maria

799

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