Contraste
A mentira seduz a verdade
A paz dança com a guerra
Onde está a minha liberdade
Se eles julgam quem erra?
Vou calar de tanto falar
Meu coração tenta enganar
Mas minha mente não mente
E sente que é diferente
Ele nega que amor rima com dor
Amador
Ele diz que não há ferida que coce
Precoce
Ele não se manifesta no novo ato
Novato
Ele expressa intolerância e eu aturo
Imaturo
A antítese movimenta o mundo, compare
O luxo com o traste, contraste
Tarde demais
Haverá um dia todo cinza, em que será tarde demais
Um dia em que não exisitirão essas vaidades atuais
Um dia em que todas as árvores cortadas virarão papel
Um dia em que o ser humano será julgado como réu
Haverá um dia em que sobrará clemência
Um dia em que não adiantará de nada toda a ciência
Um dia em que será valorizada a sustentabilidade
Um dia em que vai supersaturar toda a cidade
Haverá um dia em que existirá vida em outro planeta
Um dia em que cairá toda a areia da ampulheta
Um dia em que não existirá céu nem inferno
Um dia em que o exterior valerá menos que o interno
Haverá um dia em que será valorizada a amizade
Um dia em que saberão o conceito de “sociedade”
Um dia em que todos estarão sem terno e gravata
Um dia em que não valerá de nada o ouro e a prata
Haverá um dia em que o nariz empinado vai se curvar
Um dia em que o seu computador e telefone vão falhar
Um dia em que todos lembrarão do continente africano
Um dia em que vão respeitar o a religião do muçulmano
Haverá um dia em que a roda vai parar
Um dia em que o teu amor não irá te chamar
Um dia em que a banda não irá passar
Haverá um dia em que existirá respeito com gays e afins
Um dia em que morrerão as flores de todos os jardins
Um dia em que os meios justificarão os fins.
Adão
Você me conquistou pela dificuldade
Ela pela confusão
Você pela vontade
Ela pelo coração
Você pela cidade
Ela naquele vagão
Você na continuidade
Ela na baldeação
Você me conquistou pela seletividade
Ela pela coleção
Você pela velocidade
Ela pela contramão
Você pela idade
Ela pela ilusão
Ela pela viagem
Você pelo pé no chão
Você me conquistou pela humildade
Ela pela presunção
Você pela tranqüilidade
Ela pela irritação
Você pela incerteza da verdade
Ela pela certeza da atuação
Ela pela brevidade
Você pela duração
Mentiras sinceras
Escancaro nosso amor pelo céu
Deixo-o passear por um zepelim
Uso social completo e compro o véu
Pra você acreditar em mim
Invado seus sonhos
Desperto sua madrugada
Pinto seu rosto em óleo sobre tela
Faço todas as curvas da sua estrada
Dou-lhe todas as cores da aquarela
Troco açúcar pelo adoçante
Aprendo a amar seus trejeitos
Vou de apartidário a militante
Esqueço todos os nossos defeitos
Trago um pedaço da lua
Viro lanterna pra sua escuridão
Se estiver incendiada de raiva
Faço chuva
E só deixo queimando o seu coração
O livro que você adora eu leio
Faço o pôr do sol não ter mais fim
Dedico-te o meu melhor devaneio
Pra você acreditar em mim
Vou fugir de Pasárgada
De Pasárgada eu nada gostei
No começo um pouco, mas já enjoei
Deram-me uma mulher que não quero
Mandaram eu ser amigo de um rei
Tentei deleitar o tal monarca
Mas aqui nem ele eu agradei
A existência aqui de aventura
Seria quase menor que nula
Se Mãe-d’água não me narrasse
A história de Rosa tão pura
Porque aqui não sou instruído?
Porque nada aqui é empírico?
Tudo já fora bem construído
Sob a ótica do mundo onírico
Aqui em Pasárgada tem tudo
E este é o maior problema
Procuro neste jardim do Éden
O fruto proibido carnudo
Que me livre deste sistema
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Farei da vontade uma ordem
E do paraíso vou me libertar
Mariana
Quando eu vi Mariana
Na sua forma mais linda
Não percebi que ainda
Estava cercada em liberdade
Eu, que bebia na sua fonte
Carrego escombros túrbidos
E os meus ombros úmidos
Se enfraquecem de saudade
O Sol que arde dentro de nós
Justifica essa sobrecarga
A foz, a voz, avós a sós
Inundam essa vida amarga
Se, no seu passo tímido, eu encontrei paixão
É porque seu ritmo me engana
Rio doce que me afoga de sal, hipertensão
A vida insiste em continuar, Mariana
No seu vestido terracota escuro
Eu escorri como dois rios inteiros
Sem direção, contramão
Ação de um empreiteiro
Você virou minha obra mais bela, Mariana
Construída pelo Pai, pela Mãe
Pelo Espírito Santo
Amém e amem
Destruiu hectares de acalanto
O que restou da nossa vida leve
Vida louca, vida breve?
Leva uma vida bela
Como uma chuva que escreve
Eu sem você, Mariana
É uma família sem casa
É uma cidade sem água
É uma nódoa sem mágoa
É um pescador sem o peixe
Agricultor sem o feixe
Um Índio sem tribo
Farinha sem trigo
Mariana foi um rio que passou em minha vida
Assim, efêmera, líquida
Não mais insípida, tampouco incolor
Inodora, e agora?
Mariana, você roubou o meu amor
Poema tirado de um poema tirado de uma notícia de jornal
Joãozinho Gostoso era morador do morro Chapéu Mangueira
Cresceu sem pai e fazia vapor de segunda à sexta-feira
Ouvia “Um homem na estrada recomeça sua vida”
Sem nunca ter visto asfalto, não encontrou uma saída
Era conhecido no morro como JotaGê
Tinha o sonho de ser soldado na CDD
Dizem que seu pai se suicidou afogado
Mas, na lagoa Rodrigues de Freitas, o corpo nunca foi encontrado
De sábado ia no baile com o amigo aviãozinho
E de domingo jogava bola sem chuteira no campinho
Sua vida era rotina igual a Construção de Chico
Quando faltava alguém de olheiro pedia “deixa que eu fico”
Uma noite, ele quis impressionar o dono do morro
Vendeu daquela vez como se fosse o único
Roubou daquela vez como se fosse a útlima
Matou um homem fardado como se fosse mágico
E morreu na própria mão atrapalhando o tráfico
Eu sempre tive medo
Vejo a historia se repetindo e meu voto falido
Pessoas que, discutindo, não veêm o país caído
E mesmo eles tentando desfocar o meu olhar
Estou puto com o corrupto e esse luto me faz lutar
Não te convidaram para a festa do golpe?
Seu inimigo está no poder e já tomou posse
Não te ofereceram nem um cigarro?
A fumaça que eu trago vêm da bomba do estado
E eu trago em metáforas o medo de te eleger
Eu trago o nome da rosa com certidão e RG
Eu trago informação que um dia um professor me disse
Pra ser sincero
Eu sempre tive medo daquele vice
O passado tinha mais futuro do que o presente
Digo o passado recente, não aquele dos tenentes
Pegando sempre os exemplos ruins lá de fora
A casa das cartas virou jogo do bicho! E agora?
E agora John? E agora George? E agora Michel, o que nos resta?
E agora José, você que faz versos, que ama, protesta?
Não veio a utopia, não é igual Forrest Gump
Fogo em babel que essa é Babylon by Trump
E eu sempre tive medo daquele vice...
Toca o hino, dá discurso, só que esquece
Que o Brazil que voce ta falando é Brasil com S
Brasil de brasileiro que da luta nunca fugiu
Morreu alguém, e a ficha ainda não caiu
Democracia que não me deixa ser democrata
Mania de mantê-la abstrata
Mandato que nem metade ela cumpriu
Derrubaram a ficha, e a minha ficha caiu
Entre tópicos e trópicos
Garota carioca, o seu rosto é Laranjeiras
Sua pele que me toca, o teu corpo é Mangueira
Curva
Da Urca, gira enfeitiçada da Tijuca
Que girou
Me sinuca, me truca
Pede 6
E desce do Troncal 3
Eu quero 12
Você na areia fazendo pose
Outro close, escolhe qual foto que você quer
Não quero um romance igual o do Buscapé
Quero jongo à luz do luar, sal e o sol que me consome
Quero escola de samba, mas sem Beija-Flor de codinome
É por mim, por você, por Ogum e Iansã
É pela terra, pela carne, pelo samba no morro
Vou guardar o seu amor toda manhã
Com senha e corrente num cofre boca de lobo
Do topo da favela numa varanda
Penso em uma sacada pra te impressionar
Uma que te deixe mais contente
Do que qualquer uma de frente pro mar
Entre caminhos e passeios pela orla
Ela é prata como a areia que pisamos
Dois pássaros soltos da gaiola
Presos na liberdade que criamos
Somos todos um bando de perdidos
Nos encontrando nos desencontros
Procurando, em lojas 24 horas, livros já lidos
Com finais de frases sem três pontos
Entre tópicos e trópicos, quero andar aí
Estar aí, de Cosme Velho até o Andaraí
Ver o Pôr do sol tingido de laranja, resfriando o calor
No asfalto de Ipanema, indo pras pedras do Arpoador
Ela é tão preto e branco, mas cheia de cor do lado
Um amor panóptico de cima do Corcovado
E a cidade não estava mais cinza
O Cristo rasgou as nuvens do céu nublado
Simbiose
Das coisas que nos separam
Não sei se culpo o tempo ou o vento
Culpo você
Pois eu pelo menos tento
Que tragédia achar culpados no amor
Ao invés de achar uma solução
Que catástrofe natural
Éramos simbiose em evolução
Suas obviedades eram imprevisíveis
Suas futilidades eram necessárias
Ela perguntava quais as minhas intenções
Eu respondia: “várias”
A sua forma era perfeita
Curvas tropicanas
Achei significado
Até nas poesias parnasianas
Ela é a prova real do clichê
O clichê existe por causa dela
Assim como o Sol
Numa folha qualquer de “Aquarela”
Mas o futuro não estava ali
Esperando pela gente
Ele estava ocupado demais
Atrapalhando o presente
E eu ocupado demais
Planejando o futuro... demérito
Agora gasto o meu tempo
Escrevendo o pretérito
Mais-que-perfeito (espero)
Ir ao litoral para olhar as estrelas
Deitado em seu colo
Você respirando
Vendo os planos que eu bolo
Torcer pra não ser mais uma
Das ilusões amorosas
Constelar o céu da sua boca
Lume das estrelas mais brilhosas
Delinear a lua na rota
Embaralhar o céu e mar azul
Criei um novo zodíaco
As pintas do seu rosto indicavam cruzeiro do sul