Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

88

Novos velhos

O atual sistema feudalista lista o que quer,

Despista o que é e descarta o que não quer.

Ouço a mão do sistema,

Dos novos suseranos, velhos fulanos, eternos esquemas

Para sugar a massa e deixar a carcaça fora do desenho.

Suserano, senhor feudal, senhor de engenho...

Nomes que não mais comem.

Mas a fome que eles representam

Apresenta agora outras nomenclaturas,

Que significam a mesma voracidade das velhas criaturas.

Voracidade que ganha asas por meio de novos instrumentos

Para não só fazer sofrer, mas também aceitar os sofrimentos.

 

As correntes que prendem os escravos de hoje

São invisíveis.

Os escravos nem sabem que são escravos.

O acorrentado se sente preso,

Mas não sabe a quê.

Pode pensar que seja ao que não tem,

Ou a todo mundo ou a ninguém.

O acorrentado se sente preso.

A prisão é invisível,

Mas se sente o peso.

A dor é sentida.

As correntes são invisíveis.

Traficantes de escravos,

Senhores de engenho, feudais, suseranos atuais,

São todos invisíveis.

Mas a dor é sentida.

 

O açoite e o chicote também são invisíveis.

Mas a dor é sentida!

O ferro, em brasa, rompendo a pele

Para identificar o proprietário

É invisível.

Mas a dor é sentida!

O chiado e a fumaça do ferro

Que identifica o proprietário

São invisíveis.

Mas a dor é sentida!

A dor é sentida, a dor é sentida...

120

Tempo sombrio

Sonhei que eu estava em um tempo sombrio.

Som, brio, alma, visão, paladar, olfato, tato, todos os sentidos

Sendo atingidos pelo vácuo que se abriu.

Dele emergiu um espírito de porco,

Muito cínico e muito louco,

Que queria afastar de mim o pensar.

Tirando-me o pensar, em mim nada vai restar!

 

Ele é céu, o sol, o ar da minha vida,

Sem ele ela é um cisco atingido numa corrida,

Irei bater a cabeça na parede da memória,

Serei livre como um pássaro numa gaiola.

 

Se eu não puder bater asas, contemplar, perceber, 

Cantar e contar o amanhecer e o que eu ver

Sem dúvida, irei perder o que herdei

E não saberei por onde andar nem aonde andei.

 

Sem a barca do pensar

Serei arrastado pelas águas que correm para o mar.

Se suprimirem de mim essa dama,

Em mim só restará lama.

Que pesadelo pensar 

Que a barca do pensar vai afundar.

Acordei embaraçado como se tivesse levado um sacode.

Era o som do alarme repetindo: acorde, acorde...

79

O mordomo

Toda a culpa é do mordomo.

Essa ladainha me dá sono,

Mas meus olhos não estão fechados,

E veem nos horizontes um quadro mal pintado.

Está difícil dormir com esse barulho.

Nessa terra aterrada

Ninguém tem culpa de nada

Toda a culpa é do Estado e do entulho.

 

Estado, sociedade e mercado.

O jogo não era tão desequilibrado.

Agora passeiam as cartas marcadas

Jogadas para tudo e para nada.

 

Nos novos tempos, os velhos moços

Colocam o mundo no bolso

E por baixo dos panos

Arrastam tudo e causam danos.

 

Marcada à parte, a arte de regular está sendo desregulada. 

E no caminho do deus dinheiro

Não surge um camelo pra limitar a caminhada.

 

Quem vai dizer que a eco “non” mia mais alto? 

Ela corrompe, envenena e toma de assalto.

Tornando natural o que não é natural,

Ela vai promovendo na pirâmide social

Uma diferença abissal.

 

A eco não prioriza a bio. 

Dela só escapa o que ela não viu.

Ela é mecânica, robotizada,

Sem alma, sem nada

Que possa compreender a vida, 

Por isso queima tudo para se manter aquecida.

Ela não ecoa para o meu mundo.

A eco ecoa para o touro pisar fundo.

52

A indústria da seca

Na minha aldeia

A coisa está feia por falta de água,

Da água que não falta nesse chão.

Aqui a caminhada deixa o povo na mão

De quem pinta e borda, deita e rola

Em cima do povo, que assim precisa de esmola.

 

 

Esse alçapão parece de espuma de sabão,

Mas é duro como pedra

E dura tanto que me quebra.

 

Se cavar o chão a água vem pra mão,

Com a água na mão vem o pão,

Com o pão vai o problema,

Vem a solução para quem sofre.

Mas solucionar não é a melhor opção

Na visão de quem tem um cofre.

 

Até entendo que o dono de funerária fique alegre com a morte,

O mecânico com o motorista em má sorte,

O médico com o paciente...

Mas a indústria da seca é diferente.

Ela deixa o homem sem pernas

Para que a festa da casa grande seja eterna.

Ela não apenas lucra com a desgraça alheia.

Ela impede que o homem se desamarre da correia.

 

Quando o povo está a morrer de fome e de sede,

Certos socorristas formam uma rede

Que fica com o que vem da distribuição:

O cabresto, o curral, o mercado, a eleição...

 

A seca seca a esperança,

Que murcha e estrebucha

Cercada pelos que não querem mudança.

A fome que consome

Serve de instrumento

Para o lobisomem fazer o nome.

95

Empatia

Sonhei que eu era uma criança
Sendo queimada viva na Faixa de Gaza.
Eu gritava, pedia socorro...
Para recebê-lo estirava a mão,
Mas as línguas de fogo apagaram a minha respiração.
Vi meu corpo lambido
E me vi com asas para voar.
Vi a face dos disfarces.
Senti as chamas na minha alma,
Tão ardentes quanto as que lamberam o meu corpo.

As chamas antes de me queimarem,
Queimaram meus filmes.
Nos últimos minutos subiam as letrinhas.
Queimaram os créditos, os agradecimentos, as festinhas...
As chamas antes de me queimarem,
Queimaram meus aniversários,
Meus desenhos animados,
Minhas musiquinhas pra eu dormir...
Queimaram a festa de formatura da alfabetização.
Queimaram os abraços dos meus pais, dos meus avós,
Da minha irmã de três anos que corria até o portão para me abraçar quando eu chegava da escola.
Queimaram meu sorriso com uma janelinha na boca,
Que eu o apreciava nos olhos de minha mãe.
Queimaram minha cavalgada nas costas do meu pai.
Queimaram as cenas nas quais eu voava dos braços para os braços do meu pai.
Queimaram os sonhos meus e de meus coleguinhas,
Sonhávamos em ser escritor, professor, ator, cantor, jogador de futebol...
Sonhávamos com a lua, com as estrelas, com a praia em um dia de sol...
Sonhávamos...

56

Todos os Planos

Será que a gente só é o pó e nada mais?

Sei lá, só sei que as contas do Rosário são demais.

No meu passeio aqui na terra,

Quero me afastar das trevas.

Mas, anos, enganos e desenganos,

Não me deram corda pra amarrar as ideias.

Soltas, prendem meus passos, meus planos...

Sigo sem entender a odisseia,

Sem pôr as coisas em seus lugares,

Moendo e remoendo pelos mares.

 

Continuo sem pôr os pés em uma linha

E sem pressentir se minha alma caminha.

Assim, sem me achar me acho torto,

Meio oco, respirando no sufoco.

 

Mas nesse barco perdido no mar,

Eu vou é deixar pra lá

Tudo que não possa vir pra cá

E esquecer os meus planos e todos os planos

E me livrar da agitação do oceano.

47

O Brasil nos envergonha?

Outro dia alguém me disse que o Brasil nos envergonha.
Eu quis saber o que é que nos envergonha:
É a fome que nos come?
É a fome que põe trovões nas barrigas?
É a fome que faz a gente dançar:
Por falta do pão que alimenta a alma,
Por falta do açúcar e do sal no processo eleitoral?
É a fome que faz a gente dançar
No carnaval dos que colhem sem plantar?


É a fome que faz a gente dançar:
Diante da TV, dos jornais e das novas mídias?
É a fome que faz a gente dançar:
Nos recursos naturais,
Nos juros colossais
De uma dívida que a gente não fez?
É a fome que faz a gente morrer de medo
Do desemprego, do  mar carcerário, do trânsito sanguinário?
O que é que nos envergonha?


Quase caí de costas quando ouvi a resposta:
– Nossa postura diante do mundo.
Não condenamos o invasor na Ucrânia
E não apoiamos Israel.
É vergonhoso o nosso papel.
Não estamos indo em um bom destino,
Defendemos até a criação de um Estado Palestino.


Eu quis saber se ele sempre condenou o invasor,
Ele titubeou, lembrou-se do que não queria lembrar
E pediu licença para ir ao banheiro.
Eu fiquei com os meus botões:
Será que uma vida na Palestina
Não tem o mesmo valor que uma vida na Ucrânia?
Uma criança, uma mulher, um inocente palestino
Não têm o mesmo valor, não estão no mesmo plano
Que uma criança, uma mulher, um inocente ucraniano?
Não surfar nessa onda de dois pesos e duas medidas 
É um ato vergonhoso ou vergonhoso é o mistério
Que passeia nessa falta de critério? 

49

As armas não servem a mim

As armas empurram essa terra verde-amarela

Pra aquarela do calmante,

Para a novela da saúde alucinante.

As armas estão nas mãos

Dos que sequer aqui estão.

Cristãos não são não,

São demais pra servir Cristo,

Servem-se com voracidade

E devoram com capricho.

As armas estão nas mãos

De quem define a direção,

Nunca estiveram com a população.

 

Os que mandam nessa praça

Rasgam terra, água e céu

Escondendo seu papel

Numa cortina de fumaça.

 

Essa terra pra essa gente que nos ferra

É uma mãe de leite nas mãos do deus da guerra.

Sem se vestir, sai a minha alma por aí

Se achando meio perdida;

Com o baixo preço da vida.

 

Aqui decai o arranjo social.

Do cais despenca a alma animal.

Aqui é de quem dita a dança

E bota fogo na balança.

Sendo assim, a massa segue

Sem ter onde se pegue,

A andar com um pé atrás e ofegante,

Enquanto esse barco segue, segue

Como castelo dos senhores flutuantes.

54

As máscaras

As máscaras colaram nas faces,

Não ficaram apenas como disfarces.

As máscaras nos amarraram.

Usamos e abusamos. Elas nos capturaram.

Elas tendem a nos deixar com a cara lavada,

Sem coração, sem alma, olhando pro nada.

Nessa maré, o ser no parecer não aparece. 

A ilusão bate asas, voa alto e incandesce.

 

A fotografia,

Que não retrata o que o fotógrafo percebia,

Abre espaços para a assombração, para o açoite 

E para a serpente, que engoli o dia e rasga à noite.

 

Meus sentidos sentem-se mal nessa festa insípida

Feita por quem se aproveita dessa sociedade líquida,

Que assim como a água se ajeita onde é jogada,

Sem forma, conduzida pela gravidade e pelo vento.

Nesse estabelecimento

A alma é aviltada.

Certos moços topam tudo pelo lucro.

Nesse ar, o ser é só um fruto.

Esse ar corrói as sementes,

Faz surgir safras doentes.

 

De bom não vai surgir nada

De sementes envenenadas.

Em cima de uma árvore apodrecida,

Não se pode construir uma casinha cheia de vida.

Construir é difícil, demorado.

Destruir é fácil, num piscar está acabado.

 

Nesse ar envenenado pelos que colhem o que não plantam

A flor murcha, os pássaros não cantam.

O sol, a lua, as estrelas não brilham.

O ar está pesado.

O mar, o rio, o riacho, nada está pra nado.

O vento

Não balança as árvores oferecendo som e movimento.

Atacam a alma, petrificam o coração

E a natureza derrama lágrimas diante da destruição.

57

O "show" Com o Show da Madonna

Recursos para socorrer o povo no Rio Grande do Sul
Foram gastos no show da Madonna,
Disse-me Maria do Perpétuo Socorro,
Indignada.
E de nada adiantou a minha esposa explicar
Que recursos reservados para emergências
Não são usados no incentivo à cultura
E no evento citado nem sequer foram usados recursos federais.

Pensei em falar,
Mas os olhos de Socorro refletiam certa cegueira.
Pensei em lavagem cerebral.
Pensei em computadores zumbi,
Que fazem o que o computador mestre pedir.
Pensei em falar sem desagradar à interlocutora.
Mas não abri a boca
E fui conversar com os meus botões.

A mentira nunca teve as pernas curtas,
Mas ultimamente, infelizmente,
Essas pernas não param de crescer.
Um ato que defenda os direitos humanos, o meio ambiente, a democracia...
Não será enfrentado com atos que defendam interesses contrários.
Os antidemocratas, os violadores dos direitos humanos, do meio ambiente, dos direitos sociais...
Não vão desenhar em suas bandeiras seus verdadeiros interesses.

Vão pôr as pernas que não param de crescer
Nas asas dos logaritmos.
E vão ser a imaginação de quem vê
Pelos olhos que mostram pra esconder.
A mentira bem penteada, bem vestida,
Desfila cheia de vida.
E além de apresentar falsos Picassos como autênticos
Ela ainda classifica os autênticos como falsos.

A mentira bem penteada, bem vestida,
Desfila cheia de vida,
Embriaga, hipnotiza, ganha corações,
Move montanhas e arrasta multidões.

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