Magno Ferreira

Magno Ferreira

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

88

Muamba

Às vezes me sinto na idade das trevas

E não é nenhuma máquina do tempo que me leva.

É a vida de hoje que me mata,

Que me arrebata,

Apertando meu pescoço com uma gravata.

 

É vasta a vara dos que preferem lama a flores!

Entre eles os vendedores

De indulgências, dedinhos de Pedro...

Perdão, perdão, não é indulgência nem dedo.

A nomenclatura da muamba hoje é outra:

É milagre. É a mesma bruxa com outra roupa.

 

Milagre para perdoar os pecados.

Milagre para prosperar e ser amado.

Milagre para ter um lugar no céu.

Milagre para a cura com a semente sem papel.

Milagre, milagre, milagre...

Me largue morcego desgraçado, me largue!

 

124

Flora

Na árvore que eu estou,

O valor dos frutos depende do galho em que ele brotou.

Os frutos dos galhos que estão

Beijando o chão, não valem um tostão.

Já os frutos dos galhos de cima

Têm o devido valor em todos os climas. 

Os frutos de baixo, os animais podem mordê-los,

Podem apedrejar, espetar, apertá-los em novelos. 

 

Quem se importa com o esmagamento dos frutos de baixo?

Azar deles que nasceram em desprotegido cacho.

Quem se importa se eles morrerem por falta de irrigação

Ou por pedradas disparadas pela tradição?

– Mas se alguém ferir um fruto que está num galho elevado?

– Isso será veementemente condenado. 

Não se aceita que alguém ponha a mão 

Nos frutos que estão em galhos distantes do chão.

 

Atacar, ferir, apedrejar, jogar no riacho...

Só nos frutos dos galhos de baixo.

– Mas são frutos da mesma árvore!

– Quem quer saber desse mármore.

O que importa é a posição

Que o galho se encontra.

O resto não se leva em conta,

Não passa de disfarce do alçapão.

 

Os frutos de baixo verdes ou maduros

Podem ser espetados, nem precisa ser no escuro.

O tempo todo frutas verdes são espetadas,

O leite desce manchando a morada.

Mas quem se importa?

Tapa-se o nariz. Fecham-se as portas.

 

Isso em um fruto de um galho de cima

Mudaria o clima: 

O tempo nublava,

O trovão estrondava,

O vento agitava,

O dia anoitecia sem palavra.

– Mas os frutos vêm da mesma árvore, do mesmo tronco, da mesma terra!

– Quem quer saber, cabeça de cabo de guerra!

 

Convenção é convenção,

E não tem conversa não.

Toda a sociedade verde deu sinal,

Implicitamente, assinou o contrato social

Determinando que só têm importância os frutos dos galhos de cima.

– Os galhos de baixo também fazem parte dessa sociedade sem ímã!

– Quem quer saber, Zabelê! Você não viu,

Mas o transporte que você procura já partiu.

200

Servir

Quando completei dezoito anos

Fui obrigado a servir,

Não sei a quem.

Fui obrigado a curvar-me,

Não sei pra quê.

Fui obrigado a ter fé,

Não sei em quê.

Fui obrigado a amar,

Não sei a quê.

Fui obrigado a tocar

Pra não sentir.

Fui obrigado a aprender,

Não sei o quê.

Fui obrigado a gritar

Para não pensar.

Fui obrigado a enxergar

Para ser cego.

 

161

Consumo, logo existo

Existo por que consumo

Ou consumo por que existo?

Jesus Cristo!

O consumismo me consumiu.

Sou um alimento

Preso ao movimento.

A massa cinzenta virou concreto.

Tudo está num chip.

Sou uma coisa chique,

Dirigida por decreto.

Uma coisa enlatada,

Apta a ser um nó na rede radiada.

Agora eu sou um minério,

Um instrumento do império.

96

Delmiro Gouveia

Delmiro Gouveia,

Naquelas veias havia vias

Aptas à passagem de bons ventos,

Bons ventos para varrer obstáculos

E trazer ao palco outros espetáculos

Para ser vivido um novo momento.

 

Delmiro Gouveia

Podia semear novas sementes em minha aldeia.

Via na frente,

Vinha trazer um presente

Para o presente que vivia no passado,

Mas acabou sendo acabado.

 

Delmiro Gouveia

Desagradou a um alossauro de uma poderosa aldeia.

Alossauro que acionou as forças do vento

Para acabar com qualquer advento.

Gouveia não deu bola pra cara feia,

Mas não sabia do que o bicho era capaz.

Gouveia desapareceu de minha aldeia

E o advento aqui não sopra mais.

84

O cacique

A minha aldeia não é a minha aldeia.

Levada pela maré da lua cheia, ela me odeia.

Na minha aldeia a teia está se quebrando.

As partes estão voando.

Os fios não estão aguentando

A convulsão que o tornado vai causando.

 

A minha aldeia está de cara feia.

E eu não vejo luz nem de uma candeia.

A frágil alma da aldeia se derrete igual sorvete

E o cacique não tem cacife pra cacique – cacete!

O caro pajé, vendo o que quer,

Vende caro o combo da fé.

 

Fiéis ao papel, os figurantes

Não figuram em nenhuma figura.

Que loucura, a essa altura,

Os flagras ainda não são flagrantes.

113

Seu Guerra

Seu Guerra é um fazendeiro que se diz de paz, apesar do nome.

De paz, mas mata os trabalhadores de fome.

Seu Guerra diz que ama a sua terra,

Mas as suas serras derrubam sonhos, esperanças, 

Árvores e desejos de mudanças.

 

Nas terras de seu Guerra não se cultiva flores.

A terra de seu Guerra é para os pés de senhores

Que se banham de perfumes para mascarar odores.

Ela é o corpo de um escravo cravado pelo lucro

Que não cava o chão, mas pega os frutos.

A terra de seu Guerra é a serra, é o corpo e é o ouro

Que da massa tira o couro.

 

A terra de seu Guerra

É uma guerra embutida na paz,

É um faz de conta que faz,

É uma conta que não conta nada mais

Além do que interessa ao contador,

É um rio que sufoca o nadador,

É a frente que fica para trás pisoteada pelos animais

Que não precisam nadar

Porque nada falta aonde o bando chegar.

 

Nas terras de seu Guerra há vidas e vidas.

Os que moram fora da avenida, 

Nem sequer são peixes menores, são nelores

A serem tangidos conforme o querer

De quem dita como e onde o vivente vai viver.

Nas terras de seu Guerra o bezerro berra e a mãe não vê.

113

A velha arte

A mentira sempre foi uma arte

Para alguns que tocam o intocável.

Tocam... fazem a festa os artistas.

Nessa pista, dança quem lá não está.

Esses artistas tocam o intocável. 

A mentira nunca teve as pernas curtas

E desfruta de crescentes esconderijos.

A mentira sempre foi mais rápida que a verdade,

Sempre foi mais engraçada, 

Mais solta, mais carismática, mais animada, mais viajada…

Os ventos, que sopram as birutas e indicam a direção,

A ela sempre estenderam as mãos. 

Sempre a embarcaram em charretes, trens,

Ônibus, carros, navios…

E a ela deram asas para voar.

A mentira sempre desfilou nas vias de comunicação.

Os veículos levam a mentira

Sempre bem vestida, sorridente, bem penteada

Ou bem séria, inspirando e expirando verdades,

Transpirando verdades por todos os poros.

A mentira sempre foi indispensável no tráfego 

Das principais vias.

Hoje com a informação na velocidade da luz,

Os grandes dessa arte espalham a palavra com o sinal da cruz.

É a festa das notícias falsas 

Ou das falsas notícias

E com os valores nas mãos do valor que vale,

O seu fulano leva a razão para o baile. 

É a festa das notícias falsas.

Falso e fato estão na briga.

Os fatos estão fora da barriga.

As vísceras estão expostas.

O ar está cheirando a bosta. 

92

Abrindo Brechas

Há uma terra,

Onde quem defende o ouro nunca erra.

Já os que defendem o sangue

Por pouco são chamados de gangue.

 

Diz uma voz em mim,

Que não é bem assim.

A ideia de dois pesos e duas medidas

Não cabe nem num copo de bebidas.

Nos que defendem o ouro não há uma coisa feia

Que não esteja nos que defendem o que passa pelas veias.

Tanto um como o outro

Dão guarida para o porco.

 

Eu sei que os rastros do porco podem estar nos dois lados,

Mas mesmo parecendo misturado

Posso distinguir, pois ambos são inclinados

E dos ângulos não resultam os mesmos resultados.

 

A ideia de farinha do mesmo saco

Serve aos que deixam o povo no buraco

E põem o ouro no casaco,

Como fazem os donos de uma colmeia.

A abelha morre de trabalhar,

Mas não pode saborear

E a ela resta se arrastar feito uma centopeia.

 

O fato de não haver ninguém santo, nem perfeito,

Não valida o julgamento com defeito.

Não desejo lançar na fogueira

Os que tentam esconder o sol com uma peneira.

Mas eu sei que o jogo sujo

Abre brechas para os ratos, as baratas, os escorpiões, os caramujos;

Para os ovos da serpente,

Para os olhos dos abutres...

O jogo sujo

Abre brechas para um mar de absurdos.

109

Morcego

Vejo o capitalismo como o efeito estufa,

Tem que ser com ele, mas o excesso nos desfaz.

Não dá pra suportar os morcegos neoliberais.

Nem dá pra engolir a conversa do javali,

Que trata o povo como o vendedor de caldo trata a cana.

O povo é apenas uma escada pra subida do bacana.

 

A distância entre o bacana e o bagaço de cana não para de aumentar.

E certos moços têm coragem de falar que sugar é sustentar.

Tapam o sol com uma peneira, falam sério de brincadeira,

Deixam a massa amassada, sugada, jogada na esteira.

Se as coisas vão de vento em popa,

Eles vão enchendo a boca.

Quando a escassez aperta o cerco

 Apertam ainda mais os que vivem no aperto.

 

Olhando os horizontes, vejo o hoje pior que o ontem.

Sinto os ventos me puxando para trás,

Soprados pelos toques da viola dos neoliberais,

Que toca no ritmo que quiser.

Faz a festa e bate o pé

E por mais que toque errado

Jamais o pinho é culpado. 

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