Luzia Magalhães Cardoso

Luzia Magalhães Cardoso

n. 1961 BR BR

Sou nascida e criada no Rio de Janeiro e a poesia entrou em minha vida, assim, meio como quem não quer nada e foi ocupando o espaço... Criando raízes...

n. 1961-03-26, Rio de Janeiro

Perfil
20 337 Visualizações

Tormentos

Essa tristeza que me envolve, taciturna,
que me embriaga com um vinho tão amargo.
E essa água que me afoga e que eu trago,
que me atormenta, me fechando numa urna.
Então, enluto, no meu canto, sou noturna.
Lua minguada, já sem brilho, sem mais nada.
Eu sou a chuva, de uma estrada apavorada,
cujo lamento me arrasta e me enfurna.

Esvaziada, solitária em minha tumba,
vou me enterrando, cegamente, nessa lama.
Eu sou as cinzas que ninguém nunca reclama.
Dança maldita, descompasso nessa rumba.
Sou o inverno do inferno que me bumba,
que me tortura numa rouca solidão.
Louca agonia chega a mim pra dar vazão
a esse pranto que no chão me prende e chumba.

Luzia M. Cardoso
Ler poema completo
Biografia

Sou nascida e criada no Rio de Janeiro e a poesia entrou em minha vida, assim, meio como quem não quer nada e foi ocupando o espaço... Criando raízes...


Com formação na área de ciências sociais aplicadas, o sangue e o suor que lavam as vias de nossa República teimam em pular para os meus olhos, entrando pelas vísceras e descendo pelos meus versos...



Mas não sou poeta... Talvez nem mesmo aprendiz... Sinto apenas pulsar, insistentemente, a voz anônima e rouca da multidão... Não me contenho... E grito.

























Poemas

4

E agora, José? E agora, Maria?

Outro mês acabou,
a doença chegou,
o salário não viram.

O suor vai rolando,
todo sangue jorrando,
os sorrisos sumiram.

Dos que foram pras ruas,
sob sol, sob luas
e de bombas sofreram,

sufocando em fumaça,
com pimenta, nas praças,
vocês já esqueceram?

Deram voto ao inimigo?
Se arriscaram ao perigo?
Eu lhes perguntaria.

Já vem outra eleição,
mais dinheiro pro chão...
Vê, José! Vê, Maria!
Luzia M. Cardoso
713

O Capital

Sou papéis, barras de ouro,
sou moedas e ações.
Nos cofres, eu sou tesouro
controlando multidões.

Sou prédios, equipamentos,
máquinas e manuais.
Desprezando os lamentos,
eu não conto os funerais.

Da cabeça e do braço,
sou a força e o tempo
daqueles que acorrento.

Sou o fruto, a terra, o aço...
Giro, sou mercadoria
e respiro mais-valia.

Luzia M. Cardoso
703

Terra Devoluta

"Todo pé que dá fruta
é o que mais leva pedrada."
(Ditado popular)

Campo fértil, vida dura!
Tanto joio neste chão,
que cresce na podridão,
com o húmus da desventura!
Que praga essa cultura
despejada lá do alto,
por quem fica no Planalto.
Neste campo devoluto,
árvore que aqui dá fruto
sempre é alvo de pedrada.

Luzia M. Cardoso

620

E-mail a Manuel Bandeira

Prezado Poeta,

Foram-se decadas...
Hoje, àquele bicho que encontraste
na imundice dos pátios urbanos,
juntaram-se muitos, e muitos mais.
Todos da mesma espécie!
Disputam com ratos,
magras carnes de gatos.
Enroscados qual cachorros,
vivendo de restos.
Numa selva de detritos,
impregnados de lixo,
mosquitos, larvas e baratas...
Tantos bichos esquisitos.
No passado, viste um,
hoje, vemos multidão.
"Por Deus, não são bichos, são humanos!"
Homens, repastos de outros homens,
num triste banquete,
onde os outros, como dantes,
agem como urubus!

Luzia M. Cardoso
762

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.