Poemas
45Alameda Italiana
Se eu lhe fizer um poema
Jures não desonrar
As linhas de meus versos turvos
São estrondosas ao teu tratar
De derradeira rima
Passo a flagelar tua pele
Que mesmo distante
Contemplo leve.
Quatro e um meio comprimido
Canso-me dos dias pobres
Sem nenhuma iguaria
Das taças vazias
Ocupando balcões empoeirados
De incontáveis partidas
Canso-me das horas iguais
Do pesar que aniquila
Do riso forçado
O presente, o passado
Engolidos com a saliva
Canso-me das cores
Variadas entre cinzas
Isentas de ardores
O vermelho deteriorado
Em bocas de mancebas
Canso-me das relações sórdidas
Dos inícios procrastinados a falhar
Das fissuras incessantes
Irrevogável, interminável
Valsa sem par.
Miséria
Persevero no colo do mundo
A dor da solidão
De quem escreve para suprir
As falências da alma.
Azul
Suspira meu peito
Envolve-me sem pressa
É rima que se contesta
Sem vírgulas
Dou-lhe um ponto final.
Enamorar
Estilhaços
Hoje o vento soprou forte
Abalou árvores, casas, moinhos
Me cortou feito faca afiada
Levou-te.
Rima barata
Lágrimas escorrem como sangue
Desatando os nós que por veias percorrem
Choro seco
Amor escasso.
Derme
Em minha morte quero moças despidas
Circulando em pavilhões definhados
Onde a cena é megera
E meus olhos obsoletos
Em meu leito
Desejo recordar a vida
Víbora de tamanhas fissuras
Prostituta rameira
Segregadora de meu último trago
Vil adeus não concedi
Me despeço com a alegre feição
Alforriado do cárcere comunitário
Foragido por minhas mãos
Antônio-mos
Chamem
os reis
coronéis
réus
príncipes
exilados
velhos
novos
calados
dispostos
amargurados
loucos
bêbados
injuriados
doutores
donas de cabaré
a tia da da cozinha
a noiva esquecida
Venham ver o amor
Passou.
Exímio exílio
Pela euforia da imensidão
Caminhávamos lado a lado
Sem direção pertinente
Isentos de tanto cuidado
Os corpos não eram nossos
Tão pouco de outrem
Amor que reencarnado em dois
Compartilhamos em um
Pertencentes em espírito
Designados ao abismo
Nos esbarramos na mesma solidão
Em barco furado, maré alta sem chão
A voz dele tampava meus furos
Apagava cicatrizes profundas
Trazia clareza em minha escuridão
Repentinamente, calou-se.
Comentários (1)
É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?