Extravaso sangrias Transbordo todas as margens Se uma imagem vale mais que mil palavras Eu faço uma palavra valer mais que mil imagens
Nasci em um mundo triste Que coloca vidas em jogo Os dentes são armas brancas Que desarmam qualquer arma de fogo
Mas ninguém percebe E eu não julgo quem julga o livro pela capa Fomos educados assim Méritos a quem dá a cara à tapa
Criei a minha própria licença poética As replicas te imitam As métricas te limitam Então eu não devo nada à estética
Prefiro deixar meu povo rico Fazendo rimas pobres Do que fazer rimas ricas E ver o povo dominado por nobres
Concordar nunca me fez gostar Amar não quer dizer amor Lamentar nunca me fez ganhar Guardar nunca me fez rancor
Coma antes o salgado para dar valor ao doce Repense todos os velhos ditados Os sonhos parecem bem mais fáceis Quando estamos deitados
E se os moinhos de Dom Quixote forem verdade? E se eu tiver um dom que choque a sociedade? Busco uma pseudoverdade que me empolgue Faço minha arte e não dou ouvidos, igual Van Gogh
Jogue a rede para o outro lado e não pegarás um salmão Serás apenas protagonista de um salmo O bom marinheiro não vê a hora De navegar em um mar calmo
Eu sou mais um heterônimo do Fernando Pessoa Mais um sotaque de Caetano Um pingo da garoa Uma gota no oceano
Sou a volta da democracia Mas também um país em crise Eu sou a malandragem de um samba Com a classe de Für Elise
Piso devagar, não porque já tive pressa, Mas porque esse chão não é meu Os apressados ainda vão olhar para mim E falar “esse erro ele não cometeu”
Falo muito “Eu”, confesso Não que eu seja a primeira pessoa Nem que eu esteja cego É só um manifesto Do meu ID contra o Superego
Quando o contemporâneo virar clássico Isso não será mais heresia Referências são cortesias Prende o poeta, mas não prende a poesia
Talvez tenha nascido tarde demais, por não ter levado a antropofagia de seus versos à Semana de Arte Moderna, não ter vivido o folclore e a loucura de Macunaíma, não ter admirado Iracema, ou por não ter escrito um samba com Vinicius de Moraes. Talvez tenha nascido cedo demais, por ser à frente do tempo. Mas, nasceu na época certa. Trouxe a vanguarda de seus versos carregada de uma iconoclastia subversiva e, ao mesmo tempo, romântica.
O poeta morreu De amor Mas continua vivendo Foi ao inferno e ao céu Voltou E continua apenas sendo
Sobrevivente e não mais vivente Corpo são e alma doente Sobrevive, mas não vivencia Vive no limbo e morreu na poesia
Ela não soube dar valor a quem lhe amou de verdade O melhor, poeta, é voar para longe dessa vaidade Sua alma reencarnou na frieza e escuridão Nenhuma aurora ou céu azul dá-lhe cola ao coração Nesse universo onde a escuridão é regra e a luz é exceção
O que era melodia virou barulho e confusão Não tem mais banda, só sobrou a percussão Os batimentos desaceleraram em desilusão Provando ao poeta Que tem música que é melhor sem ler a tradução
O poeta vai ter de arranjar outro ofício Psicólogo, cardiologista, filósofo Mas é difícil, verso é vício É curativo para um coração partido
Conversa com o verso, peito doído e pulsando Pois um bom partideiro só chora versando Sofre no amor pois a ingenuidade faz parte Ingênuo, é poeta e ainda não sabe Se a arte imita a vida ou a vida imita a arte
O poeta morreu Parou de escrever Não por falta de talento Ele padeceu Está morto por dentro
106
Sistema Solar
Amar-te juro que eu irei para sempre Abjugarei de toda desordem da Terra Que vive num eterno mundo de guerra Para viver em teus sonhos impudentes
Palejarei deveras bem menos à luz da lua P’ra ruborescer ao mártir de teu coração E do satélite minguante não quero ilusão Que a doce mentira de uma paixão mútua
Quem sabe amando em outra gravidade Os sentimentos não ajeitam um eclipse Que amar tenha menos responsabilidade
À Marte, juro, está na hora da decolagem No fim, todos os astronautas carminados Constataram que amar é a melhor viagem
73
Entre nós
Ilê Aiyê trouxe nova aurora Enredo para um samba de amor Pessoas cheias de glitter por fora Mas você trouxe brilho interior
Não sei se nosso romance vira tema de simulado Ou apenas tema de mais uma redação Uma nuance, problema dissimulado Mas não 5 parágrafos de dissertação
Para te descrever, preciso de mil estrofes Sonetos, baladas e rondós E por mais que eu filosofe Não conseguirei desamarrar nós
Ou desamarrar-nos Deste laço cego Seu corpo tem rimas Que só eu enxergo
Você não é mais uma poesia Que eu escrevi durante a tarde És verso de madrugada Sono que some, peito que arde
Um amor dissílabo, confesso O único “Eu” da relação é lírico Tudo é “Você“, me expresso E peço análise de algum crítico
Que me criticou, apontou meu problema Sofro por amores que ainda não vivi O seu sorriso é um poema E é mais lindo do que todos que eu já escrevi
148
Romance Analfabeto
Eu sabia seu ponto “G”, Mas na hora “H” do dia “D” Um plano “B” que improvisei Veio a calhar
Apertei a tecla “F” E num blefe disse “Mova-se Eu só volto quando eu for seu plano “A”’
Resolvi me despedir, vou por aí Vou botar o pingo no “I” E deixar um “Q” de saudade
Assim ela ficando só Talvez perceba que é o “Ó” Não ser amado de verdade
Seu corpo era uma curva em “S” Sua boca, o quociente em fração Seu coração inconsequente Bombeava sangue quente Seu consciente era o “X” da questão
Todo dia ao amanhecer Ela era vitamina “C” E aumentava a minha imunidade
Era azeite de dendê Mas eu quis Vitamina “D” Sair na rua e tomar sol pela cidade
Dentre “N” opções Entre bares, corações Rodas, amigos e canções Eu te escolhi
Esse B.O não é mais meu Eu não plantei o que tu deu Pra tá colhendo o que eu colhi
Seu corpo era uma curva em “S” Sua boca, o quociente em fração Seu coração inconsequente Bombeava sangue quente Seu consciente era o “X” da questão
84
Meio bossa nova e rock'n'roll
Ela é uma Blitz na hora do Rush No meio da Highway to Hell De veludo com um revolver Aponta a escada para o céu
Quer seu nome brilhando em Led No corpo de um Zeppelin E uma placa Metallica Escrito “eu te quero só pra mim”
Ela discute signos, sou peixes Dead Fish nas Águas de Março Ela é Scorpions, decidida Leva a sério, mas eu disfarço
Minha Queen mal sabe Que Ultrajes rigorosos não me comovem Ela me xinga, eu respondo: “U2” E continuo sendo um Bon jovem
Mas eu lhe dou um Kiss A gente esquece as Guns Foca nas Roses Que Ogum exime os afãs
Quando tudo estiver Red e Hot Ela atinge na minha cama O bpm da MPB E o estado de Nirvana
Fica tudo no Bem Bom Toco um love song Acabou o chorare You shook me all night long
Seu Nélson Motta deu a nota Que hoje o som é rock'n'roll E esse clipe sem nexo Faz parte do meu show
263
Vanguarda
Substantivo feminino Com todas as fases da literatura Seu corpo é só poesia E, por isso, prende a minha leitura
Seu cabelo, reticências Suas pernas, versos prontos Sua boca é uma cantiga Suas pintas são os pontos
Uso a língua para marcar suas páginas Torno meu hábito mais prático Não deixo a sua aventura chata Como um livro didático
Quero ler seu corpo desde as orelhas Desde a contracapa até o prefácio Sem ordem, objetivo e simples Naturalista como José Bonifácio
Suas antíteses barrocas Dividem meu desejo Quero os prazeres mundanos De tudo que eu vejo
A salvação está na paz bucólica No “Fugere Urbem” do Arcadismo Sua respiração é o Carpe Diem Que me deixa à beira do abismo
Seus olhos simbolistas Transcendem o surreal Faz-te arte pela arte Parnasiana, rigor formal
Capítulos divididos O miolo eu sei de cor Por isso que lhe traduzo Em redondilha maior
Não te faço um haicai Pois isso não lhe transcreve Faço de ti um texto longo Com conteúdo leve
Seu corpo é um manifesto Estruturado em cada etapa Em cada vírgula Ah, se eu tivesse julgado pela capa...
280
Poema de catorze faces
Extravaso sangrias Transbordo todas as margens Se uma imagem vale mais que mil palavras Eu faço uma palavra valer mais que mil imagens
Nasci em um mundo triste Que coloca vidas em jogo Os dentes são armas brancas Que desarmam qualquer arma de fogo
Mas ninguém percebe E eu não julgo quem julga o livro pela capa Fomos educados assim Méritos a quem dá a cara à tapa
Criei a minha própria licença poética As replicas te imitam As métricas te limitam Então eu não devo nada à estética
Prefiro deixar meu povo rico Fazendo rimas pobres Do que fazer rimas ricas E ver o povo dominado por nobres
Concordar nunca me fez gostar Amar não quer dizer amor Lamentar nunca me fez ganhar Guardar nunca me fez rancor
Coma antes o salgado para dar valor ao doce Repense todos os velhos ditados Os sonhos parecem bem mais fáceis Quando estamos deitados
E se os moinhos de Dom Quixote forem verdade? E se eu tiver um dom que choque a sociedade? Busco uma pseudoverdade que me empolgue Faço minha arte e não dou ouvidos, igual Van Gogh
Jogue a rede para o outro lado e não pegarás um salmão Serás apenas protagonista de um salmo O bom marinheiro não vê a hora De navegar em um mar calmo
Eu sou mais um heterônimo do Fernando Pessoa Mais um sotaque de Caetano Um pingo da garoa Uma gota no oceano
Sou a volta da democracia Mas também um país em crise Eu sou a malandragem de um samba Com a classe de Für Elise
Piso devagar, não porque já tive pressa, Mas porque esse chão não é meu Os apressados ainda vão olhar para mim E falar “esse erro ele não cometeu”
Falo muito “Eu”, confesso Não que eu seja a primeira pessoa Nem que eu esteja cego É só um manifesto Do meu ID contra o Superego
Quando o contemporâneo virar clássico Isso não será mais heresia Referências são cortesias Prende o poeta, mas não prende a poesia
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Solidão com vista pro mar
Quando ela tirou os pés da areia O que era sereno virou ressaca O que era comunhão virou solidão O que era convicção virou casaca
O mar, vasto, ficou estreito O sol, extrovertido, desvaneceu O céu, intrometido, ficou na dele E o sonho, todo azul, adormeceu
Eu, que fumo, apaguei o meu cigarro Eu, que bebo, dispensei um conhaque E a água que molhava minhas canelas Cancelava o meu embarque
O amor nunca coube numa janela sobre o mar Nem em um trapiche ou bangalô E eu não sei dançar tão devagar Para acompanhar Oguntê, Ynaê e Marabô
A maresia me ofereceu sinestesias Que nunca foram combinadas antes Perdi-me entre contos, sambas e poesias Entre Jorges Amados e amantes
Perdi-me no canto do recife Nas vozes de um coral sem cor Agudo como um barítono Grave como um tenor
Meu peito formiga, ela nunca foi abelha Sempre dei mel, erro meu Ela é cigarra, é cigana É obliqua, e o dissimulado sou eu
145
Carta de amor
Ridícula igual todas as outras Esdrúxula igual Álvaro um dia escreveu É ridícula por ser de amor E digna de quem já sofreu
Escrevo mesmo assim Sem vergonha de ser patético Cético ao ponto de acreditar E acreditando ao ponto de ser cético
Você me fez voar mais alto do que Dumont E escrever melhor do que Drummond Eu sei que vou te amar em cada despedida Mais do que a música do Tom
Ave de rapina, sofisticada como anis Minguante como 1/3 da lua Depois de 14 beijos, eu pedi bis E lembrei ¼ de você nua
Estudei as três do romantismo Pra chegar à fase que estou Inexplicável e surreal como Ismália Que por um sonho se jogou
Vivo a “Lira dos Vinte Anos” Cantando a “Canção do exílio” Boêmio urbano Postiço como um cílio
Descartável igual flecha Fiz cego ver, milagre de um cupido Dancei com o seu cabelo E te ganhei com uma fala mansa ao pé do ouvido
Prometi a mim mesmo Que não ia escrever uma carta de amor Mas escrevi, não só para depor Mas para não ser Ridículo