Também soltei meu barco na enxurrada
E fiquei olhando sumir
Também soltei minhas correntes
Já senti muita dor,
Não quero mais.
Será que você não entende?
Não quero jogar.
Quero ser,
Porque a vida é.
Quer ser comigo?
Liberte-se da ilusão de controle
Dos falsos poderes
Dos pequenos orgulhos diários
Liberte-se e venha.
Estarei aqui
Com os cabelos perfumados
à sua espera.
920
Louca, não sou
Louca, não sou
Tão pouco sou normal
As fronteiras não existem nas raias de um ser inteiro
Loucura é ser pela metade
Ser humano parcial
Guardar amores e segredos
Nesses cofres virtuais
Eu sou toda
Ou não sou
Até minhas reservas e medos
São públicos
O que escondo me revela
Aí minha insanidade:
Não renegar a loucura
Aceitar no corpo todo
Minha alma desigual
982
Pra chamar sua atenção
Pra chamar sua atenção
Fiz coisas bobas
Coisas boas
Outras nem tanto
Pequenas brincadeiras
Grandes bobagens
Mas desta vez
Exagerei
Extrapolei
Passei dos limites
E a verdade
É que quis que você visse
Que você soubesse
Que você sentisse
E a verdade
É que só quis
Mais uma vez
Chamar sua atenção
768
A cada dia me surpreendo
A cada dia me surpreendo
Com minha capacidade de errar
E tenho medo
Percebo que não me conheço
Que nunca me acostumo comigo
Minha casa é nômade
Meus vizinhos são outros
A cada dia
Meus caminhos móveis
Só me levam a Roma
E eu tomo sempre a estrada errada
Ainda que eu corra
Sempre que penso estar fugindo
É quando mais me aproximo
A cada dia mais perdida neste labirinto
De paredes fluidas
De emoções concretas
E me assusto
Nunca me acostumo comigo
Com minha determinação absoluta
De me contrariar
1 017
Busca
Tenho procurado um poema que me sirva
Que me descreva
Que me retrate
Mas, nesse momento
Nenhum poema me define
Nenhum é tão vago, tão vazio
Como é meu coração agora
Nenhum tão sozinho
Tão oco de paixão
Nem tão sedento.
841
Sua
Sua.
Sim.
Do jeito que você quiser
Com as condições que você impuser
A qualquer hora
Sua.
Amante, passatempo, distração
A transa de uma noite
Mas sua.
Acaso, acidente, descontrole
Bebedeira, fim-de-noite
Não te quero pra sempre
Bocejo, remela, insônia
Só quero, assim, de repente,
Ser
Sua, sua, sua, sua...
889
Sei que não sou a garota do poema
Sei que não sou a garota do poema
Mas me deixe sonhar um pouco.
Sei que não sou a menina dos teus olhos
Mas gosto de pensar que sou
Sei que não são minhas as pernas que povoaram teus sonhos
Mas...
Que importa?
Ter suas palavras escritas é como ter sua cabeça numa bandeja de prata:
Posso fazer delas o que eu quiser.
E faço.
Torço suas palavras
Dou a elas significados secretos
Possuo tuas palavras
Saboreio meu poder
Eu, Salomé, filha de Heródias.
Te possuo desta forma
E você não pode fazer nada
Não pode fazer nada
Tua cabeça no papel branco
E eu beijo
Finalmente beijo a tua boca
Mordo tuas palavras
E agora?
Agora, você não pode fazer nada.
Eu possuo tua cabeça
E você não pode fazer absolutamente nada.
829
Pontal
Ruínas do pontal
De Atafona
Minhas ruínas
Sonhos
Que o mar, sem piedade
Corroi
Desmantela
Açoita
Destroi
E leva
como sair consigo se o mundo muda e nos mudamos o mundo?
que bom ler teus poemas de novo andei sumido mas voltei com vontade de ver coisas belas por isso estou aqui diante de teus poemas um grande abraço
Lindo!! Parabéns!!