Lucille

Lucille

.close my eyes and pass away.

n. 0000-01-16, Joinville/SC

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Poemas

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XXX

e o que é a poesia se não a maior ilusão já inventada sobre amor?
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Eu era boa em dar títulos

Após iniciar licenciatura em Letras, senti certa dificuldade em continuar a escrever mais um de meus tantos poemas, ou crônicas, ou pensamentos. Até mesmo agora sinto-me repulsiva ao esclarecer minhas ideias amontoadas no caixote da memória. As deficiências do amor já não saem com tanta franqueza,o lápis ousa desapontar, quando não resolve sair correndo por entre minhas mãos. Como dizem, ‘’ você perdeu o fio da meada’’. Não estou sendo uma boa operária. Já não sei mais o que fazer com as linhas, na realidade, eu sempre sei. Mas a desordem é tamanha, que acabo me enroscando e tecendo um cobertor de verão ao invés demeias para o inverno. Quem será que criou as meias? Talvez na época a população não achara confortável andar só de sapatos largos e borrachudos. Prefiro a creditar que o motivo para a criação desse artefato aconchegante e misteriosamente curador de resfriados tenha sido em decorrência da arte e poder.Imagine, os barões mais respeitados da aristocracia, sentados na alta nobreza com suas meias cor de laranja lima que quase atingem os joelhos. Seria artefato real de respeito. As baronetes passeando com suas pequenas meias contrastantes com a pele, não querendo chamar a atenção da elite, pois as bordas de lã antecipariam a demonstração de sua superioridade. Poderia criar milhares de teses a respeito de minha vestimenta favorita sem nunca saber da real. Às vezes a verdade desmistifica os processos de criação, e ao invés de ir ao palanque com meus tons de tirania, chego apenas até a esquina com o novo modelito idade média que tampa o pescoço. E realmente eu prefiro ficar deitada com meus pés quentinhos, ao sair pra qualquer lugar, a próxima esquina parece estar na França, e como Rainha da Corte Imperial das Empresas Teceleiras de Lã de minha avó, permaneço enroscada de fios com meu título de anciã das meias furadas.

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Disco Arranhado

Vejo-me velha, cheia de rugas permanentes
Mas não rugas idade, essas eu admiro
Falo de marcas internas, do vazio corrosivo
Algumas são profundas, outras arranhões
Ambas sangram, a distinção ocorre no hematoma.

Sinto a apatia das horas que passam lentamente
E fazem estrondoso barulho de trovões
O silêncio emite sons fortes, já não ouço
A leveza das árvores confundem meu destino
Plantando sementes de conforto, carinho
Não sei mais ser flor, sou pétala murcha
Ninguém regou.

O tempo brincou de dor, se escondeu e me levou
Despertei calada, aos berros
Só meus pensamentos me dão ouvidos
E eles falam, falam como nunca
Me dizem coisas que não quero ouvir
O barulho é tanto que me perco nas vozes.

Me encontro na multidão da minha casa
As paredes são belas companhias
Limpas, sórdidas, espertas
Elas são como eu
Guardam pinturas, cores, momentos
Hoje verdes, amanhã adeus
Rabiscos da infância, colas da juventude
Tabuada do oito, poemas de Drummond
Mesmo com toda a carga sobreposta por novos ares
Elas guardam tudo, e se renovam a cada pincelada
Sou uma parede de várias camadas.
E agora, mais velha ainda.






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Delírios de um enema

Se despia de seu passado, arrancava a pele das lembranças e sabores que já degustados se tornavam sonhos sombrios. Não queria mais falar de dor, sendo tudo o que lhe restava.
O resto, sabe? Era feito de refugos, sobras, comida de quinta passada, palavras espalhadas nos muros da cidade.
Nada lhe servia, mas aceitava o estreito moletom de anos atrás, era quase uma desculpa para não encarar a nova moda, o novo mundo.
Acordava e sentia estar dormindo. Dormia e pensava estar vivendo.
Será um pensamento comum? Singelo e simples nunca foram palavras presentes.
Se perdia quando precisava, não se achava quando queria.
Essa vida é mesmo escassa, corriqueira, com demandas abusivas.
Pensava em quão medíocre as coisas eram, em como os fatos são sórdidos e sem validade.
Ah, mas a paixão. A paixão lhe tornava uma compulsiva sorridente, uma amante sem aluguel.
Doava-se por um minuto, dois segundos, três noites, um ano.
Os sentimentos tomam conta. Quando ela se entrelaça por entre flores junto a lua, o mundo se abre, as cores lhe abraçam, o ar puro surge com os mais belos pedidos: fique, se emane, ame, desame, cure, abuse, siga, corra, vá logo! Arrebente essas correntes, deixe que elas te prendam, ache a chave, sinta estar livre, sinta estar presa.
Sinta tudo.
Sinta muito.

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Amém

Nunca mais vou te dizer no teu ouvido o quanto te amo

Nem acreditar que a vida da o que merecemos 

Busca incessante não sei de quê




Nunca mais vou te chamar na madrugada para sentar se ao meu lado 

e te esfriar com meus pés e coração 

Agora quero arrancar tua cabeça para ver se ela volta pro lugar - que nunca esteve 




Nunca mais deito me dar na tua cama

pois a cama que era nossa eu queimei 

Botei fogo

assim como queria te botar em brasa para que me devolvesses na chama quente todos os dias que te deixei tocar minha pele

Para todas vezes que sua boca encostou a minha 

eu sigo…

Querendo encostar em deus.















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passarinho

minhas filhas são as mais belas 

uma tem toque sútil, mas emocionado 

a outra se reflete em paisagem de passarinha curiosa 

curió 

um dia inda bate asa.

pousada no meu braço 

canto pra elas 

que lembrem nossa sinfonia

e meu coração meio joao de barro. 
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perdão divino

o que foi aquilo? 

Eu vou olhar a resposta em meu ventre pro resto da vida. 

e a falta dela.

a vida é tão bela

e dolorosa em ausência
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nuvem

se a manhã é boa e a noite tem lua, nós somos obrigados a lembrar de sua beleza. eu só preciso descobrir como essas coisas acontecem…esse negócio de toda noite é noite.
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Ponto.

sem vírgulas mas com

pausas dramáticas
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Colmeia

Como chorar tantas mortes

em tempos retrógados 

cigarro barato 

caminhos cruzados sem sorte 

Vencer sem presente 

enxames na ventania 

como chorei tantas mortes? 

e tão pouco tempo de sorte.
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Comentários (1)

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haha ;)
haha ;)

É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?