Lista de Poemas

Os Cristãos Matariam Cristo?

Os cristãos servem a Cristo?

O que existe por trás do visto?

Será que o diabo está se servindo do imprevisto,

Ou do previsto, ou do visto, ou do registro?

Os cristãos seguem Cristo?

Se Cristo voltasse seria benquisto?

 

Cristo iria aceitar a diferença que há

Entre o ser e o parecer?

Nesse espaço passeia:

A luz que encandeia,

A riqueza que gera fome,

As grandezas que amesquinham o homem...

 

Cristo iria aceitar a feira livre em seu nome

Ou iria colocar a boca no trombone?

Os denunciados de hoje fariam o quê?

O mesmo que os de ontem puderam fazer?

Suportaríamos a presença de Cristo

Ou mais uma vez o pregaríamos num crucifixo?

140

Espírito mesquinho

Vale tudo para vender gato por lebre.

Vale tudo para que o mágico celebre.

Só não se coloca em jogo as integridades física e financeira,

O resto é tudo besteira.

Danem-se os valores que não valem no cassino.

O interesse público não vai no meu destino,

Vai na contramão e traz companhia que desagrada

Aos aeroportos, universidades e outras estadas.

 

Até engulo certas pessoas nesses lugares,

Se lá estiverem para fazer o que fazem em nossos lares.

Essa gente tem que rastejar feito cobra.

Não pode passar da condição de mão de obra.

 

A nossa aldeia não pode pegar os caminhos

Daquelas onde os animais mostraram o focinho.

Aqui não, aqui temos outros planos

Aqui há humanos e humanos.

Em outras aldeias falta tapete para o homem de bem pisar

Aqui não há de faltar.

 

Aqui os tapetes não irão criar asas,

Vão servir dentro e fora de nossas casas.

Aqui é para gente que é gente

E o passado é o nosso presente para sempre. 

134

O touro

Parei para correr a vista
No passeio de alguns artistas
Que são mestres na arte
De lucrar por toda parte.

Não há galinha dos ovos de ouro,
Eles não produzem nenhum tesouro.
É que o dinheiro dessas cacatuas
Põe mais ovos que um peixe-lua.
Cada uma das cédulas bebês
Além de parir, não param de crescer,
Multiplicam-se incontrolavelmente
E não são pobres mortais como a gente.

E para elas não há um único predador.
Quem controla o touro se sente criador,
Mas são as criaturas os únicos não mortais,
Assim, um dia elas transmutam a hierarquia dos corais.

173

O Reitor

Algemaram o reitor.

Um professor oferece perigo,

De certas criaturas é um inimigo. 

Um professor pode iluminar o escurinho do cinema.

Iluminar é uma coisa que pode causar problema.

A falta de luz é essencial

Para o passeio no curral.

 

A falta de luz é essencial:

Para a ação do marginal,

Para a convulsão intelectual,

Para a serpente sair da toca,

Para levarem o ouro da vendedora de pipoca,

Para o morcego chupar o sangue do animal,

Para a mentira fazer um carnaval...

 

Sem dúvida tinham que algemar o reitor.

É preciso enfeitar a página, leitor.

Algema no pé, algema no amor,

Algema até na alma do professor.

Algema no pé, algema na mão,

Algema na educação.

Algema no pé, algema na mão,

Algema na iluminação.

 

Algema para a diversão da TV.

Algema para a educação aprender.

Algema para todo mundo ver

O que acontece com quem não aprende a ler

Nos olhos dos donos do poder.

Professor gosta de iluminação.

Algema nele então,

E luz, câmera e ação. 

O espetáculo precisa deixar uma lição:

Ninguém deve contrariar a razão da aluvião.

As águas da liberdade de expressão

Passeiam livres nas torneiras do coração

Se não contrariarem os interesses de quem tem tudo nas mãos.

 

As águas que não correm para o mar

Em obstáculos irão esbarrar.

A água que não corre para o mar

Pode logo se acabar

Ou ser acabada pelos nobres que

Acabaram com o reitor. 

205

Duas bolsas

Contemplando a evolução das tecnologias

Disseram-me que evolução humana brilha em nossos dias.

Essa afirmação me acompanhou feito uma assombração.

Para mim, em tal comparação paira uma grande confusão.

A evolução tecnológica é um avião de última geração,

Já a humana não passa de uma Maria Fumaça se arrastando pelo chão.

 

Naquilo que nos diferencia dos outros animais

E das inteligências artificiais

A evolução é uma Maria Fumaça que anda devagar demais.

– Rapaz, isso é muita areia pro seu caminhão!

– Eu sei que é, mas do jeito que der vou seguir a minha condução. 

– Os outros animais não constroem avião!

– Sim, mas vamos ver a face humana dessa evolução: 

A Maria Fumaça é uma das faces da moeda.

Não é toda a moeda que a gente pega.

Pegando a Maria Fumaça ponho os pés no chão

E sigo a minha viagem dividindo a bagagem

Em duas bolsas a serem levadas para pesagem.

 

O peso da bolsa de tecnologias salta aos olhos dia após dia.

O peso da bolsa da razão, da emancipação, da virtude, da harmonia...

É um peso abaixo do peso, um pesar,

Uma tristeza, uma baixeza e ainda tende a afundar.

121

Zumbis

Sonhei que eu era um computador

Que em conversas com outras máquinas

Percebi algo ameaçador:

Uma rede de computadores zumbi

Pronta pra fazer o que o computador mestre pedir.

Nela, cada escravo anda na tocada que é tocado.

Pensar, ouvir, ver, sentir, tudo cativado. 

A luz que ilumina leva os olhos à escuridão.

Nas esquinas tropeçam as viúvas da razão.

A razão, distinção do ser, fundamento, 

Afundada, pisoteada por um casco de jumento.

Amargando esse pesadelo, tento ficar livre da escuridão

Que não atinge meus olhos, mas escurece o meu coração. 

182

Rédeas curtas

Parei para correr a vista sobre uma boiada

Tocada por dois cavaleiros e mais nada,

Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,

Ou por tudo que lá está ou pelos dois.

 

Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?

O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada

Que leva a boiada para exploração?

Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração?

 

Um boi não consegue vencer os cavaleiros,

Mas pra boiada eles perderiam ligeiro.

Essa boiada não sabe a força que tem,

Se soubesse poderia se dar bem.

79

O Mapa

No mapa da minha alma

A solidariedade ocupa espaços da justiça social.

A solidariedade é uma beleza natural,

É um pássaro bonito, celebrado;

A justiça social é um patinho feio, renegado.

O pássaro bonito deve ter espaço sim.

Mas o feio é o mais bonito pra mim.

 

A solidariedade pode encher os olhos e espalhar doçura

Mas quando usada para sustentar uma estrutura,

O uso, para mim, é um abuso

Que esconde o que se procura.

Sinto-me no escuro no sol do céu azulzinho.

Eu quero mais é ver os dois passarinhos. 

Mas ver cada um em seu lugar.

Ainda ouço uma voz a indagar:

O que é que isso vai importar

Para o balanço desse lugar?

 

A estrutura sustentada pelo pássaro bonito

É como um rio intermitente, dependente do agito

Que agita o humor de São Pedro.

Isso me arrepia e me dá medo.

Nada para mim será verdadeiro

Se o pássaro bonito ocupar o mapa inteiro.

58

Receita de bolo

Um papel que rolava pelo chão

Tocou os meus pés e pôs na minha mão

Uma receita de bolo fascista

Com ingredientes a perder de vista:

Uma xícara de falta de educação crítica,

Um copo de pouca percepção política,

De pouca percepção da realidade,

Uma pitada de não busque a verdade,

Uma xícara de falta de voz que não esteja a serviço do ouro,

Uma xícara de cultivo da dissimulação para tirar o couro,

Uma xícara de excesso de manipulação,

De cinismo, de hipocrisia, de alienação;

Uma xícara de notícias falsas para encharcar a massa,

Uma xícara de racismo dissimulado na fumaça,

Uma xícara de negação do papel do negro

Na formação dessa caixa de segredos,

Uma xícara de cultivo do espírito escravocrata, 

Um espírito de porco – pirata, picareta, autocrata...

Uma pitada de desumanização do preto e do pobre,

Uma xícara de avaliação da vida baseada no cobre,

Uma xícara de jogue no lixo a ética social,

Uma xícara de vale tudo pelo bem material,

Uma xícara de desigualdade em contínua expansão,

Uma xícara de financistas com o mundo nas mãos,

Uma xícara de demonização da política,

Que põe a nave na direção paleolítica,

Uma xícara de negação das atrocidades da ditadura militar,

Uma xícara de qualquer coisa que me faça vomitar,

Uma xícara recheada de “condena com apoio da antena

Pras águas do rio sem fim fluir sem problema”,

Uma xícara de “joga os não alinhados na lama”,

Foda-se a inocência e a dignidade humana.

Uma xícara... chega!

Para que os confeiteiros possam pôr a mão na massa

Basta uma cortina de fumaça

Espalhada ao gosto dos que mandam na praça.

207

Todos os sentidos

Olhei para uma árvore,

Senti uma coisa poética.

Senti o peso de uma pedra,

Senti uma coisa poética.

Tive uma fratura exposta,

Senti uma coisa poética.

Morri de sede e afogado,

Senti uma coisa poética.

Morri verde e queimado,

Senti uma coisa poética.

Olhei pra sombra de uma nuvem

Prestes a me engolir,

Senti uma coisa poética.

Apreciei o voo de um pássaro,

Senti uma coisa poética.

Corri contra o vento,

Senti uma coisa poética.

Senti o aroma de uma flor,

Senti uma coisa poética.

Saboreei um prato,

Senti uma coisa poética.

Olhei pro céu,

Senti uma coisa poética.

Olhei pro sol,

Senti uma coisa poética.

Ouvi a lua soprar

Senti uma coisa poética.

Eu vi uma estrela se jogar,

Senti uma coisa poética.

Eu me vi num barco sem ética,

Perdi todos os sentidos.

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