Lista de Poemas

INTIMIDADE

Morena, o coração ribomba
quando lenta te desvendas
Nada há que desiluda

que bem te ficam as rendas
que excelsa ficas desnuda

Luís Soares Eusébio
551

PERSIANAS

Espreitas por entre as persianas,
procurando descobrir o interior.
Entra pela porta, sem temor.
Eu sou isto.
Apenas isto, nada mais.
Uma casa cheia de nada, na penumbra.

Vem.
Preenche as lacunas,
para que tudo faça sentido
e eu me encontre onde,
dentro de mim, andar perdido.
Depois, instala-te.
Faz de mim a casa de putas
que melhor te faça sentir em casa.

Abre as janelas.
Sobe as persianas e ilumina,
naturalmente, o nosso mundo.

Luís Soares Eusébio
350

EXISTIR

Toda a existência é efémera,
Como a efemeridade, ela própria.
Existirmos é não estarmos sós,
Ainda que habitados pela solidão.
Existirmos,
É sermos cúmplices de nós próprios.
É ousarmos percorrer
Todos os caminhos ignotos,
Dentro de nós e dos outros.
É sermos um átomo de "Deus".
Porque, "Deus", não é mais
Que nós próprios,
Elevados a uma potência
Telúrica imensurável.
Porque, "Deus", só existe
Na medida, exacta,
Da nossa efémera existência.
E, só é eterno, na infinita
Transmutação cósmica.

Luís Soares Eusébio
390

DESCOBERTA

Minhas mãos ébrias
são caravelas e os teus seios
cais das colunas
donde largo com as aguarelas
que de cor o mundo enfunas.

Mas é teu corpo
que circundo no mais lúbrico navegar
e são teus lábios
o fim do mundo em que voraz
vou fundear.
Não clamarei soberania.
Rasgo as cartas de marear.

Luís Soares Eusébio
380

PÉROLAS

Todas as putas mascaram-se
de mulheres pudicas. Outras,
átonas cortesãs mesoclíticas,
são moluscos numa concha.
Dizem-se ser donzelas.
(Nasceu o homem para quê,
senão pescador de pérolas?)

Luís Soares Eusébio
339

A CEBOLA

"(…) descobrimos as pessoas como cebolas, as primeiras camadas raramente têm algum interesse, de acordo, também não são as que nos fazem chorar mais tarde." - Júlio Machado Vaz, Muros

Em tuas mãos, me olhares
Tal qual eu fora cebola
Indolente me descascares
E chorares como uma tola.

Amares o âmago do ser
Por ser nâo mais do que é
E só de ternura verter
Lágrimas prenhes de fé.

Cometeres pecado fatal,
De me olhares todo nú,
E desnuda e divinal
Minha cebola seres tu.

Luís Soares Eusébio
489

O QUE ME DÓI

O que me dói
são os silêncios nas horas pardas
as solidões profundas
pelos segundos acossadas
as ausências, as memórias
e os nadas.

O que me dói
são as alegrias de todas
as chegadas e as pulsações
descompassadas, esvaídas
em idas alvoradas.

O que me dói
são praias de areia fina
embrumadas e as afeições
parafinadas e as ausências
e as memórias e os nadas.

Luís Soares Eusébio

369

FRÁGIL

Odeio esta fragilidade
Que me assalta, possui e,
Em que me amodorro sem ti.
Simultaneamente, amo-a.
Porque te amo e quero.
Porque sem ti desespero
E só a dor da ausência
Me preenche e sobra
Do nada de que te sei.
E vivo assim, não vivendo.
E amo assim, não amando.
E morro assim, não morrendo.
Porque mesmo a morte é nada,
Sem a tua companhia.

Os dias passam, não passando,
Porque o meu tempo é sempre outro,
Que nunca é o teu tempo.

Lá fora, o teu mundo gira.
E tu giras com ele.
O meu está parado cá dentro.
Esperando que o teu, em movimento,
Páre e te lembre de mim.

Luís Soares Eusébio

432

DEIDADE

Carrega no olhar
manhãs prenhes de bruma
e no ventre o mar
e no sexo a espuma
nos peitos doçura
nas coxas vetos
e nas mãos ternura

Nos lábios afectos
com que me enclausura

Luís Soares Eusébio
407

ORAÇON MURCON

Louvadas as balzaquianas ternas
Que das articulações dos homens
tornem filamentos incandescentes.
Abençoadas também as avós modernas,
Loucas, carinhosas e reféns
De avôs babados e intermitentes.

Sejam bem-aventuradas as moçoilas
Roliças, promessas duradouras
De jovens roçando pelos umbrais.
E perdoadas sejam as papoilas,
Que desabrocham naquelas Senhoras
balsâmicas e do pecúlio letais.

Santificadas sejam as amantes
Cheirosas, belas e ardentes
Alegrias de todos os comensais.
Penitenciadas sejam as petulantes,
As pudentes, feias e carentes,
À fogueira de todos os bacanais.

Luís Soares Eusébio
353

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