Luís Soares Eusébio

Luís Soares Eusébio

n. 1959 PT PT

n. 1959-08-24, Lisboa

Perfil
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DEVANEANDO

Desejaste-me sonhos bonitos
Tive-os, sabes?
Estávamos à mesa
o criado falava comigo
e eu olhava-te enfeitiçado
Nem o ouvia
A sua voz estava ao nível
da estática do silêncio
Teus olhos ecoavam harmonias
e teus lábios as melodias
que te harpejavam no peito

(pousaste a tua mão na minha
alertando-me para o jovem
de calça preta e casaco branco)

- Só um minuto!, disse-lhe
com sorriso contrafeito

Olhámos a lista
Escolheste linguado com mexilhões
e molho "Bechamel"
Eu, filetes com vinho do Porto
Para beber um Pinot Grigio di Pavia

(o jovem tomava nota, diligente,
com maestria)

Olhando pela janela
o mar rebentando no molhe
salpicava o horizonte de espuma
Disse uma laracha e em teus lábios
um sol iluminou a bruma
Para sobremesa escolheste
tarte de maçã com passas
Eu, uma mousse de caipirinha

(imaginei-te assim por debaixo
da calcinha)

Paguei a conta e saímos
Bebemos café alhures
Beijávamo-nos quando
- Horrores! -
saídos de nenhures
pulavam três amores

(na cama em que te amo
noites afora em lume brando)

Luís Soares Eusébio
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Poemas

33

MARIA

Eis que teu sul é meu norte
E teu norte é meu sul cardeal

(E tu toda azimute a que aporte
como à Santa o Velho Cabral)

Luís Soares Eusébio
545

TOCA-ME!

Toca-me!, dizias-me sedutora.
Eu sorria. Mãos trémulas
toda te percorria. E beijava
glutão do teu melado.
Até aí bajuladora, de repente,
gritas: safado! Que quererias?

Tremias ebuliente com
o frémito das maresias.

Luís Soares Eusébio
580

DISCURSO

Para o que vos tenho a dizer
três palavras chegariam.
Mas, porque me nivelariam
à vossa infame existência, não digo.

Penso. E nem sabeis com que gozo
imagino, lubrificadas,
em cilindro cavernoso,
as três venosas palavras.

Sois inteligentes, é certo.
Tal qual um papagaio.
O que estranho, é porque raio
havíeis de ter nascido.

Soubessem vossas mães
o que ao mundo iriam dar
jamais vos teriam parido.

Luís Soares Eusébio
566

ODE À POESIA

Acompanhas-me todos os passos,
todos os gestos, todos os olhares,
todos os reversos e despontas
condoída nos pudicos, nos
cínicos e perversos.
A cada passo da humanidade
desgraçada encontro-te, e
no entanto, és-me sempre inesperada.

Se passeio pelo cais, indelével
sinto teu braço sobre meus ombros,
como velha amiga, e falas-me de
portos nunca antes aportados,
de povos desde sempre alienados
da flora dos caminhos ignotos
entre matas fechadas ao saber dos homens.

Escuto-te com a enormidade
da minha ignorância ávida,
porquanto mais me ensinas menos sei.

Falas-me de poetas.
Daqueles que sempre usaste
para brandires teu discurso.
Conheci alguns. Conheço outros.
Com todos bebi das seivas
escorrentes de outras vidas
vegetando impenitentes.

Tens a força da natureza
dos homens e, a beleza de toda
a natureza do mundo.

Soberana e ubíqua
és do mundo a relíquia
tão maltratada e, sem pudor,
ignorada. E resistes
no bico das aves e
nos peitos das cadelas
alimentando as crias nos
beirais e recantos das vielas.

Luís Soares Eusébio
539

INTIMIDADE

Morena, o coração ribomba
quando lenta te desvendas
Nada há que desiluda

que bem te ficam as rendas
que excelsa ficas desnuda

Luís Soares Eusébio
563

A TRETA DO DIA EM QUE MORRI

No dia em que morri
houve um cortejo de amigos
que em vida nunca vi.
Pesarosos. Gravata preta.
Sóbrias elas nos vestidos
para que nada as comprometa.

Olhando-me cadáver
caminhavam alinhados
circunspectos os safados
olhos postos na ampulheta.

(Levantei-me e vim embora
que por nem mais uma hora
aguentava aquela treta)

Luís Soares Eusébio
477

MUROS

Enfrentando olhos ariscos
troam pelos céus coriscos e
em teus muros crescem mirtos.

Minha solidão tem um defeito:
a ausência de teus seios hirtos
acometendo contra meu peito.

Luís Soares Eusébio

501

PÉROLAS

Todas as putas mascaram-se
de mulheres pudicas. Outras,
átonas cortesãs mesoclíticas,
são moluscos numa concha.
Dizem-se ser donzelas.
(Nasceu o homem para quê,
senão pescador de pérolas?)

Luís Soares Eusébio
351

LUNAR

Mas que importa esta ânsia
ou ausência que a prolongue

se a iniludível distância
já a venceu Armstrong?

Luís Soares Eusébio
510

OUTONO

Caíram as últimas folhas.
Nossos passos calcam-nas,
pastel, no parque da cidade.
Nossos olhos miram a nudez
impudica das árvores.
O vento norte ululante
agita-lhes os ramos insensível
como se nos acenassem aflitas.
O Sol brilha cinzas erguidas
em horizontes distantes.

Recolhe-se a vida a ermidas
nos peitos dos caminhantes.

Luís Soares Eusébio
576

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