Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

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Vale do ouro

Vale o valor que vale na arapuca armada.

No vale tudo, que não vale nada,

Vale tudo a favor da peça encenada.

O vale tudo deixa a água enlameada.

Na arapuca armada tudo é quase nada se não valer o valor que vale.

As águas arrastam muita coisa para o vale.

O vale leva tudo para um fosso infecto.

O valor deixa desvalido o intelecto.

O valor vai invalidando todos os valores.

O valor define o toque, o trote e os sabores.

O valor dá as cartas e descarta qualquer valor

Que não seja o corrente que acorrenta e causa dor.

O valor afaga e afoga, não entrega e cobra

A quem não deve e serve a quem manobra.

O valor leva lava para queimar os valores.

Na terra arrasada o valor passeia em tratores.

No vale do ouro os valores são um jardim,

Sem flores, sem árvores e entregue aos cupins.

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Limites

“É preciso haver limites pra criança”.

– Sempre ouvi isso com a esperança

De que também haja limites para outras criaturas,

Porque sem eles alvorece a loucura

E o tempo para em uma noite escura

E deixa as almas à mercê da ditadura

Que dita uma construção sem fundação

E um caminho livre que leva à prisão.

 

A falta de limites limita a visão

E ao invés de lavar, leva almas para contramão.

Contra os sentidos ou andando para trás,

Os cavaleiros tiram de quem não tem para dar a quem tem mais.

 

Que vergonha que me dá

Em ver a cerca do Ademar

Caminhar daqui pra lá

Engolindo as terras do Gilmar.

 

Sem limites, as cercas não param de andar

E a virtude não para de se afundar.

As cercas engolem terras, almas, vidas,

Enchem de veneno as comidas,

Deixam corpos e almas adoecidos

E o barco que nos trouxe até aqui é esquecido.

As cercas transformam sujeito em objeto

E ditam os traços do projeto.

 

As cercas estão enfraquecendo a iluminação.

As cercas estão festejando a escuridão.

As cercas estão sem limite

E em um rumo de verdade arremessam dinamites.

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