Lista de Poemas
INTIMIDADE
quando lenta te desvendas
Nada há que desiluda
que bem te ficam as rendas
que excelsa ficas desnuda
Luís Soares Eusébio
PERSIANAS
procurando descobrir o interior.
Entra pela porta, sem temor.
Eu sou isto.
Apenas isto, nada mais.
Uma casa cheia de nada, na penumbra.
Vem.
Preenche as lacunas,
para que tudo faça sentido
e eu me encontre onde,
dentro de mim, andar perdido.
Depois, instala-te.
Faz de mim a casa de putas
que melhor te faça sentir em casa.
Abre as janelas.
Sobe as persianas e ilumina,
naturalmente, o nosso mundo.
Luís Soares Eusébio
EXISTIR
Como a efemeridade, ela própria.
Existirmos é não estarmos sós,
Ainda que habitados pela solidão.
Existirmos,
É sermos cúmplices de nós próprios.
É ousarmos percorrer
Todos os caminhos ignotos,
Dentro de nós e dos outros.
É sermos um átomo de "Deus".
Porque, "Deus", não é mais
Que nós próprios,
Elevados a uma potência
Telúrica imensurável.
Porque, "Deus", só existe
Na medida, exacta,
Da nossa efémera existência.
E, só é eterno, na infinita
Transmutação cósmica.
Luís Soares Eusébio
DESCOBERTA
são caravelas e os teus seios
cais das colunas
donde largo com as aguarelas
que de cor o mundo enfunas.
Mas é teu corpo
que circundo no mais lúbrico navegar
e são teus lábios
o fim do mundo em que voraz
vou fundear.
Luís Soares Eusébio
PÉROLAS
de mulheres pudicas. Outras,
átonas cortesãs mesoclíticas,
são moluscos numa concha.
Dizem-se ser donzelas.
Luís Soares Eusébio
A CEBOLA
Em tuas mãos, me olhares
Tal qual eu fora cebola
Indolente me descascares
E chorares como uma tola.
Amares o âmago do ser
Por ser nâo mais do que é
E só de ternura verter
Lágrimas prenhes de fé.
Cometeres pecado fatal,
De me olhares todo nú,
E desnuda e divinal
Minha cebola seres tu.
Luís Soares Eusébio
O QUE ME DÓI
O que me dói
são os silêncios nas horas pardas
as solidões profundas
pelos segundos acossadas
as ausências, as memórias
e os nadas.
O que me dói
são as alegrias de todas
as chegadas e as pulsações
descompassadas, esvaídas
em idas alvoradas.
O que me dói
são praias de areia fina
embrumadas e as afeições
parafinadas e as ausências
e as memórias e os nadas.
Luís Soares Eusébio
FRÁGIL
Odeio esta fragilidade
Que me assalta, possui e,
Em que me amodorro sem ti.
Simultaneamente, amo-a.
Porque te amo e quero.
Porque sem ti desespero
E só a dor da ausência
Me preenche e sobra
Do nada de que te sei.
E vivo assim, não vivendo.
E amo assim, não amando.
E morro assim, não morrendo.
Porque mesmo a morte é nada,
Sem a tua companhia.
Os dias passam, não passando,
Porque o meu tempo é sempre outro,
Que nunca é o teu tempo.
Lá fora, o teu mundo gira.
E tu giras com ele.
O meu está parado cá dentro.
Esperando que o teu, em movimento,
Páre e te lembre de mim.
Luís Soares Eusébio
DEIDADE
manhãs prenhes de bruma
e no ventre o mar
e no sexo a espuma
nos peitos doçura
nas coxas vetos
e nas mãos ternura
Nos lábios afectos
com que me enclausura
Luís Soares Eusébio
ORAÇON MURCON
Que das articulações dos homens
tornem filamentos incandescentes.
Abençoadas também as avós modernas,
Loucas, carinhosas e reféns
De avôs babados e intermitentes.
Sejam bem-aventuradas as moçoilas
Roliças, promessas duradouras
De jovens roçando pelos umbrais.
E perdoadas sejam as papoilas,
Que desabrocham naquelas Senhoras
balsâmicas e do pecúlio letais.
Santificadas sejam as amantes
Cheirosas, belas e ardentes
Alegrias de todos os comensais.
Penitenciadas sejam as petulantes,
As pudentes, feias e carentes,
À fogueira de todos os bacanais.
Luís Soares Eusébio
Comentários (0)
NoComments