Leonardo Vianna

Leonardo Vianna

n. 1991 BR BR

n. 1991-11-28, Rio de Janeiro

Perfil
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Na minha janela

Cercado por conhecimento
Não sou menos escravo do que um operário.
Sou pior!

Soterrado por livros
Respiro com dificuldade,
Sufocado pelo verso,
Afogado na prosa,
Eu vivo - ou finjo viver.

E mesmo tendo fontes de ambrosia
Para o meu regalo,
Dou preferência à janela
Onde me debruço.
Não por amar a morte,
Mas por aprender mais com o que ela me mostra.

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Poemas

20

Apagada

Queria um brilho oculto vislumbrar
Da brancura dos teus dentes ao mistério do teu olhar.

Mas o destino vil e cruel
Fez o infortúnio de nos separar
Pra onde você foi? Paris, Roma ou Lua?
Desatinado fiquei com o descortinar desse véu
Plim! Apagada. De você não consigo lembrar
Não sei se daquela vez estava vestida ou nua
e se algum dia te amei.

Lembro-me apenas de uma brancura,
se era do seu brilho ou das estrelas
Mais uma vez não sei.
Acho que eram as estrelas...

624

Ano novo

Ao dar 365 passos,
Olho pra trás e pergunto-me:
"Que diferença fiz eu?"
E pergunto como um fantasma que passa despercebido.

585

A mula(ta)

- "Casa-te comigo, ó Xica
Serás livre e minha mulher
Tudo o que me pedires, nada te faltará!"

- "Quero, mas não posso, Sinhô
Sou escrava fugida de Alenquer
E logo viro ama-de-leite pra Sinhá."

- "Pois com Sinhá não quero mais ficar
Quero provar desse chocolate de negrinha."

- "Sinhá carrega sementinha que vai brotar
E o Sinhô aqui querendo dar escapadinha?
Aceito contigo me casar, me possua!"
Xica sonhadora pulou nos braços do Sinhô
- "Fala que sou tua!"
O Sinhô sorriu e logo se assanhou
mentiu-lhe ao ouvido e foram à estrebaria
Xica se preparou para, enfim, ser amada.

[A mulata virou mula
ou a mula mirou mulata?]

Mas o amor não veio, ele a violentou.
Sinhô fazia de um jeito que nem ela imaginaria
Xica chorava com tal ultraje, sempre calada.

Ao fim de tudo, ele disse que a amava
E foi-se embora, deixando Xica.
A mulata enganada maldizia sua sina
O pedido de casamento violento todo dia voltava

665

A foice

O tiquetaquear do relógio mata
Tão rapidamente um relacionamento
Do que as mentiras
Que a cicuta servida a dois.

As estrelas todas apagam-se;
O Sol parece que refulgia menos;
Tudo é um prelúdio sinistro
De uma possível morte.

Faça o que for possível, mas
Não faça nada.
Muitas vezes o ato deixa de
Ser uma ajuda para tornar-se
A foice.

672

1964-1985

Aos desaparecidos políticos.

Quem hoje é capaz de ouvir o grito dos esquecidos?
Heróis sem cavalos e espadas
E heroínas sem objetos mágicos, só armados
Com paus e pedras. Mas que com paus e pedras
Não deixaram de luta contra a tropa,
O governo,
O sistema,
O mundo...

Quem hoje é capaz de ouvir o grito de apelo de suas famílias?
Eles só queriam mudar o mundo,
Isso é um crime?
Crime é esquecer e empurrá-los
Para baixo do tapete, sem nenhuma cerimônia.

544

7 de Setembro

À República da espada sem sangue,
À Nação que nascia manchada,
Ao Estado tradicional e moderno,
Rico e pobre, branco, preto e índio,
de nativos e estrangeiros;
Desejo, indo na contramão,
Saúde, segurança, cidadania,
Paz, respeito (da criança ao idoso),
Boa política e só.

É o que desejam os paulistas,
baianos, curitibanos, goianos, manauaras
e toda nação à Nação.

514

Na minha janela

Cercado por conhecimento
Não sou menos escravo do que um operário.
Sou pior!

Soterrado por livros
Respiro com dificuldade,
Sufocado pelo verso,
Afogado na prosa,
Eu vivo - ou finjo viver.

E mesmo tendo fontes de ambrosia
Para o meu regalo,
Dou preferência à janela
Onde me debruço.
Não por amar a morte,
Mas por aprender mais com o que ela me mostra.

594

Logofobia

Preciso confessar-lhe meu medo
Medo de ter medo,
Medo do porvir,
Medo das pessoas.
Sobretudo, o meu medo das palavras:
Hipopótomonstroesquipedaliofobia;
Pneumoultramicroscópicossilicovulcanoconiose;
Hexacosioihexecontahexafobia.

Não!
Não dessas palavras,
Mas de outras mais aterrorizantes:
Acabou,
Fim,
Adeus.

748

Se é pra morrer

Se é pra morrer,
quero morrer de desgosto.
Nada mata tão rápido,
é preferível do que morrer sofrendo de uma dor pungente.

Parabéns!
Tu conseguiste me fazer cair de joelhos.
Agora, meus olhos injetados cravados nos seus,
num misto de dor e desespero,
loucos de amor, querem saber o porquê.

De tanta maldade, tanta ingratidão, tanta frieza...
Até agora nada entrou na minha mente
Como se houvesse um espaço vazio
Onde nenhuma peça se encaixa.

Espero que tal tormento acabe o quanto antes,
Pois se for pra morrer,
Quero morrer de desgosto.

553

Certo dia

Certo dia, um passarinho pousou na minha janela.
Não era um passarinho como outro qualquer,
era multicolorido, especial.
Seus diferentes tons e nuances despertaram meu vago olhar,
de súbito, me peguei num romance,
desses onde o improvável sempre acontece
e me dei conta da importância da ave.

Egoísta, pensei em aprisioná-lo
Numa gaiola velha e empoeirada,
Mas nada fiz;
Apenas sorri.

Agradeci a ele com um meneio de cabeça
E gargalhei como um desvairado,
Compreendendo tudo.

Ele bateu asas e foi-se embora, chilreando.
Me senti gratificado pela sua visita inusitada
Pois havia entendido, enfim, a importância de manter a janela aberta.
533

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