Poemas
45Eu era boa em dar títulos
Após iniciar licenciatura em Letras, senti certa dificuldade em continuar a escrever mais um de meus tantos poemas, ou crônicas, ou pensamentos. Até mesmo agora sinto-me repulsiva ao esclarecer minhas ideias amontoadas no caixote da memória. As deficiências do amor já não saem com tanta franqueza,o lápis ousa desapontar, quando não resolve sair correndo por entre minhas mãos. Como dizem, ‘’ você perdeu o fio da meada’’. Não estou sendo uma boa operária. Já não sei mais o que fazer com as linhas, na realidade, eu sempre sei. Mas a desordem é tamanha, que acabo me enroscando e tecendo um cobertor de verão ao invés demeias para o inverno. Quem será que criou as meias? Talvez na época a população não achara confortável andar só de sapatos largos e borrachudos. Prefiro a creditar que o motivo para a criação desse artefato aconchegante e misteriosamente curador de resfriados tenha sido em decorrência da arte e poder.Imagine, os barões mais respeitados da aristocracia, sentados na alta nobreza com suas meias cor de laranja lima que quase atingem os joelhos. Seria artefato real de respeito. As baronetes passeando com suas pequenas meias contrastantes com a pele, não querendo chamar a atenção da elite, pois as bordas de lã antecipariam a demonstração de sua superioridade. Poderia criar milhares de teses a respeito de minha vestimenta favorita sem nunca saber da real. Às vezes a verdade desmistifica os processos de criação, e ao invés de ir ao palanque com meus tons de tirania, chego apenas até a esquina com o novo modelito idade média que tampa o pescoço. E realmente eu prefiro ficar deitada com meus pés quentinhos, ao sair pra qualquer lugar, a próxima esquina parece estar na França, e como Rainha da Corte Imperial das Empresas Teceleiras de Lã de minha avó, permaneço enroscada de fios com meu título de anciã das meias furadas.
Disco Arranhado
Mas não rugas idade, essas eu admiro
Falo de marcas internas, do vazio corrosivo
Algumas são profundas, outras arranhões
Ambas sangram, a distinção ocorre no hematoma.
Sinto a apatia das horas que passam lentamente
E fazem estrondoso barulho de trovões
O silêncio emite sons fortes, já não ouço
A leveza das árvores confundem meu destino
Plantando sementes de conforto, carinho
Não sei mais ser flor, sou pétala murcha
Ninguém regou.
O tempo brincou de dor, se escondeu e me levou
Despertei calada, aos berros
Só meus pensamentos me dão ouvidos
E eles falam, falam como nunca
Me dizem coisas que não quero ouvir
O barulho é tanto que me perco nas vozes.
Me encontro na multidão da minha casa
As paredes são belas companhias
Limpas, sórdidas, espertas
Elas são como eu
Guardam pinturas, cores, momentos
Hoje verdes, amanhã adeus
Rabiscos da infância, colas da juventude
Tabuada do oito, poemas de Drummond
Mesmo com toda a carga sobreposta por novos ares
Elas guardam tudo, e se renovam a cada pincelada
Sou uma parede de várias camadas.
E agora, mais velha ainda.
Passe
Paixão desconhecida
Rima barata
Desejos usados
Roupa Guardada
Voz de ''bem me quer''
Mãos de um qualquer
Fala desajustada
Luz na calada
Cor do meu prazer
Me diga, por que?
Não vá embora
Dessa trilha sonora
Visão de anos
Espera de uma vida inteira
Seus beijos passarão
Mas não se passe.
Engano
Sem roupas
Sem dramas
Cause tuas tragédias
Me bote em linha reta
Acompanho tuas curvas
Me viro, retorço
Te grito em minha composição
Tua voz contesta meus planos
Tua face causa danos
Mas eu canto
Mesmo que talvez
Engano
02:47
Promíscuas sentimentais
Buscando a nota perfeita
O poema mais fugaz
Sou dessas mulheres
Loucas de madrugada
Distintas, desvirginadas
Em busca do tudo, ou nada
Sou dessas
Vinhos, cigarros, amores
Sou dessas
Que sentem todas as dores
Marrom
Que me tocavam de forma desigual
Sua música transbordava em mim
Delírios de um samba
A cada passo um novo acorde
Me tocava em sol maior
Eu que era dó
Virei sinfonia
Mas se me quiseres
Completo teus passos
Embalo teu corpo
No meu enredo caótico
Clarabóias
podia sentir o ar quente de suas ventas
entrelaçar
desgrenhar meu corpo amaldiçoado
pôs fogo em minhas flores
roubou-me pirulitos
deu-me balas nunca provadas
saciou-se de minha inocência
antes eu levava flores
antes eu não sabia da escuridão
antes eu era criança
antes não era prisão
agora tranco a porta
agora escondo a chave
desenterro minhas bonecas
mas elas já não brincam mais comigo.
Desconhecido
Mutilado em minhas veias
No ócio do estrondoso mar
Certifico-me que insano seja
Fugaz as linhas que nos trazem
Correndo sem cessar
Abrindo novas alas
Espalhando imensidões
Sincronia essa que já não me sente
Eu, pleno vigor mundano
Perambulando em abstinência
Deixo-me em teu contra plano.
Marasmo
Disserto sobre a vida
Mas nada sei do mar
Será só um barquinho
Ou um navio a naufragar?
E se a vida não for nada?
Ainda tem a ver com mar
Mar que nada, nada, nada
Mas nunca consegue chegar.
Nadar eu sei
Nado de trás, frente, peito, cachorrinho
Nado no teu peito, nado com carinho.
Nado no Nada.
Talvez não saiba nada da vida
Talvez não saiba nada do mar
Certeza que não sei nada de nada
Absoluta certeza de que não sei amar.
Um poema em duas mãos.
Um cigarro e meio amor (1x2)
Se o que dizem por aí for verídico, de que só amamos uma vez na vida. Fico completamente decepcionado comigo mesmo. Não por não ter amado ainda, mas por ter amado a pessoa errada.
Vejo a melodia que ecoa entre os bem amados, ar fugaz que transparece na atrocidade do vento. Oh céus, por que esses versos perdidos não chegam até mim? Será eu, um antônimo de nós? Primeira pessoa do singular.
Abstrato perante o mundo, ou mundo abstrato diante de mim? Vejo-me e não me enxergo. Talvez focando os olhos diante do espelho faça o borrão entrar em foco. Mas se o problema for o espelho?
O chão onde piso é tão torto, balança, leva e trás, caí. Eu continuo no mesmo lugar, tudo se move. Esse meu olhar perplexo diante da existência. Eu que vejo o mundo ou o mundo que me vê? O sentido existe pra quem se surda da realidade.
Como um pêndulo na ventania, no olho do furacão. Movo-me, sacudo-me, sem direção. Porém preso a algo invisível que me impede de chegar a lugares nunca explorados. Tento me soltar. Mas o que me prende, chama-se VIDA.
Um texto de duas mãos.
Comentários (1)
É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?