Lista de Poemas
O Pássaro da praça
Não é o leão, não é o não.
Feroz é o pássaro da praça
Que se empanturra com a desgraça.
O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma
Dos que comem na palma de sua mão:
Quase toda a fauna.
O pássaro da praça causa trauma,
Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.
O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.
Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.
Se não explodir ele ganha com a decantação.
O pássaro da praça não é gente não,
Transforma a vida em uma corrida pelo pão.
O pássaro da praça para colecionar castelos
Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.
O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste
E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
Pássaro Certeza
Se há um pássaro que não me passa beleza
É o pássaro certeza.
Na música desse zabelê
Não há espaço para o porquê.
Ele parece um pássaro de verdade,
Mas não passa de um bicho falso, sem identidade.
O pássaro certeza é tão belo
Quanto os especulações do mercado paralelo.
O pássaro certeza é tão de confiança
Quanto os fios podres de uma trança.
O pássaro certeza canta forte, canta alto:
Para que o som possa desenhar o seu retrato,
Para que o vento varra um navio de verdade,
Para que o fogo queime quem não segue sua vontade.
O pássaro certeza canta forte, canta alto:
Para defender o passeio de um estrato,
Para transformar os ouvintes em papagaios,
Para que fato, falso e feio se misturem no balaio.
O pássaro certeza canta forte, canta alto:
Para vender caro seu produto barato,
Para esconder o seu espírito caricato,
Para servir aos eternos carrapatos,
Para tirar as calças do pacato,
Para deixar o pacato sem teto, sem tato,
Para deixar o negro sem sapato
E para deixar Deus estupefato.
Onde pôr os pés?
Não me vejo nessa vida sem juízo,
Vejo meu papel esmagado por uma resma.
Vitórias e derrotas não são as mesmas.
Estão envenenando a minha horta.
Querem esfaquear a minha aorta.
E não há nada que eu ofereça
Na minha rima sem pé, nem cabeça.
A minha letra
É branca e preta,
Sem cor, sem vida,
Sem rosa, sem margarida.
Falo apenas para mim.
Se ao menos eu soubesse latir em latim...
A minha casa de madeira deu cupim
E eu não sei onde pôr os pés no meu jardim.
Primeiro de maio
Comemorar, reivindicar, protestar ou ter um desmaio?
Trabalhador! O que entrega?
O que recebe? Como trafega? Como sossega?
Quem ergue tudo, não tem onde se pegue.
Meu Deus, não deixe que nada me cegue!
Eu quero enxergar
Isso aqui como está.
Não quero mostrar nada, nem fazer aposta.
Tudo está aí, a ferida está exposta.
Não tenho, nem procuro uma resposta.
Mas sei que vou padecer
Se ficar esperando quem manda socorrer.
Vou correr daqui,
Vou morrer por aí,
Para conseguir viver
No mundo que não sei ler,
Não sei nem comunicar a dor,
Sou apenas um trabalha a dor.
A minha casa não é minha
Nasci numa casa abandonada
Onde nada existe para mim,
Tudo existe para um fim
Que faz de mim alma penada.
Já nasci com peso nos ombros,
Cresci no meio dos escombros
A sentir a poeira nos olhos e a noite em pleno dia,
Feito um fruto que sem amadurecer já apodrecia.
Mudo de cor só de olhar o horror
De fazer tudo e não saber qual o sabor.
Os ventos levam tudo,
Nada fica para mim.
Fico assim, sem eira nem beira,
Feito madeira consumida por cupim.
Míngua a minha língua,
Surge uma íngua na minha alma.
Envergonhada por não poder
Fazer nada diante do que desalma
A minha alma vaga, sem vaga,
Sem nada, no fundo do poço,
Empurrada por uma mão que degrada,
Culpada até o pescoço.
O Papel Que Cabia
Ouço muito sobre fome,
Mas não ouço tocar o nome
Das causas que impulsionam essa caravela.
Não sei se vejo um barco a vela ou uma novela.
A linguiça não é sadia,
Rasga a noite e engole o dia.
Passa e não passa a coisa fria
Que queima o papel que cabia.
O pronto socorro precisa existir,
Mas a vacina contra os males deveria surgir.
Pouco vale quebrar galho
Sem nada fazer lá na raiz.
A linguiça balança o chocalho
E o clone come, some e soma feliz.
Só remediar não coliga.
Como é que pode atacar a formiga
Sem atacar o formigueiro?
Assim a raposa toma conta do poleiro.
As causas da fome comem
Tudo que falta ao homem.
Zé Preto
Jogaram o Zé Preto no lixo.
Envergaram a coluna do Zé.
Nunca vi nada igual.
Deve existir por aí, mas eu nunca vi.
Subindo uma ladeira,
O Zé, se quisesse andar de quatro pé,
Era só estender os braços para onde o nariz apontava.
Ele tinha que fazer contorcionismo
Era pra olhar pro céu.
O Zé Preto era um homem envergado
Pelo peso nas costas de seus ascendentes.
Lançar o recém-nascido no lixo
É a continuação de uma história.
Os proprietários da mãe do Zé
Precisavam de comida na mesa,
Roupa lavada e casa arrumada.
Jogaram o Zé Preto no lixo.
Pedaço de madeira
Jogaram-me num poço e eu não sabia nadar.
Aquilo que um jogador de futebol faz
Para cabecear uma bola no terceiro andar
Eu fazia para respirar.
Os espectadores festejavam.
Não sei quantas bolas cabeceei.
Por estarem saciados
Ou para o festival não dar errado,
Puxaram-me da água.
Os risos rolaram pelo chão.
Depois todos foram nadar.
Do meu lado ficou apenas um pedaço de madeira,
Com o qual eu me armei
E nenhum outro menino percebeu.
Com os sentimentos que me esmagavam
Lancei o troço na cabeça de um deles.
Começou a corrida.
Enquanto eles saíam da água
Eu abri uns trinta metros.
Mas havia meninos maiores, mais velozes.
Então, invadi a área dos cansanções.
Na roça era comum ser sapecado por urtiga bebê.
Mas o cansanção deve ser coisa do demônio.
Não foi o bom Deus quem criou aquela planta.
Os perseguidores desistiram de mim.
Mas eu conheci o fogo do inferno.
Pergunto ao meu eu,
Por que fazemos com o outro
O que não gostaríamos que o outro nos fizesse?
Miro o fundo da minha alma,
O fim do horizonte,
Tudo que é e não é meu
E me perco nesse breu.
O sono
O sono me puxa
Pelos cabelos que não tenho.
Desperto um pouco,
Vejo-me no meu lugar,
Que eu não sei onde é.
Perco-me em um labirinto que está dentro de mim.
Corro com uma faca nos dentes
Para não sair da minha mão,
Que eu não sei se é minha.
O sono dá um tempo para mim.
Um tempo como todo tempo,
Com presente, futuro e passado
Correndo abraçados.
O relógio não para.
No meu pulso ainda vejo alguma coisa.
Na luz do dia nada vejo.
O sono passa e leva com ele
Algo que é meu.
Meus olhos, meus ouvidos,
Todos os sentidos,
Pelo sono atingidos.
O sono adormece o meu ser,
Põe a minha alma no mar,
Para deixá-la sem peso,
Para ser facilmente levada pelos ventos.
O sono antes de pegar o corpo
Tira a alma pra dançar.
O sono dá razão à falta de razão.
O sono da razão é um pesadelo,
Que embrulha os sentidos em um novelo
Que rola de ladeira abaixo.
Linhas da minha mão
No mundo das linhas da minha mão,
Vejo tudo em cima de um balcão.
Estou sem óculos e é ruim a iluminação.
E a cigana que me ensinou a ler
Se perdeu dentro de mim.
Fico sem saber
Onde pôr os pés no meu jardim.
Olho para frente
Vejo apenas as minhas mãos com um presente indecente,
Embrulhado de ontem.
Ontem mal embrulhado,
Com o lacre violado,
Com o endereço errado,
Com a validade vencida.
Quem toca o presente
Não sente a minha vida.
Não quer saber de nada,
Nem de mim nem de ninguém.
Diz que o outro é uma escada
E dos anjos ouve “amém”.
Nas linhas das minhas mãos,
Vejo que não tenho tempo
Pra apurar a minha visão
E saborear meus alimentos.
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