Lista de Poemas

Verbo

Um dia a ideia de fim
Era para mim um charuto amargo
Que eu não conseguia tragá-lo.
Pensar no fim, logo no começo,
É uma viagem sem endereço,
Não é coisa que se faça.
Por sorte os ventos me levaram a uma praça
E me deram o presente.
Hoje, a ideia de fim
Não altera o meu boletim.
Às vezes, acho que tudo não passa de pó,
Outras vezes penso em algo melhor.
Quando falo sobre o que vem ou não depois do “fim”,
A minha esposa aponta para o jardim,
Para as plantas que vão e voltam. 
Eu não acredito nem duvido
Desse, nem de outros sentidos.
Só não creio
Que esse relâmpago passeio,
Que não dura nem um século,
Possa prender alguém pra sempre em algum lugar.
Eterna mente.

115

Futuros roubados

Os meninos que vendem frutas,
Às margens da rodovia,
Não podem ir à escola,
Porque têm que ajudar os pais
A pagar os juros do cartão.
Os meninos acordam antes de o sol sair.
Às vezes ainda são iluminados pelo brilho da lua.
Quase sempre são banhados pelo sereno matinal.
O orvalho nos capins não enche os olhos,
Encharca os pés.
O show dos pássaros passa despercebido,
Não é música para aqueles ouvidos.
As árvores bailando com o sopro do vento,
A aurora matinal e toda a festa
Não fascina aquelas almas.
Quem sente dor, não se derrete com uma flor.
A falta de botas e casacos afeta os sentidos.
No sentido do sítio, vão eles
Levados pelos juros do cartão, 
Pelas mãos de santo Onofre 
E pelas vidas trancafiadas em um cofre. 
Nesse quadro mal desenhado,
Os meninos que oferecem frutas doces
Amargam um presente
Que sinaliza um futuro pesado
Nas balanças dos que recebem os juros dos cartões.

60

Outras digitais

Renato trabalhava na cidade
E morava na roça onde comprava fiado na mercearia de Lúcio.
Em uma dessas crises econômicas,
Os que dão as cartas apertaram o cinto.
Foram arrochos e mais arrochos.
A chave de fenda do poder apertou como se quisesse tirar leite de pedra
Para garantir o queijo dos que têm a bolsa nas mãos:
Especuladores, grandes acionistas e outros “artistas”.

Como sempre acontece,
Quando a mão invisível cresce
O desemprego estremece.
A maré braba atingiu muita gente.
Renato foi um dos derrubados por essa onda. 
Ele honrava os compromissos religiosamente
E se orgulhava de ser um sujeito decente.
Mas a maré braba demorou passar
E ele começou a se afundar.
Até que chegou o dia que ele foi à mercearia
E a escuridão o arrebatou em plena luz do dia.
Lúcio já estava sufocado com tantos fiados.
Lúcio perdeu a linha,
Arrodeado de clientes, bradou:
Não vendo mais fiado a você, já me deve demais.
O comum naquele meio era fazer esse comunicado em particular.
Renato baixou a cabeça, procurou terra no chão e não encontrou.
O homem mudou de cor, 
Dos olhos saíam faíscas.
Cego como estava,
Privado dos sentidos,
Renato foi em casa, pegou o revólver,
Voltou à mercearia e deixou órfão os três filhinhos de Lúcio.
Foi o dedo do Renato que puxou o gatilho,
Mas outros dedos estavam ali. 

57

A liberdade da estátua

Indo e vindo do batente,
Levado por um trem movido à gente,
Sou diariamente
Arrastado pela frente
Da estátua da liberdade.
Encaro a estátua,
Olho para aquele braço erguido
E sinto os sentidos adormecidos.
Naquele braço erguido
Não vejo um aceno, um cumprimento;
Vejo uma demarcação, uma invasão,
Um descobrimento. 
Eu me vejo naquela mão
Que é uma sonda em meu torrão.
Miro a estátua,
Sinto a pressão alta.
A coroa na cabeça da estátua me remete ao passado.
Sinto o meu suor sugado. 
Os olhos da estátua parecem piscar para mim,
A imagem é de coisa ruim.
Parecem piscar para mim,
Mas não dizem oi; dizem: livre você nunca foi.
Você trabalha para um fim 
E não passa de um meio.
Saio de mim,
Não me vejo no espelho.
Vou e volto do batente espremido
E com um gosto amargo nos sentidos.

37

As Placas

Quando eu era criança,
Enquanto os caminhos me puxavam pelas mãos,
Eu ouvia o meu coração,
Que dizia que na vida adulta eu escolheria os meus caminhos.
Aos dezoito eu teria a minha emancipação
E teria o meu mundo em minhas mãos,
Seria dono do meu nariz.
Traçaria o meu caminho.
Eu achava que os adultos precisavam aprender com as crianças.
Talvez precisem um pouquinho.
Eu tinha a solução pra tudo.
Tinha solução pra tudo,
Porque não tinha nada pra solucionar.
Eu pensava que os meus caminhos estavam em minhas mãos.
Eu pensava que ia escolher como e por onde andar.
Como se não existissem as placas para me condicionar:
Aqui é mão, aqui é contramão.
Entre por aqui, por ali não pode não.
Não pare aqui, não estacione ali,
Não ultrapasse tal velocidade.
Atenção: curva perigosa, estreitamento de via,
Cruzamento, passagem de ferrovia... 
As placas estão fora e dentro de mim
E não permitem que eu tenha o meu mundo em minhas mãos.
Não sei o peso das placas que indicam a direção.
Mas quem me diz que o resultado da minha caminhada
Depende apenas das forças das minhas pernas 
Ignora ou esconde as condições do caminho.

83

Atravessa

Um menino atravessava a rodovia,
Vindo da roça pra casa
Com duas sacas de batata no lombo do cavalo.
Um carro parou e o motorista o chamou:
– Menino, quer vender essas batatas?
– Vendo.
Ele disse o preço, o comprador aceitou
E mandou colocar na carroceria do carro.
O menino pediu o pagamento.
– Bote aí e vem pegar o dinheiro.
– Me dê logo o dinheiro.
O sujeito insistiu, mas quando viu que não daria certo,

Mudou de plano:
– Vou pegar o seu dinheiro.
Pôs a mão em algum lugar,
Puxou um revólver... 
O menino voou pela ribanceira,

Deixou para trás o cavalo, o calçado,

A batata, a balança e o sono de criança. 

O comprador levou a batata e amassou a lata da balança.
Como um indivíduo é capaz de fazer isso com uma criança?
Eu não sei!
Ou talvez eu saiba,
Porque no fundo, no fundo,
Isso não é coisa de outro mundo.

45

Mata verde

Na festa de Mata Verde, fantasia e realidade se confundem.
Saci-pererê, mula sem cabeça, bicho-papão, papa-figo, lobo mau…
Vão bem de verdade. São bem de verdade.
Eles falam o que querem e falam sério.
Brincadeira é querer amadurecer na festa de Mata Verde.
Querer distinguir o que é fantasia ou realidade é loucura,
É querer sarna pra se coçar,
É querer nadar contra a corrente,
É querer demais.
Ultrapassa os limites da brincadeira,
Que de brincadeira não tem nada.
Na festa de Mata Verde,
Há vantagem em ser criança
Ou brincar de criança.
Na verdade só meia dúzia de crianças se dão bem,
Mas o que importa na Mata é viver verde.
As chaves que abrem as portas e as porteiras
Não se movem de brincadeira,
Movem-se para movimentar:
O Saci-pererê, a mula sem cabeça, o bicho-papão, o papa-figo, o lobo mau e todos que estão na festa.
Movem-se para fazer a festa de quem não está na festa.
Na Mata, matérias verdes apodrecem sem jamais amadurecer.
A festa de Mata Verde é isso.
Não é pra brincar em serviço.
A festa da Mata cultiva profundamente o verde.
O saci-pererê, a mula sem cabeça, o bicho- papão, o papa-figo, o lobo mau…
Botam as crianças pra dançar,
Tiram os pés do chão e a cabeça do lugar.
Nessa festa quem quiser enxergar, ouvir, ou sentir com os próprios sentidos
Vai dar de cara com um vespeiro enlouquecido.

117

O Portão

Dormi no relento para entrar na escola.
Não foi bem dormir,
Passei a noite em uma rede a céu aberto
Olhando pra lua, pras estrelas e para mim.
Olhava para mim e saía de mim.
Não havia, nem eu queria, um espelho para eu me ver.
Eu me via com sono e com medo de dormir.
Medo de acordar com a chuva.
Medo do sereno não me acordar.
Medo de não acordar cedo,
Quatro da manhã.
Mas quatro da manhã seria suficiente
Ou a escola já estaria cheia?
Passar aquela noite que não passava
Para não passar pelo portão da escola
Era um pesadelo a ser tatuado na minha memória.
Não aguentei ficar na rede até às quatro horas.
Corri pra escola.
Já havia fila.
Meu coração acelerou.
A minha alma desapareceu na escuridão dentro de mim.
Quando o dia clareou passei pelo portão.
Mas passo mal quando vejo alguém dizer,

Com ingenuidade ou de má fé,
Que só não passa pelo portão quem não quer.

108

Por nada

Uma das minhas travessuras de criança
Era perseguir calangos e preás.
Os dois são inofensivos.
Mas a graça ou a desgraça de ser caçador,
Ou explorador, também me atravessou.
A caça não era para tirar proveito da caça,
Era para a carcaça da alma ou para a alma da carcaça. 

Era uma espécie de caça esportiva,

Para saciar o insaciável,
Para contar o que não conta.

Era uma fome sem nome que consome os sentidos

E segue cegamente a brincadeira.

Era tudo por nada.

Perseguindo calangos e preás,
Quando eu pisava num espinho,
Ou tropeçava numa pedra

Culpava quem tentava se salvar.

Petrificava o coração,

Ficava com sangue nos olhos,

Que não demorava a sujar as mãos.

A dor da minha estupidez

Ou a estupidez da minha dor,

O calango ou o preá,

Sem dever, ia pagar.

92

O Circo

Com vocês Nadine em passos de rumba!
Anunciou o palhaço e o circo aplaudiu.
Nadine flutuava como se estivesse na lua.
Um espectador que estava nas nuvens acenou para ela.
A borboleta pousou ao alcance das mãos do desgraçado.
A atriz pegou o boné do infeliz e usou como quis.
O circo pegou fogo.
O palhaço surfava nas chamas
Acesas por Nadine
E alimentadas pelos artistas da plateia.

Ao ser visto por Nadine
O meu indicador se moveu por conta própria.
A borboleta flutuou na minha alma
E sugou todos os meus sentidos.
As chamas que iluminavam o circo baixaram 
Em uma vela na palma da minha mão. 
A minha alma não sabia aonde ir.

Por alguns segundos
Colocaram o mundo no mudo.
Nas faces havia disfarces e sorrisinhos venenosos,
Que na minha ausência virariam gargalhadas intermináveis.
Pensei em ir embora,
Mas imaginei o palhaço usando o meu nome
Para conversar com o lugar vazio.
Na plateia todos se conheciam.
Fácil, fácil, o meu nome iria parar na boca do palhaço,
Que atuaria comigo sem a minha presença.


Imaginei piadas
E uma onda de gargalhadas como uma ola nas arquibancadas.
Uma onda de gargalhadas agitando o circo
Como se fossem redemoinhos endiabrados.

A voz dos meus avós ecoou nas paredes da memória: 
Meu querido,

Se na sua presença pegam leve com você,
Na sua ausência você será o alvo preferido.

Minhas orelhas não iriam esquentar, iriam incendiar.
Essa arte sempre desfilou no circo e fora dele.


Nadine nem parecia que tinha sido convidada
E abandonada no salão.
Tirou de letra e o show continuou.
O circo sempre continua no circo e fora dele.

O circo continua com ou sem pão

O circo toma conta de tudo

E cumpre a sua missão.

104

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments