Lista de Poemas
Muamba
Às vezes me sinto na idade das trevas
E não é nenhuma máquina do tempo que me leva.
É a vida de hoje que me mata,
Que me arrebata,
Apertando meu pescoço com uma gravata.
É vasta a vara dos que preferem lama a flores!
Entre eles os vendedores
De indulgências, dedinhos de Pedro...
Perdão, perdão, não é indulgência nem dedo.
A nomenclatura da muamba hoje é outra:
É milagre. É a mesma bruxa com outra roupa.
Milagre para perdoar os pecados.
Milagre para prosperar e ser amado.
Milagre para ter um lugar no céu.
Milagre para a cura com a semente sem papel.
Milagre, milagre, milagre...
Me largue morcego desgraçado, me largue!
Servir
Quando completei dezoito anos
Fui obrigado a servir,
Não sei a quem.
Fui obrigado a curvar-me,
Não sei pra quê.
Fui obrigado a ter fé,
Não sei em quê.
Fui obrigado a amar,
Não sei a quê.
Fui obrigado a tocar
Pra não sentir.
Fui obrigado a aprender,
Não sei o quê.
Fui obrigado a gritar
Para não pensar.
Fui obrigado a enxergar
Para ser cego.
Flora
Na árvore que eu estou,
O valor dos frutos depende do galho em que ele brotou.
Os frutos dos galhos que estão
Beijando o chão, não valem um tostão.
Já os frutos dos galhos de cima
Têm o devido valor em todos os climas.
Os frutos de baixo, os animais podem mordê-los,
Podem apedrejar, espetar, apertá-los em novelos.
Quem se importa com o esmagamento dos frutos de baixo?
Azar deles que nasceram em desprotegido cacho.
Quem se importa se eles morrerem por falta de irrigação
Ou por pedradas disparadas pela tradição?
– Mas se alguém ferir um fruto que está num galho elevado?
– Isso será veementemente condenado.
Não se aceita que alguém ponha a mão
Nos frutos que estão em galhos distantes do chão.
Atacar, ferir, apedrejar, jogar no riacho...
Só nos frutos dos galhos de baixo.
– Mas são frutos da mesma árvore!
– Quem quer saber desse mármore.
O que importa é a posição
Que o galho se encontra.
O resto não se leva em conta,
Não passa de disfarce do alçapão.
Os frutos de baixo verdes ou maduros
Podem ser espetados, nem precisa ser no escuro.
O tempo todo frutas verdes são espetadas,
O leite desce manchando a morada.
Mas quem se importa?
Tapa-se o nariz. Fecham-se as portas.
Isso em um fruto de um galho de cima
Mudaria o clima:
O tempo nublava,
O trovão estrondava,
O vento agitava,
O dia anoitecia sem palavra.
– Mas os frutos vêm da mesma árvore, do mesmo tronco, da mesma terra!
– Quem quer saber, cabeça de cabo de guerra!
Convenção é convenção,
E não tem conversa não.
Toda a sociedade verde deu sinal,
Implicitamente, assinou o contrato social
Determinando que só têm importância os frutos dos galhos de cima.
– Os galhos de baixo também fazem parte dessa sociedade sem ímã!
– Quem quer saber, Zabelê! Você não viu,
Mas o transporte que você procura já partiu.
Delmiro Gouveia
Delmiro Gouveia,
Naquelas veias havia vias
Aptas à passagem de bons ventos,
Bons ventos para varrer obstáculos
E trazer ao palco outros espetáculos
Para ser vivido um novo momento.
Delmiro Gouveia
Podia semear novas sementes em minha aldeia.
Via na frente,
Vinha trazer um presente
Para o presente que vivia no passado,
Mas acabou sendo acabado.
Delmiro Gouveia
Desagradou a um alossauro de uma poderosa aldeia.
Alossauro que acionou as forças do vento
Para acabar com qualquer advento.
Gouveia não deu bola pra cara feia,
Mas não sabia do que o bicho era capaz.
Gouveia desapareceu de minha aldeia
E o advento aqui não sopra mais.
Consumo, logo existo
Existo por que consumo
Ou consumo por que existo?
Jesus Cristo!
O consumismo me consumiu.
Sou um alimento
Preso ao movimento.
A massa cinzenta virou concreto.
Tudo está num chip.
Sou uma coisa chique,
Dirigida por decreto.
Uma coisa enlatada,
Apta a ser um nó na rede radiada.
Agora eu sou um minério,
Um instrumento do império.
Seu Guerra
Seu Guerra é um fazendeiro que se diz de paz, apesar do nome.
De paz, mas mata os trabalhadores de fome.
Seu Guerra diz que ama a sua terra,
Mas as suas serras derrubam sonhos, esperanças,
Árvores e desejos de mudanças.
Nas terras de seu Guerra não se cultiva flores.
A terra de seu Guerra é para os pés de senhores
Que se banham de perfumes para mascarar odores.
Ela é o corpo de um escravo cravado pelo lucro
Que não cava o chão, mas pega os frutos.
A terra de seu Guerra é a serra, é o corpo e é o ouro
Que da massa tira o couro.
A terra de seu Guerra
É uma guerra embutida na paz,
É um faz de conta que faz,
É uma conta que não conta nada mais
Além do que interessa ao contador,
É um rio que sufoca o nadador,
É a frente que fica para trás pisoteada pelos animais
Que não precisam nadar
Porque nada falta aonde o bando chegar.
Nas terras de seu Guerra há vidas e vidas.
Os que moram fora da avenida,
Nem sequer são peixes menores, são nelores
A serem tangidos conforme o querer
De quem dita como e onde o vivente vai viver.
Nas terras de seu Guerra o bezerro berra e a mãe não vê.
O cacique
A minha aldeia não é a minha aldeia.
Levada pela maré da lua cheia, ela me odeia.
Na minha aldeia a teia está se quebrando.
As partes estão voando.
Os fios não estão aguentando
A convulsão que o tornado vai causando.
A minha aldeia está de cara feia.
E eu não vejo luz nem de uma candeia.
A frágil alma da aldeia se derrete igual sorvete
E o cacique não tem cacife pra cacique – cacete!
O caro pajé, vendo o que quer,
Vende caro o combo da fé.
Fiéis ao papel, os figurantes
Não figuram em nenhuma figura.
Que loucura, a essa altura,
Os flagras ainda não são flagrantes.
Abrindo Brechas
Há uma terra,
Onde quem defende o ouro nunca erra.
Já os que defendem o sangue
Por pouco são chamados de gangue.
Diz uma voz em mim,
Que não é bem assim.
A ideia de dois pesos e duas medidas
Não cabe nem num copo de bebidas.
Nos que defendem o ouro não há uma coisa feia
Que não esteja nos que defendem o que passa pelas veias.
Tanto um como o outro
Dão guarida para o porco.
Eu sei que os rastros do porco podem estar nos dois lados,
Mas mesmo parecendo misturado
Posso distinguir, pois ambos são inclinados
E dos ângulos não resultam os mesmos resultados.
A ideia de farinha do mesmo saco
Serve aos que deixam o povo no buraco
E põem o ouro no casaco,
Como fazem os donos de uma colmeia.
A abelha morre de trabalhar,
Mas não pode saborear
E a ela resta se arrastar feito uma centopeia.
O fato de não haver ninguém santo, nem perfeito,
Não valida o julgamento com defeito.
Não desejo lançar na fogueira
Os que tentam esconder o sol com uma peneira.
Mas eu sei que o jogo sujo
Abre brechas para os ratos, as baratas, os escorpiões, os caramujos;
Para os ovos da serpente,
Para os olhos dos abutres...
O jogo sujo
Abre brechas para um mar de absurdos.
A velha arte
A mentira sempre foi uma arte
Para alguns que tocam o intocável.
Tocam... fazem a festa os artistas.
Nessa pista, dança quem lá não está.
Esses artistas tocam o intocável.
A mentira nunca teve as pernas curtas
E desfruta de crescentes esconderijos.
A mentira sempre foi mais rápida que a verdade,
Sempre foi mais engraçada,
Mais solta, mais carismática, mais animada, mais viajada…
Os ventos, que sopram as birutas e indicam a direção,
A ela sempre estenderam as mãos.
Sempre a embarcaram em charretes, trens,
Ônibus, carros, navios…
E a ela deram asas para voar.
A mentira sempre desfilou nas vias de comunicação.
Os veículos levam a mentira
Sempre bem vestida, sorridente, bem penteada
Ou bem séria, inspirando e expirando verdades,
Transpirando verdades por todos os poros.
A mentira sempre foi indispensável no tráfego
Das principais vias.
Hoje com a informação na velocidade da luz,
Os grandes dessa arte espalham a palavra com o sinal da cruz.
É a festa das notícias falsas
Ou das falsas notícias
E com os valores nas mãos do valor que vale,
O seu fulano leva a razão para o baile.
É a festa das notícias falsas.
Falso e fato estão na briga.
Os fatos estão fora da barriga.
As vísceras estão expostas.
O ar está cheirando a bosta.
Novos velhos
O atual sistema feudalista lista o que quer,
Despista o que é e descarta o que não quer.
Ouço a mão do sistema,
Dos novos suseranos, velhos fulanos, eternos esquemas
Para sugar a massa e deixar a carcaça fora do desenho.
Suserano, senhor feudal, senhor de engenho...
Nomes que não mais comem.
Mas a fome que eles representam
Apresenta agora outras nomenclaturas,
Que significam a mesma voracidade das velhas criaturas.
Voracidade que ganha asas por meio de novos instrumentos
Para não só fazer sofrer, mas também aceitar os sofrimentos.
As correntes que prendem os escravos de hoje
São invisíveis.
Os escravos nem sabem que são escravos.
O acorrentado se sente preso,
Mas não sabe a quê.
Pode pensar que seja ao que não tem,
Ou a todo mundo ou a ninguém.
O acorrentado se sente preso.
A prisão é invisível,
Mas se sente o peso.
A dor é sentida.
As correntes são invisíveis.
Traficantes de escravos,
Senhores de engenho, feudais, suseranos atuais,
São todos invisíveis.
Mas a dor é sentida.
O açoite e o chicote também são invisíveis.
Mas a dor é sentida!
O ferro, em brasa, rompendo a pele
Para identificar o proprietário
É invisível.
Mas a dor é sentida!
O chiado e a fumaça do ferro
Que identifica o proprietário
São invisíveis.
Mas a dor é sentida!
A dor é sentida, a dor é sentida...
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