Lista de Poemas
O Cavalo do Zezé
As abelhas pegaram o cavalo do Zezé.
O cavalo corria sem parar,
O enxame não o deixava respirar.
O cavalo corria em círculo,
Preso pelas cercas intransponíveis que estavam dentro de si.
A do cercadinho era dois fios de arames velhos,
Só um pouquinho da força do cavalo
Seria suficiente para derrubá-los.
Quanto mais corria, mais visitava a colmeia.
Transportava, cada vez mais, mais abelhas.
Correu, correu, correu...
Tropeçou, caiu e lá ficou.
Não foram as abelhas que venceram o cavalo.
Se fosse um cavalo selvagem
A história seria outra.
Mas o domesticado...
O domesticado é tudo e não é ninguém
Mais que escravo e refém.
O Bêbado
Eu vi um bêbado ser um brinquedo
Para crianças de várias idades.
As crianças cutucavam o bêbado
Com a cumplicidade dos pais e dos demais adultos.
Os pais diziam:
– Meninos parem com isso!
Mas ficavam mordendo os lábios,
Para não rirem na frente dos meninos.
Os travessos percebiam e o espetáculo continuava.
O “parem com isso” era um faz de conta,
Parecia certas lutas contra a fome, a destruição do meio ambiente...
Parecia com o papel de quem faz que não vê o rolo compressor
Que esmaga crianças, mulheres, idosos e a construção da humanidade.
O bêbado era um brinquedo.
Os travessos davam petelecos nas orelhas,
Puxavam os cabelos, chutavam as pernas
Atormentavam o bêbado,
Que em vão procurava humanidade na Humanidade:
– Vocês não estão vendo isso não!
O bêbado não fazia mal a ninguém.
Se segurava em uma garrafa de cachaça
E depois cantarolava meia hora e apagava.
Meia hora de “lata d'água na cabeça” e outras parecidas.
Nenhuma música inadequada para aqueles ouvidos.
Nenhuma palavra obscena, nenhuma ameaça.
Nada, nada, nada...
Sem forças para ficar de pé,
Não correria nem de um leão faminto.
Inofensivo, indefeso, desamparado...
Não tinha ninguém por ele.
Tudo que tinha era a música e o álcool.
O prazer de ver o outro tropeçar, cair, meter os pés pelas mãos,
Não nos larga depois que os tropeções de um circense ou de um parente não têm mais graça.
Largamos as fraldas, a farda da alfabetização,
Os dentes de leite, as bonecas, os brinquedos
E um punhado de segredos,
Mas a diversão com o tropeção do outro não.
E o bêbado sendo levado pelo vento,
Se segurando nas paredes,
Colocando as mãos no chão, era uma diversão.
Mas isso ainda era pouco
Para as inesgotáveis necessidades que nos consomem.
Sonho Eletrocutado
Nunca fui um sonhador, mas sonhei ser jogador.
Na frente da minha casa ou na estrada empoeirada,
Por onde passavam mais animais que gente
E o carro que passava era o de boi,
Eu mostrava intimidade com a pelota.
Todo dia à tardinha,
Depois da escola e da labuta,
Com aquela energia que só as crianças têm,
Eu bailava com a bola até o sol ir embora.
Aos dez anos eu jogava com as crianças,
Aos doze, com os adultos;
Aos quinze...
Um raio eletrocutou o meu sonho.
Pássaros
Nos dias da minha infância,
Eu subia o morro do caju para subir nos cajueiros
E olhar pro céu por cima dos coqueiros.
Rompia a copa do cajueiro,
Olhava para os horizontes
E via o mundo todo.
O mundo era aquilo,
Era o que os meus olhos conseguiam ver.
Nos caminhos da minha infância,
Eu via o verde nas minhas mãos
E nuvens de algodão
Que realçavam as alegrias do céu azul
Daquele mundo que existia em mim.
Quando o sol ia embora,
Vinha a lua com um sorriso sem fim,
Meus olhos viajavam
Apreciando a lua e as estrelas,
Que desfilavam para mim.
Para os meus olhos
Não eram as nuvens que davam a sensação
De ver a lua e as estrelas em movimentação.
A inexistência de luz artificial
Iluminava a minha existência.
Essa luz esconderia a maioria das estrelas,
Enfraqueceria o elo
E deixaria a lua com um sorriso amarelo.
Hoje quando vejo o céu ameaçado por nuvens sombrias
Busco o céu da minha infância
Para seguir no meu caminho,
Apreciando o sol que dá bom dia,
Os pássaros que cantam com alegria
E as árvores que bailam com o sopro do vento.
Fujo pra respirar aquele ar,
Corro para abraçar
O lago que me fazia saltitar.
Fecho os olhos para ver
As pedras que eu jogava,
Que faziam salto triplo na superfície da água.
Meus pés saíam do chão
E as minhas mãos socavam o ar.
No céu com a lua e as estrelas
O silêncio falava,
Os vagalumes iluminavam
E as pedras voltavam
A me transformar em um pássaro saltitante.
Agora não era a pedra na água,
Era a pedra na pedra.
Se a pedra para a água era magrinha e espalhada.
A pedra para pedra
Era cheinha e bem pesada.
No cenário da noite
As pedras que eu jogava em pedras gigantes
Soltavam faíscas fascinantes.
Nos caminhos da minha infância
Eu corria olhando pro chão e o chão olhava pra mim
E passava sob os meus pés como se fosse uma esteira ergométrica.
Outras vezes eu olhava pro chão,
Mas não era para vê-lo ou ser visto.
Agora o chão era uma espécie de telão.
Isso em plena luz do dia
Com o céu azul e o sol no meio do céu.
Nesse cenário qual projetor conseguiria pôr uma imagem no chão
E nela pôr a minha atenção?
Não, não, não!
Naquele campo que era o meu mundo
Ou no meu mundo que estava em campo
O chão era um telão para as sombras das nuvens.
Delas e atrás delas eu corria
E nelas eu via as graças do meu dia.
Hoje em dia, as crianças do meu lugar
Não estão no meu lugar,
Estão lá, mas não estão lá.
Estão no celular.
Não são livres para brincar, imaginar e enxergar.
O gato e o pássaro
Outro dia, parei minha caminhada matinal
Para ver um gato se aproximar de um pássaro.
O gato além de colocar o mundo no mudo
Ainda se movia como se não existisse movimento.
E o pássaro parecia que estava em outro mundo.
Mas eu já tinha visto um pássaro brincar com a morte.
Em uma outra manhã eu vi um pássaro
Voar da grade de uma quadra de esporte
Para pousar em uma árvore.
Mas não foi um voo qualquer.
No chão, entre um ponto e outro,
Havia um gato.
Se o pássaro fosse um jato
(Daqueles que deixam uma linha no céu),
O voo não deixaria uma linha no ar,
Deixaria um arco.
Um arco sorrindo para o céu.
O pássaro que estava no alto,
passou a centímetros da boca do gato,
Parecia que iria beliscá-lo.
O pássaro saiu sorrindo
E o gato ficou digerindo a gozação.
Mas a ideia de uma brincadeira perigosa
Foi embora.
O pássaro estava com a cara no chão
Procurando comida.
O pássaro da quadra de esporte era senhor da situação.
Já o pássaro com a cara no chão
Não estava a par do alçapão.
Ele lutava pela comida.
Quem luta para não morrer de fome
Não pode enxergar bem o mundo ao seu redor.
A angústia tomou conta de mim.
O gato tinha uma casa, tinha o que comer
Não precisava pegar aquele pobre passarinho.
Mas aquele gato tinha o instinto dos donos,
Não precisava ter necessidade para devorar uma vida.
Decidi intervir.
Mal me movi, ouvi uma voz.
Olhei para trás,
Duas criaturas me chamaram.
Tinham feito uma aposta.
Eu não poderia intervir.
Os dois estavam ansiosos.
Um torcendo para o bicho pegar
E o outro querendo ganhar a aposta.
Tentei convencê-los a desistir dela.
Foi em vão.
Fui ao fundo dos olhos das criaturas
E não vi resquícios de compaixão.
Uma vida estava prestes a ser devorada.
O devorador e os apostadores estavam em fina sintonia.
Todos querendo ganhar.
A vida em jogo.
Eu por covardia ou prudência,
Limitei-me a dizer que ia torcer para o pássaro voar.
Um deles sorriu.
Mas mal acabei de falar,
O outro riu,
Riu melhor, gargalhou, ganhou a aposta.
A minha xícara de café
Matutando sobre o que é Deus,
Não consegui ir além do eu que é só o meu:
Deus é um ser primitivo de forças infinitas e inexplicáveis.
Não sei como viajar nessa viagem.
Matutando sobre o que é poesia
Também me perdi em plena luz do dia,
Parece que é tão inexplicável quanto Deus.
Não! Não é. É exagero meu.
A minha vó está me tachando de ateu,
Herege, arruaceiro, subversivo...
Mas eu quero apenas o que eu vivo
E estar feliz
Por não pôr a venda o meu nariz.
Viver para sentir, para imaginar
O belo e o elo entre o duelo
E a harmonia que pode originar
O fazer e o prazer do caramelo
E a percepção do peso do castelo
Sobre o chiado do chinelo.
O que é poesia?
O amor, a dor, a tristeza, a alegria?
A escuridão da noite, a luz do dia?
A desconstrução da construção?
O espanto que explode com o trovão?
A senha que assanha a emoção?
O vagalume que pisca por segurança e diversão?
A lata que contém o incontível?
Os olhos que veem o invisível?
É um passeio pelo ar, pelo mar e pelo chão
Que limpa a visão e alegra o coração?
Sei lá o que ela é.
Pode ser a minha xícara de café.
Jurômetro
Juro que eu não sei pra onde vai o meu suor.
Juro que eu preciso desatar esse nó.
Juro que eu queria uma medida, que diga
Onde passeiam as causas de minha fadiga.
Juro que me vejo menor que uma formiga.
Juro que a neblina é inimiga,
Que não me deixa enxergar o mar que me abriga
E me obriga a suar, suar, suar sem parar
Para encher os rios que só correm para o mar,
Socorrem quem não precisa de socorro
E é pra essa brincadeira que eu corro.
Morro de correr
Para ser sugado pela mão que ninguém vê.
Juro, juro que eu quero um medidor
Que meça a minha dor
Nessa conversa do ameaçador,
Quadro pintado por quem jamais pintou.
Juro que uma medida que meça os juros
Mostrará o que é feito no escuro,
Onde os juros movem-se ao som dos cardeais.
Desconjuro! Juros que não acabam mais.
O espírito
O espírito dos navios negreiros, da colonização
Dos juros, da inflação,
Das bolsas que me deixam sem chão
E de tantas outras pedras que dificultam a caminhada
É como semente enterrada:
Some pra dar lugar a uma nova,
Na qual a essência se renova.
A nova é a velha marca d'água.
O novo é de novo a barca furada.
Tudo muda e nada muda
No som que toca a grave e a aguda.
As notas estão nas mãos de Judas,
Que toca uma viola absurda,
Que viola as leis naturais
E torna imortais as linhagens dos feudais.
Viola
A viola dos cardeais
Viola as leis naturais,
Toca do jeito que quer,
Diz como deve ser o café
Mas se ele ficar amargo,
Jamais assume o encargo.
A viola dos cardeais
Faz tudo e nada faz,
Toca tudo e nada toca,
Dita o ritmo e faz da nota
A mão invisível de um deus
Que só existe para os seus,
Mas se vende como única saída
Para qualquer sentido da avenida.
A viola dos cardeais
É só uma e é demais,
Fingindo tocar pra Deus
Faz o show pro satanás.
É de cair o queixo!
Como é podre todo o eixo
Que sustenta a encenação
Que indica um caminho livre que leva a prisão.
O espetáculo sustenta o palco
E esmaga o estrato
Que não está no contrato.
O contrato é elaborado pela nata.
Quem faz tudo só se mata.
Quem faz tudo, nada faz
Na farra dos cardeais.
Medo de Medir
Eu conheço uns papagaios da minha aldeia
Que falam de boca cheia
Que têm medo que ela
Vire uma Venezuela,
Pedem que Deus acuda
Pra isso aqui não ser uma Cuba.
Mas toda essa ladainha
É pra esconder a casa-grande na casinha,
É para tapar o sol com uma peneira
E passar nota falsa por verdadeira.
Esses papagaios que aqui tecem a trança
Têm medo é que a aldeia vire uma França,
Uma Alemanha, uma Inglaterra...
Aqui é terra que tem dono,
Que não é o povo, que vive no abandono
Como eterno colono para a farra que nos ferra.
Eles têm medo é dos mares e da claridão
Que não comportam o navio da escravidão.
Têm medo de perder a galinha dos ovos de ouro.
Ouro, maldito ouro
Que do povo suga o sangue e tira o couro.
Têm medo é de que os que aqui estão
Ousem querer ser cidadãos.
Medo de medir.
Medo de não poder mentir,
De ver a massa ir e vir,
De ver a massa ver e sentir.
Esses moços têm medo
É da divulgação do segredo
Que não é nenhum segredo:
Que a base sustenta o topo da pirâmide
E tem corpo e alma amarrados com arame.
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