Lucille

Lucille

.close my eyes and pass away.

n. 0000-01-16, Joinville/SC

Perfil
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Poemas

45

Alameda Italiana

Se eu lhe fizer um poema

Jures não desonrar

As linhas de meus versos turvos

São estrondosas ao teu tratar

De derradeira rima

Passo a flagelar tua pele

Que mesmo distante

Contemplo leve.


711

Quatro e um meio comprimido

Canso-me dos dias pobres

Sem nenhuma iguaria

Das taças vazias

Ocupando balcões empoeirados

De incontáveis partidas


Canso-me das horas iguais

Do pesar que aniquila

Do riso forçado

O presente, o passado

Engolidos com a saliva


Canso-me das cores

Variadas entre cinzas

Isentas de ardores

O vermelho deteriorado

Em bocas de mancebas


Canso-me das relações sórdidas

Dos inícios procrastinados a falhar

Das fissuras incessantes

Irrevogável, interminável

Valsa sem par.

403

Miséria

Persevero no colo do mundo

A dor da solidão

De quem escreve para suprir

As falências da alma.

541

Azul

Suspira meu peito

Envolve-me sem pressa

É rima que se contesta

Sem vírgulas

Dou-lhe um ponto final.

684

Enamorar

 
Ter um namorado é difícil. Apesar das oportunidades que vivenciamos todos os dias, apesar da inclusão em diferentes meios sociais contribuírem, apesar dos vários corpos e odores serem levados ao deleite e causarem mofo no dia seguinte.
Achar alguém é tarefa básica, artigo de luxo amador, joia despreparada para o polimento. Sem valor. Aliás, quem compra tamanha riqueza para apreciar por tempo escasso? Loucos narcisistas, talvez. Gente que escolhe pelo brilho, e após alguns usos tem preguiça de polir, ou prefere adquirir uma nova, tarefa mais fácil e prazerosa. A nova moda sempre passa, artigo caro perde seu valor, sendo esquecido na cabeceira da cama, no lavabo, até mesmo na torneia da pia.  
Os olhares sempre remetem para as vitrines com adornos da estação, aqueles mesmos pelos quais pessoas cometem loucuras para adquirir, onde os olhos brilham ao mirar. Seria mais fácil polir ao inovar? O preço que se paga as vezes é alto demais.
Ter um namorado é difícil. É preciso apreciar o ornamento, juntar migalhas de alta valia, mês a mês dar de comer aos pombos. É necessário indagar se o uso daquele anel lhe caíra bem em 1960 até  em 2048, e mais. Fundamental criar vínculo amoroso antes e durante de adquirir seu bem amado, como se fosse novo a cada entardecer. Pudera eu ter a frieza de trocar minha blusa preferida a cada junção de meses. Não mesmo! Escolher sua jóia é tarefa árdua, meticulosa. Se existe encargo mais encantador que preparar a mão para algo ao qual foi dedicado todo o tempo e carinho do cosmos, desconheço.
Além de não se apesarar de sua escolha, tem-se a vantagem maior – Amor. Admirará seu bem amado todos os dias, e saberá disso ao se olhar no espelho, ao subir as escadas, ao beber um gole do café mais amargo. E permanecerá feliz. Pode não ser em todos os momentos, mas o alívio será imediato, pois o conforto imergirá seu corpo pela tranquilidade de estar em paz com seu interior, até porque, não é qualquer anel que se encaixa em seu dedo, e dentre tantos modelos, houve algum que realmente se encaixou não só em sua mão, mas em sua essência.

 

659

Estilhaços

Hoje o vento soprou forte

Abalou árvores, casas, moinhos

Me cortou feito faca afiada

Levou-te.

649

Rima barata

 

 

Lágrimas escorrem como sangue 
Desatando os nós que por veias percorrem
Choro seco
Amor escasso.

 

566

Derme

Em minha morte quero moças despidas

Circulando em pavilhões definhados

Onde a cena é megera

E meus olhos obsoletos


Em meu leito

Desejo recordar a vida

Víbora de tamanhas fissuras

Prostituta rameira

Segregadora de meu último trago


Vil adeus não concedi

Me despeço com a alegre feição

Alforriado do cárcere comunitário

Foragido por minhas mãos


820

Antônio-mos

Chamem

os reis

coronéis

réus

príncipes

exilados 

velhos

novos 

calados

dispostos

amargurados

loucos

bêbados

injuriados 

doutores

donas de cabaré

a tia da da cozinha

a noiva esquecida

 

Venham ver o amor

Passou.

801

Exímio exílio

Pela euforia da imensidão

Caminhávamos lado a lado

Sem direção pertinente

Isentos de tanto cuidado


Os corpos não eram nossos

Tão pouco de outrem

Amor que reencarnado em dois

Compartilhamos em um


Pertencentes em espírito

Designados ao abismo

Nos esbarramos na mesma solidão

Em barco furado, maré alta sem chão


A voz dele tampava meus furos

Apagava cicatrizes profundas

Trazia clareza em minha escuridão

Repentinamente, calou-se.


611

Comentários (1)

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haha ;)
haha ;)

É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?