Luciano Machado Tomaz

Luciano Machado Tomaz

n. 1986 BR BR

Escritor e tradutor.

n. 1986-03-24, Mariana, MG

Perfil
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Vida-mundo

“En mi pecho, plaza de toros, pelean la libertad y el miedo”
(Eduardo Galeano)

Eu conheci a vida.
Sim, eu conheci a vida!
E digam o que quiserem,
É a ela que devo meu templo,
Meu corpo.

Homem: ser pateta que
Caminha, moribundo,
Em direção ao nada.

Sabe seu destino,
Tenta ignorá-lo:
Entristece.

Ser que cria mundos,
Devora significados,
Implora misericórdias
E dança com a morte.

Pode haver sentindo
Na tragédia do ser?

Eu conheci a vida!
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Poemas

6

A Serpente em Versos



“Elas se movimentam em ritmo amplo, livre, em nobre sinceridade, em uma paixão que é suprapessoal; elas ardem com o fogo poderosamente calmo da música que brota nelas de profundidades inesgotáveis — mas tudo isso com que fim?”
NIETZSCHE

I
A música é como um poema ao avesso,
Escrito de dentro pra fora.
Versos devorados por entranhas:
Notas autofágicas.
Realidade bruta:
Beleza do inarmônico,
Contratempo na sagração.

Ruivos tons e passo em falso:
Poesia atemporal, esteta.
Poetas em pedaços,
Caprichos bem temperados:
Inverno quente, de barro.
Cravos esperando a primavera.

II
Diz da serpente, o rastejar,
Lugar-comum do ignorante.
Na serpente só há voo,
Sobre o tempo, ela esquece.
Enxerga o escuro: a solidão.

Não vê razão no mundo,
Prefere destruir.
A serpente se arma
Cria o mundo,
Devora o homem.

III
Caça e caçador,
Na ponte do impossível:
O bote, na hora certa,
Devora a presa.

Espaços de existir,
Luares e venenos:
Debussy.

A serpente em fuga:
Matizes de outono,
Força bruta.
Sob os olhos de Deus,
O diabo na música.

Movimento e dança
Corpo que responde a instintos,
Intestino que canta.

Cromatismo na ruína do tempo.
Gosto de morte:
Gritos de Wagner,
Sussurros de Mahler.

Cartas de amor
No silêncio das lápides.
A serpente em pedaços,
Implodida e refeita -
Agora, avessa a tons,
Foge de tríades:

Mergulha no infinito:
Um novo universo
Em doze dimensões.
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Bravo!

“Como un arco de viola
El grito ha hecho vibrar
Largas cuerdas del viento.”
Federico García Lorca

I
A arte desperta a alma,
Despeja no homem
A graça do artista
Que salta, sem medo,
No abismo da fé.

II
O mergulho preciso
Ilumina o palco e,
Na plateia escura,

A criança sorri,
Colorindo a noite.

III
Brotam, das cortinas abertas,
Narizes vermelhos,
Bailarinas e mágicos;

Mulheres bonitas
Partidas ao meio.

IV
O rito desafia o tempo.
Na cor da lona,
O risco da chama.

A chance de ver
O palhaço chorar.

V
A tragédia da vida
Que imita a arte
No teatro do mundo.

Imprecisa: no espelho,
O circo é outro.
34

Vida-mundo

“En mi pecho, plaza de toros, pelean la libertad y el miedo”
(Eduardo Galeano)

Eu conheci a vida.
Sim, eu conheci a vida!
E digam o que quiserem,
É a ela que devo meu templo,
Meu corpo.

Homem: ser pateta que
Caminha, moribundo,
Em direção ao nada.

Sabe seu destino,
Tenta ignorá-lo:
Entristece.

Ser que cria mundos,
Devora significados,
Implora misericórdias
E dança com a morte.

Pode haver sentindo
Na tragédia do ser?

Eu conheci a vida!
36

Mariana imaginária


(Dedicada a Mariana: a cidade e o sonho)

Caminho com o pensamento imóvel.
O corpo dança.
A praça do Rosário, o jardim.
O cheiro da igreja em cada canto,
Em cada rosto.
O tédio da semana implorava uma sexta-feira.
Na orgia do sábado cantavam, loucos,
Os homens: esperavam uma mulher,
Que nunca chegaria.
Os vinhos tragados, derramados.
A estética provinciana.
Os olhares admirados,
Fascinados com o trivial.
A cidade permanece em transe,
E, assim, permanece bela.
Eu, cansado, sou outro.
Meu sonho, soberbo, ainda é ela.
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Poética do Pó


“Là où ça sent la merde ça sent l’être.”
ANTONIN ARTAUD

Ouvir os versos do cansaço
Fluindo por bocas miseráveis:
Eis o poema bruto, a única verdade!

Todo o resto são floreios sem sentido;
Delírios de um lirismo doente;
Doses, cuidadosamente administradas,
De uma poesia incapaz.

Não! Nunca a experiência da grandeza
Que esmaga, nem o suor falso dos atletas.
Quero procurar palavras leprosas
Que soem como uivos de agonia
Aos ouvidos acostumados aos sussurros,
Quase doces, das canções de amor.

Que leve o rosto ao chão
A bela musa e suje até o limite
A brancura de sua pele.

Busco a imundície do náufrago,
Do homem-pó, do espólio de Deus.

Limites do meu canto estúpido!
Acaso um par de olhos
Não pode matar a beleza da manhã?
Deixem que meu cabelo cresça,
Que me possuam os dejetos do corpo,
Que eu possa ser entranhas e coração
Para não morrer!
56

Apenasmente morre

Só Freud explica.
Só Jesus Salva.
Só o homem peca.
Só a fome mata.
Só a ilusão alegra.
Só a solidão sufoca.
Só os mortos gritam.
Só a ciência prova.
Só a mentira é provável.
Só a loucura liberta.
Só a liberdade pesa.
Só o instante existe.
Só a existência é triste.
Só o tempo é humano.
Só a humanidade é tempo.
Só a humanidade é alma.
Só a alma morre.
Só o corpo é eterno.
Só a eternidade vale à pena.
Só a morte redime.
Só a dor desperta.
Só a loucura é sã.
Só a tragédia engrandece.
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