Luzia Magalhães Cardoso

Luzia Magalhães Cardoso

n. 1961 BR BR

Sou nascida e criada no Rio de Janeiro e a poesia entrou em minha vida, assim, meio como quem não quer nada e foi ocupando o espaço... Criando raízes...

n. 1961-03-26, Rio de Janeiro

Perfil
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Tormentos

Essa tristeza que me envolve, taciturna,
que me embriaga com um vinho tão amargo.
E essa água que me afoga e que eu trago,
que me atormenta, me fechando numa urna.
Então, enluto, no meu canto, sou noturna.
Lua minguada, já sem brilho, sem mais nada.
Eu sou a chuva, de uma estrada apavorada,
cujo lamento me arrasta e me enfurna.

Esvaziada, solitária em minha tumba,
vou me enterrando, cegamente, nessa lama.
Eu sou as cinzas que ninguém nunca reclama.
Dança maldita, descompasso nessa rumba.
Sou o inverno do inferno que me bumba,
que me tortura numa rouca solidão.
Louca agonia chega a mim pra dar vazão
a esse pranto que no chão me prende e chumba.

Luzia M. Cardoso
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Biografia

Sou nascida e criada no Rio de Janeiro e a poesia entrou em minha vida, assim, meio como quem não quer nada e foi ocupando o espaço... Criando raízes...


Com formação na área de ciências sociais aplicadas, o sangue e o suor que lavam as vias de nossa República teimam em pular para os meus olhos, entrando pelas vísceras e descendo pelos meus versos...



Mas não sou poeta... Talvez nem mesmo aprendiz... Sinto apenas pulsar, insistentemente, a voz anônima e rouca da multidão... Não me contenho... E grito.

























Poemas

9

Delírios

Se eu ignoro a minha condição,
Antecipo-me aqui, e insisto
Em minha sanidade quando avisto
O meu corpo em pó na imensidão.

Pontos em cor púrpura luminosa
A navegar no espaço sideral
E sem ter condição especial.
Só poeira de alguma nebulosa.

Já vejo o Tempo, velho taciturno,
Aprisionar-me n’alguma ampulheta.
Virei fração... Um sopro de planeta.

De lado a lado, vivo o meu transtorno.
Sou instrumento nas mãos do ancião
Que vira-me em “sim”, revira-me em “não”.

Luzia M. Cardoso
795

Marias

Marias de pé,
Raízes no chão,
Marias com fé,
Fermento do pão.

Marias que crescem
Andando ligeiro,
Marias que vivem
Sem ter paradeiro.

Ao dia, Marias
Semeiam a terra.
À noite... Ah, Marias...
A noite as encerra.

Luzia M. Cardoso
740

Partes de Mim

Parte de mim não mais me pertence,
Ficou na estrada, é pó, é semente.
Parte de mim escorre no olhar,
Vai fundo, fluída, não tenta voltar.

Parte de mim é pura pegada,
Marcada, sangrada, para não se apagar.
Parte de mim é lança afiada,
Quando empunhada, irá penetrar.

Parte de mim é colo, é abraço,
É laço cuidado para não desatar.
Parte de mim é alma lavada...
E, parte a parte, eu deixo brotar.

Luzia M. Cardoso
746

Tormentos

Essa tristeza que me envolve, taciturna,
que me embriaga com um vinho tão amargo.
E essa água que me afoga e que eu trago,
que me atormenta, me fechando numa urna.
Então, enluto, no meu canto, sou noturna.
Lua minguada, já sem brilho, sem mais nada.
Eu sou a chuva, de uma estrada apavorada,
cujo lamento me arrasta e me enfurna.

Esvaziada, solitária em minha tumba,
vou me enterrando, cegamente, nessa lama.
Eu sou as cinzas que ninguém nunca reclama.
Dança maldita, descompasso nessa rumba.
Sou o inverno do inferno que me bumba,
que me tortura numa rouca solidão.
Louca agonia chega a mim pra dar vazão
a esse pranto que no chão me prende e chumba.

Luzia M. Cardoso
1 014

Invernou-me o coração

Extensa é a rota... Eu rumo só...

Vestes poucas, rotas, vou absorta...

Nesse tempo tonto, tantos nós...

Mesmo qu'invente almas, estão mortas.

Eu sigo, vazia... Todos os dias...

Esgotou-se o aroma primaveril...

As flores murcharam, sem rebeldias,

e o amor d'outrora já está senil.

Os gelos descem dos cumes dos montes,

e o sol, tão distante, não chega em mim.

É ácido o que entra em minhas fontes.

Frágil, a esperança se entrega, enfim.

 

São tão longos os dias desse inverno,

e o frio que sinto parece eterno.

Luzia M. Cardoso

 

826

Fome de Sim

Sou a criança que encontras pelas ruas.
Nas noites frias, eu não tenho quem me abrace. 
Fome de pão, aplacam pedras, todas cruas. 
Pela manhã, tu nem me vês, sou ser sem face. 

Quando te encontro, logo vira tua cara. 
Se chego perto, tu escondes teus pertences. 
Minha roupa rota, a pobreza não mascara. 
A dor que cresce nas favelas, tu não sentes. 

Culpa meus pais, mas estou órfão, sem família. 
Lá no abrigo, também tive que brigar. 
Não acreditas, mas preciso de um lar. 

Cuido de mim, de meus irmãos... É sempre assim. 
Não vou à escola, não sei ler, não ouço sim.
Sou uma criança em tantos dias de vigília. 
Luzia M. Cardoso
724

Olhos para Olhar

Teus olhos abertos, marcados, \ envoltos em medo e rancor, 
trancados no vão do passado, \ espiam à fresta da dor... 
  
Teus olhos abertos, sangrados, \ receiam agora enxergar 
um certo olhar sorridente  \ que se arrisca ao teu ponto de olhar. 
  
Teus olhos abertos, nublados, \ não veem que a noite passou, 
não veem o sol no horizonte, \ nem que a fonte de teu pranto secou. 
  
Ah, talvez devesses fechar \ estes teus olhos cansados, 
rasgar o véu acinzentado, \ drenar  todo o amargo do olhar. 
  
Talvez, de olhos fechados, \ não só no ato de amar, 
não só à entrega do sono, \  não só ante a luz solar, 
tu possas os outros enxergar. 
  
Quem sabe, agindo assim, \ enxergues além de ti. 
Quem sabe, de olhos fechados, \ enxergues aquela ternura 
dos olhos que querem te olhar. 
  
Luzia M. Cardoso


Obs: Alterei, aqui, a formatação original do poema para que ele possa ser lido na íntegra, por quem acessar o livro. Cada verso está indicado por \.
820

Saudade

In memoriam à amiga Cláudia Soutinho

Saudade... 
É um elo confuso 
Em tempo difuso 
Entre o antes e o agora 
  
Saudade...  
É o sentido que aflora 
Sem ter dia nem hora 
Sem quê nem porquê 
  
Saudade...  
É a presença distante 
Que nos leva ao instante 
Que queremos reter 
  
Saudade...  
É um ser alado 
Presente do passado 
           Pela a vida afora            
                                      
Luzia M. Cardoso
941

TEMPO

Às vezes os olhos nos cegam, 
O coração endurece 
Àquele de quem nunca se esquece... 
  
Às vezes falamos tanto 
Que não escutamos o pranto 
Daquele que roga uma prece... 
  
Às vezes atamos mil nós, 
Na malha, ficamos tão sós, 
Que até nossa alma padece... 
  
Mas o tempo do nosso presente 
É tempo que sempre dispara... 
Daquela amizade tão cara, 
Um dia, saudade... 
Um longo silêncio... 
E rogo ao tempo 
Os beijos e o abraço 
Nas asas da prece. 
  
Luzia M. Cardoso
1 165

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