Lista de Poemas
o canto da memória
no mais profundo de mim
entre uma ténue luz
impondo-se à escuridão
nesse canto
está a essência de onde eu vim
o húmus
que fertilizou o meu primordial chão
fazem-te companhia
as coisas da minha memória
por vezes esquecidas,
mas nunca deitadas fora
e nos caracteres
com que escrevo a minha história
deixo-me à tua guarda
quando me for embora
sussurra-me na alma
(ela sempre te escutou)
as palavras
que me atormentaram por tanto as desejar
esqueça-mos o tempo
que para trás ficou
que eu vou adiante
e somente te deixo o meu sonhar
não! não sou eu que vou partir
nem tão pouco irei chegar
é outro que no meu corpo há-de vir
que o meu “eu” está já cumprido
e vai contigo ficar
guarda bem essa minha antiga morada
nela ficará o sal do meu mar
que entre a partida e a chegada
aí, nunca por ti findará o meu amar
que interessa o passado ou o futuro
aí…. será sempre presente
o tempo não se metamorfoseia num muro
e perene se torna
o que no momento se sente
outro “eu” ocupará o “espaço”
que foi o meu lugar no mundo
feito pelos fragmentos
dos muitos que me fizeram
que a vida
é um suspiro de um sonho profundo
e comigo levarei, a essencial substância
“desses” muitos que me antecederam
leal maria
fragmentos
Fragmentos…
gestos contidos contra a minha vontade
uma mal disfarçada verdade
o silêncio em que tudo digo sem nada dizer
um claro dia que principia a escurecer
meus passos sem um destino preciso
a causa na qual empenhei a alma
o código que mantenho omisso
a melodia embalando-me a tarde calma
a fúria que me turva o discernimento
a violência na minha mão alojada
a palavra que me dá corpo ao sentimento
o corpo da mulher amada
um sorriso fazendo-me feliz o dia
o sentido da vida num simples abraço
o segredo escondido na poesia
o tempo amordaçando-me com o seu laço
a imprescindível conversa que adiei
as batalhas nas quais combati
o sagrado que em vão busquei
o improvável amor que então senti
a memória de uma fraterna amizade
a circunstância sonegando-me o beijo
a fisionomia da intensa saudade
o delito de um inconfessável desejo
a sombra anunciando-me a companhia
o trilho que vou partilhando
o horizonte que o futuro então me prometia
o rosto que afinal continuo amando
…fragmentos!!
leal maria
(todos os direitos reservados)
lealparaquedista@sapo.pt
a criação do mundo
contemplei a minha criação leal maria
Agradando-me a sua agrura
Mas no meu coração
Senti faltar-lhe ternura
Foi então que te sonhei
Pontilhada de brilhos
E na tua imagem me fixei
Fazendo-te destino dos seus trilhos
Tornei-te o geodésico ponto
Da agreste natureza
A fada do fantástico conto
Que lhe suaviza a dureza
E as montanhas na sua grandeza
Prestaram-te vassalagem
Porque viram na tua beleza
Reflectida a sua imagem
Então cometi, o original pecado
De olhar-te como minha criação
Desejando ser por ti amado
Entregando-te o meu coração
no arame
sobre tantos precipícios suspensos,
no periclitante equilíbrio da indecisão…
amorfos…
vejo amigos, vós, que sois imensos;
confiar o destino em alheia mão!
nascestes com a vida já hipotecada!
outros têm-vos como sua propriedade!
e tudo fazem
para que a vossa voz se mantenha calada,
não vá a algazarra
despertar-vos para dignidade.
e é com espalhafatosos laços,
ornamentando-vos as belas indumentárias;
que vaidosos, vos deixais amordaçar.
mal sabeis que cavais a cova,
onde lentamente vos estão a enterrar.
de sorrisos forçados nos rostos,
habitando-vos um imenso vazio.
viveis os dias engolindo desgostos
com a felicidade
constantemente inalcançável por um fio.
e mesmo assim resignais-vos à vossa sorte.
sempre à espera do Homem providencial.
como se fosse possível adiar a morte;
e ficar a salvo de tudo quanto é mal.
em corpos de sinuosas geografias,
vendem-vos enlatada, a realização pessoal.
obrigando-vos a deixar para trás ancestrais poesias,
numa permuta sempre desigual…
alguém vos toca no ombro esquerdo
e olhais nessa direcção.
alguém faz o mesmo no ombro direito
e dai-lhes também a mão.
mas eis que outros vêm também
reclamar-vos para o centro.
e vós, não lhes tributais o merecido desdém;
não vá algum ter miraculoso unguento.
é nessa improfícua esperança,
que bailais o bailinho dos cordeiros amansados.
à espera da quimera que, garantiram-vos, se alcança,
no altar onde a esses Deuses sois sacrificados.
e das suas retóricas sem substância,
fazeis o filosófico credo
com que alimentais os vossos filhos.
prometendo-lhes,
ser deles o futuro que vislumbram à distância;
abstendo-os de escolher outros trilhos.
arre! arre… que sois bestas de carga!
cuspis nos corpos que se deceparam para vos fazer!
porque adocicais os lábios com bebida tão amarga,
quando o futuro está no que a vossa vontade quiser!?
é tempo de lhes mostrar qual é o caminho!
as escolhas serão tomadas por todos nós!
ninguém reinará sozinho;
que para isso se sacrificaram os nossos avós!
mas… a escolha é vossa!
tendes a opção de olhar em frente ou viver vergados.
mas se vos resignares a viver nesta permanente fossa,
mereceis esse semblante de permanente derrotados!
leal maria (todos os direitos reservados)
see deeply in the sky´s your own destiny
see deeply... in the sky´s
not de clouds but the hope
which arises
in the brightness of your eyes
when you try break the rope
many found answers before you
in love in family
even in a words of a book
and they think they know what to do
trying changes
with a new soul or a new look
but you still lost
trying to bring your life a glorious day
nobody see how much cost
to do things your own way
go baby go strong
right to the end of an eternity
sings low an unknown song
put yourself
face to face with your own destiny
shouted the maximum you can
you must give fight to illusion
clarifies all things that do not understand
enter deeply into the feelings confusion
no matter the amount of your tears
crying is not a suicide
close your soul to all fears
just put all that you have inside
you know what the future is
is just a blank sheet
write it with your own hand
see where you put your feet
go baby go strong
right to the end of an eternity
sing low an unknown song
put yourself
face to face with your own destiny
Author: leal maria
seara maldita
de quantos horizontes encurtados,
na curva ascendente da vida;
precisam eles que sejam ofertados,
para alcançarem a terra prometida?
quantos gritos querem anunciados,
por quem no desespero se aprisionou?
por quantos corpos despedaçados,
eles acham que o céu se comprou?
férteis são os campos onde semeiam…
o ódio dá-lhes profícua semente!
e nas frustrações que os rodeiam,
amortalham-se na promessa do eternamente…
que estranha forma de amar?
que estranha forma de obedecer?
objectivos no indiscriminado matar…
esperam recompensa no morrer!?
que Deus é esse que veneram,
atribuindo-lhe um amor que não têm?
e o paraíso por que tanto esperam,
é erigido no ódio com que nos vêem?
piedosos de dentes arreganhados,
corroídos pelo que tanto invejam…
dissimulam, dizendo-se enganados;
renegando o que secretamente mais desejam.
férteis são os campos onde semeiam…
o ódio dá-lhes profícua semente!
e nas frustrações que os rodeiam,
amortalham-se na promessa do eternamente…
leal maria

a vontade
o som nítido e claro na manhã soalheira
aquele esquecimento de todas as mágoas
uma manhã parecida quem sabe com a primeira
não se ouviam os pássaros no seu chilrear
só uma espécie de grandes corvos
pairando algo sinistros no céu azul
e por uma vez em muitos meses
ausentou-se a necessidade de matar
na vontade do homem da Europa do sul
e recordou os seios adivinhados
das raparigas a quem amou
recordou os mercenários corpos
onde aliviou os sentidos
e um pouco da ilusão do amor que então buscou
nesses corpos onde repousam os amores perdidos
e de novo
todos esses cheiros renasceram-lhe na memória
e a pátria lá ao longe já dele esquecida
vergou-o ao peso de ter que lhe escrever a história
de ter que levar o impossível de vencida
sentou-se na margem desse rio
observando-lhe o fluir sem pressa das suas águas de cristal
e sentiu saudades da sua terra no estio
quando menino
lhe explorava montes e do mundo se ausentava todo o mal
deu-se conta que tudo isso ficou para trás
o seu fado era a infrutífera busca da fortuna no desconhecido
com ferros matava e com ferros iria morrer
mas pelo sonho valeria a pena por ele houvera renascido
o mar não o afugentou com o seu tenebroso rugir
resistiu ao frio à fome e ao escorbuto
sob a sua espada quem andava ao corso teve de fugir
aumentando-lhe o pecúlio com o seu produto
deu ao mundo novas coordenadas novas latitudes
outras vaidades e o sabor inebriante da especiaria
afectadas atitudes
uma outra dimensão e um outro sentido à poesia
nunca se fiou nas toscas respostas que lhe impunham
no mundo imenso perduravam-lhe tantos porquês
e era feito de mais coisas do que eles supunham
tivera a sorte que o destino houvera de o nascer português
foi talvez o marulhar d´águas
sulcando mais uma ruga de expressão ao rosto do mundo
foi talvez a vontade
de realizar o sonho maior e o desejo mais profundo
leal maria
a vontade lavrando uma nova cidade
adivinho-te a inquietação.
aaah …
sossega esses ímpetos tão sôfregos.;
porque já é nossa…
temo-la na mão!
agora, só nos resta ir em frente!
não olharemos mais o que para trás ficará.
a noite surgirá mansa, de repente…
e será testemunha da justiça que pela nossa mão se fará.
sossega!
esquece os afagos que te embalaram as noites.
não há tempo
para a irmandade dos corpos esfomeados.
na peleja, golpeiam a escuridão com o som dos açoites;
juntemos-lhes todos os gritos que estão amordaçados.
olha e vê… tão ufanos que para nós vêem!
cavalgam uma razão que lhes dá cobertura há tempo de mais
mas recebê-los-emos como convém;
saciaremos os nossos campos com os seus gemidos e “ais”
chega-te bem a mim!
endurece com o teu corpo, o corpo desta falange.
principiaremos o anunciado fim,
desse deus que diz: “ tudo o meu abraço abrange!”
mas não foi a nós que enganou com as suas doces palavras!
Jamais fomos sacerdotes das suas liturgias!
nenhumas doutrinas se produziram nas nossas lavras!
nunca nos ouviram cantar-lhe as poesias!
que nos impede então de o devorarmos?
vamos… a cada um o seu quinhão!
e quando satisfeitos ficarmos…
deitar-nos-emos em descanso no duro e frio chão.
nesse momento; que tomaremos como sagrado,
dançaremos a dança da humana liberdade.
e da vontade, que foi e será o nosso arado;
ergueremos das rudes cinzas, uma outra cidade.
Leal maria (todos os direitos reservados)
(sem titulo)
vem… chega-ta aqui e vê!
olha o céu… vê-lhe os anjos a cair!
mas não me questiones o porquê,
da lágrima no canto do olho, quando para ti sorrir.
vem!
chega-te a mim de mansinho…
tem cuidado!
não me magoe essa tua ternura no olhar…
que o sentir talvez passe muito devagarinho;
e eu não tenha que te vir a sonhar.
alto!
deixa-te aí estar por um momento!
que eu quero assim ver-te;
corpo encarnado do sentimento…
quimera de um esconso deus, criado somente para querer-te.
vem de novo… caminha para mim!
mas encerra nos silêncios,
quaisquer palavra que tenhas para me dizer.
que eu já cheguei a um fim;
e se dou outro passo, espera-me o precipício;
e o peso de tantos sonhos me fará perecer…
mas… afinal, já aqui estás!
esconde pelo menos, no lábio, esse teu anárquico beijo!
aconcheguei-me nessa ilusão que me dás…
tentemos mitigar-lhe a intensidade do desejo.
nada de promessas!
saboreemos simplesmente, este intervalo que se deu à realidade.
que um tempo sem pressas,
nunca é suficiente para nos subtrair ao que será saudade.
deixa a minha mão agarrar a tua.
deixa que lhe sinta os segredos no seu toque de suavidade.
despe-te de todos os medos e vem-me de alma mais nua;
para que sejas minha nesta irreal e breve eternidade!
não… não olhes para o que atrás ficou!
concentra-te na fundamental razão pela qual vieste…
encontra no mais profundo de ti todo o sonho que te sonhou;
para que não te surpreenda o quanto ele pode ser agreste.
deixemo-nos por agora estar assim…
irmanados na duvida de qual será o próximo passo.
ao caminho ainda não lhe vislumbro o fim…
e eu quero a doce mortalha do teu abraço!
vem!
chega-te ao pé de mim e sente-me etérea, a perdição.
vê mais ainda, para lá do simples pormenor…
e dá-me, por favor, de volta isso que afagas na tua mão;
devolve-me o que sobrar desse meu amor…
leal maria
sombras de fogos-fátuos
dissimuladas, são de outros as suas verdades
em vão foi que afoito as busquei
não servem para me iluminar as cidades
querem-me na forma que lhes convém
desenhado segundo os seus desejos
mas as minhas razões votam-nos ao desdém
que mentiras tenho eu de sobejos
às realidades que me querem impor
respondo-lhes de dedo em riste
que nos fogos-fátuos em que alardeiam ardor
vislumbro a escuridão que neles subsiste
não serão eles dizer-me para onde vou
renego esses fornicadores de almas alheias
vejo bem a petulância que tanto os inchou
ao alimentarem-se dos cadáveres que repartem a meias
porque lá… no mais profundo que há em mim
outros são os abraços em que me irei amortalhar
recuso que me destinem um fim
não será pela força que me farão soçobrar
do passado, ouço os gritos dos nossos avós
sepultados no limbo dos injustiçados
perfilam-se no caminho para que não o faça-mos sós
que passou o tempo dos homens escorraçados
vem então… junta a tua à minha vontade
retesa o braço para a batalha que se anuncia
assaltaremos a fortificada cidade
vergar-lha-emos à força da nossa poesia
na talha da palavra descobriremos
o que há p´ra lá do que nos querem mostrar
e então o futuro far-se-á como queremos
e os gritos serão das canções que iremos cantar
por certo que erraremos algum compasso
haverá notas deslocadas das pautas
mas à nossa frente, todo esse mar aberto no espaço
encontrar-nos-á intrépidos nautas
e do passado…
sepultados no limbo dos injustiçados
ouviremos os gritos dos nossos avós:
não queremos mais homens escorraçados
perfilar-nos-emos no caminho…
não o fareis sós!
leal maria (todos os direitos reservados)
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