Poemas
45A tentativa de cronicar
As aulas de filosofia sempre soaram interessantes, se não fosse a perjura que o cérebro insiste em desvendar, talvez até pensasse em seguir o rumo dos pensadores - não conhecidos. Esses tem a fama de chatos, analistas de boteco, carpinteiros de Freud. E tantos outras nomenclaturas que me fogem de parte do cérebro, qual eu utilizaria para guardar informações caso tal funcionasse bem. Provável que nasci com algo atrofiado dentro da carola, e agora ter caído do berço já não é mais pretexto pro rodeio.
Todas as quintas feiras na aula, encontro-me com seres pensantes. Alguns se atém a indagar a cor da camiseta do Papa, outros fazem referência ao anel do dedinho esquerdo da Presidenta. Ou será da direita?
Poderia ficar horas analisando a interpretação dos indivíduos, o modo como se rebelam ao soltar certas palavras. Então dona Linda Cristina, minha futura psicóloga e já professora, pergunta em bom tom o que era referido em uma música de Chico, eu, por vez exaltei: Puta! Talvez fosse mais delicado dizer ''mulher da vida'', hetairas, grandes sacerdotisas do Egito Antigo?
Segundo meu acalorar momentâneo, não seria justo entender como funcionam as pessoas através de pensamentos transitórios, pois naquele momento parei gélida observando ao redor, sentido-me um dejeto perante os outros. A culpa é minha ou da sociedade por penhorar a significação de puta dentro de um ciclo preconceituoso? Pois no amado Aurélio, é designado puta qualquer mulher lúbrica que se entregue à libertinagem. E lá vem o tal feminismo do qual não faço gosto de dissertar.
Minha mente incrédula vive pregando peças, quer saber o que tem através de cada ideia. Por isso a coitada vive inerte de respostas, passando por caminhos de variáveis e um montão de nadas. Se perde no compasso. Falando em compasso, terminei de ler Leite Derramado, primeiro livro que ouso folhear o último capítulo, qual o título faz analogia a Matilde, que quando grávida de Eulálinha debruçava-se sobre a piá para despejar seu leite, pois a filha tinha uma ama-de-leite, onde a mãe havia a possibilidade de amamentar. Por fim, Matilde some antes da metade do livro, vivendo apenas em memória. Tenho dificuldade em lembrar nomes de personagens, e sem nenhuma surpresa, esqueci-me do nome designado ao personagem principal, qual narra suas neuroses e memórias - vezes inventadas - de um leito de hospital.
Sim, todos os livros que deleitei até tal momento, deixei para trás o último suspiro da narrativa. Problemas com finais? Creio que um tanto. Admito ter certa curiosidade de saber com quem Guiomar aceitou casar-se em a ''A Mão e a Luva'', ou como terminou Odisseu em sua jornada em ''Odisseia'', também queria ter fugido da descoberta que a loucura haveria de deixar Dom Quixote.
Será que ainda há espaço para os desajustados? Temo que a morte não se aproxime tão cedo
Expediente
Imerge uma solução
Escassa e passageira
Barreira da solidão
Em todo quadro mórbido
É vista uma confusão
Que mesmo com outros olhos
Enxerga a absolvição
Em todo sofrimento
Existe a compaixão
De jogar a corda pra baixo
Sem retorno para o chão.
Cravos
Vejo meus passos expressos
No marasmo do tempo
O meu templo secreto
Teu respirar.
Votos de saudade
A poesia escondida se mostra em sua ausência, ecoa, grita de meus pés até o infinito
O verso se retrai em silêncio
Nenhuma sinfonia ousa soar
Mãos desatadas em tempo que se calcula em saudade
Cama vazia, a espera da rotina perfumada que há de voltar
Meu corpo nunca se viu tão sem pele, tão sem vida
A luz do amanhecer trás seus surtos de abstinência
E tudo pelo o quê anseio é sua chegada.
À volta sem ida.
lll
O viver é confundido
Gritos desesperantes
Ecoam como sorrisos
De tanto gritar
A voz cala
Sem sentidos
O que restam são monstros
No alarde dos ouvidos.
Mundo-Mudo
Respeito o desacato
de quem cala na multidão
São olhos entorpecidos
dedicados a escuridão
Respeito o desacato
de quem ouve sem pensar
São palavras digeridas
de quem fala por falar
Respeito o desacato
do canto persuadido
São gestos ignorantes
na palavra sem sentido
Respeito o múrmuro alto
de quem ora como bispo
Indolências necessárias
nessa vida sem sentido.
Sanatório
Manchas colhidas
Repelem meus ossos
Já de partida
Trincados, quebrados
Ná fúria de laços
Rompidos, perdidos
Perduro meu corpo
No encontro ascoso
Alimentado por vermes
Que nascem a cada entardecer.
She says
Procurei pelos cômodos de casa
As meias mal lavadas
E olhos amortecidos de indolência
No desabrochar do tempo
Que hora parte
Hora cura
Onde foi que deixei as xícaras sujas
De tantos desafetos e ternuras
Lembradas no enaltecer da partida
Onde foi que deixei a vida
Que era minha
Que era tua.
Comentários (1)
É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?