Lucille

Lucille

.close my eyes and pass away.

n. 0000-01-16, Joinville/SC

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Poemas

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XXX

e o que é a poesia se não a maior ilusão já inventada sobre amor?
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Disco Arranhado

Vejo-me velha, cheia de rugas permanentes
Mas não rugas idade, essas eu admiro
Falo de marcas internas, do vazio corrosivo
Algumas são profundas, outras arranhões
Ambas sangram, a distinção ocorre no hematoma.

Sinto a apatia das horas que passam lentamente
E fazem estrondoso barulho de trovões
O silêncio emite sons fortes, já não ouço
A leveza das árvores confundem meu destino
Plantando sementes de conforto, carinho
Não sei mais ser flor, sou pétala murcha
Ninguém regou.

O tempo brincou de dor, se escondeu e me levou
Despertei calada, aos berros
Só meus pensamentos me dão ouvidos
E eles falam, falam como nunca
Me dizem coisas que não quero ouvir
O barulho é tanto que me perco nas vozes.

Me encontro na multidão da minha casa
As paredes são belas companhias
Limpas, sórdidas, espertas
Elas são como eu
Guardam pinturas, cores, momentos
Hoje verdes, amanhã adeus
Rabiscos da infância, colas da juventude
Tabuada do oito, poemas de Drummond
Mesmo com toda a carga sobreposta por novos ares
Elas guardam tudo, e se renovam a cada pincelada
Sou uma parede de várias camadas.
E agora, mais velha ainda.






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Eu era boa em dar títulos

Após iniciar licenciatura em Letras, senti certa dificuldade em continuar a escrever mais um de meus tantos poemas, ou crônicas, ou pensamentos. Até mesmo agora sinto-me repulsiva ao esclarecer minhas ideias amontoadas no caixote da memória. As deficiências do amor já não saem com tanta franqueza,o lápis ousa desapontar, quando não resolve sair correndo por entre minhas mãos. Como dizem, ‘’ você perdeu o fio da meada’’. Não estou sendo uma boa operária. Já não sei mais o que fazer com as linhas, na realidade, eu sempre sei. Mas a desordem é tamanha, que acabo me enroscando e tecendo um cobertor de verão ao invés demeias para o inverno. Quem será que criou as meias? Talvez na época a população não achara confortável andar só de sapatos largos e borrachudos. Prefiro a creditar que o motivo para a criação desse artefato aconchegante e misteriosamente curador de resfriados tenha sido em decorrência da arte e poder.Imagine, os barões mais respeitados da aristocracia, sentados na alta nobreza com suas meias cor de laranja lima que quase atingem os joelhos. Seria artefato real de respeito. As baronetes passeando com suas pequenas meias contrastantes com a pele, não querendo chamar a atenção da elite, pois as bordas de lã antecipariam a demonstração de sua superioridade. Poderia criar milhares de teses a respeito de minha vestimenta favorita sem nunca saber da real. Às vezes a verdade desmistifica os processos de criação, e ao invés de ir ao palanque com meus tons de tirania, chego apenas até a esquina com o novo modelito idade média que tampa o pescoço. E realmente eu prefiro ficar deitada com meus pés quentinhos, ao sair pra qualquer lugar, a próxima esquina parece estar na França, e como Rainha da Corte Imperial das Empresas Teceleiras de Lã de minha avó, permaneço enroscada de fios com meu título de anciã das meias furadas.

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Delírios de um enema

Se despia de seu passado, arrancava a pele das lembranças e sabores que já degustados se tornavam sonhos sombrios. Não queria mais falar de dor, sendo tudo o que lhe restava.
O resto, sabe? Era feito de refugos, sobras, comida de quinta passada, palavras espalhadas nos muros da cidade.
Nada lhe servia, mas aceitava o estreito moletom de anos atrás, era quase uma desculpa para não encarar a nova moda, o novo mundo.
Acordava e sentia estar dormindo. Dormia e pensava estar vivendo.
Será um pensamento comum? Singelo e simples nunca foram palavras presentes.
Se perdia quando precisava, não se achava quando queria.
Essa vida é mesmo escassa, corriqueira, com demandas abusivas.
Pensava em quão medíocre as coisas eram, em como os fatos são sórdidos e sem validade.
Ah, mas a paixão. A paixão lhe tornava uma compulsiva sorridente, uma amante sem aluguel.
Doava-se por um minuto, dois segundos, três noites, um ano.
Os sentimentos tomam conta. Quando ela se entrelaça por entre flores junto a lua, o mundo se abre, as cores lhe abraçam, o ar puro surge com os mais belos pedidos: fique, se emane, ame, desame, cure, abuse, siga, corra, vá logo! Arrebente essas correntes, deixe que elas te prendam, ache a chave, sinta estar livre, sinta estar presa.
Sinta tudo.
Sinta muito.

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Rasgo

tantas margens pra que a sanidade escorra

eu queria te manter, seria amor a terceira vista

E minha maior perdição

desculpa 

que os céus me perdoem 

E que a dor não vingue

depois do coito de três paradoxos 

eu não sou mais a mesma 

o correto machuca 

mas nas estradas da vida

quem não enlouquece é maluco
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a dualidade, paraíso infernal 

a chama de vida, me chama 

complica um jogo confuso de brincar 

a droga, droga de vida, efêmera? 

Que brisa

ciranda de uma mulher só

com seus demônios

e duendes verdes

a maior explosão de alguma atmosfera 

o peito batendo 

retraindo 

ardendo descompensado 

como dança? 

se em cada ritmo 

tu se decompõe em notas diferentes…









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Servidos

bebo o café morno

com o corpo te esperando 

em latte
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Depoimento

se eu por uma vírgula tu ainda espera 

se eu por um acento.

e não bota lo

se eu por nada

por acaso 

é tudo 

sobre depor 
-se
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Chão

Prego batendo no contraste das sombras 

a parede arreada é lembrança do agora

enquanto eu escorro 

transpiro

de baixo da cama

no mar salgado do Nilo

flutuo 

entre os pés de areia e a cabeça salgada 

o mundo se debruça 

corpo fodido

estraçalhado 

sem sentido literal

só a linguagem apagada 

de um dialeto entre Deus e a morte
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xx

Transcorre tempo na inundação de meu barco

Passa,  desregulado num instante só

Se vibra, se chora, semeia

No auto da compadecida eu não me compadeci

O instante virando passas 

Murchas, na torta de domingo 

Se eu ainda me reconheço?

Talvez na semana seguinte 

Quando os pássaros voltarem em nova estação 

Aterrissando para encher a boca de seus filhotes 

A escuridão trêmula 

Se esvaindo…
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Comentários (1)

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haha ;)
haha ;)

É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?