Lista de Poemas

Onde a floresta vai parar?

Eu não sei onde vai parar a floresta.

Só diminui o que resta para quem não está na festa.

Fada, duende deem um jeito, surpreendam!

Desejo inútil, os pedaços não se emendam.

Não vai surgir nenhuma surpresa.

A trempe, sempre, preserva o perverso processo predador e presa.

Trava tudo dentro de mim.

Esse excesso é um meio para um fim.

 

O excesso dá as cartas e descarta o progresso

Para quem não tem ingresso.

Nessa partida, sem partida e sem chegada,

O P de povo é uma figura apagada.

 

Nesse jogo não se muda nada.

Simula-se tudo, dissimula-se a gula.

Engula calado quem não nasceu num certo lado.

Decerto para o certo se manter certo

É preciso que o sofrimento seja ampliado.

Desgraçados!

Como podem cultivar uma planta que não tem raiz?

 

A vida ida não acha a vida e segue a bula. 

Na bula não bula.

Siga as instruções.

Não há como fazer outras construções.

Para o monte hoje é ontem

E o tempo não pode passar.

Engasguei-me só de pensar.

 

Um grito diz: ando na ponta dos cascos,

Mas para mim só resta a casca. 

Descasca na calçada um feijão verde

Uma senhora madura que não serve mais

Para cozinhar, lavar, engomar, faxinar, limpar...

Como respirar tranquilo nessa selva pelada,

Sem uva, sem Eva, Adão, retidão, nós...

Onde a senhora, o moço, seus pais, seus avós, 

Sem vez, sem voz, são obrigados por nada.

Nada, nada o pescador na dor que sente

E na que pressente que vai chegar. 

Onde a floresta vai parar?

35

O mar na piscina

Mar sem chão, em vão, sem pão...

Piscina com o mar na mão,

Piscina come o chão,

Piscina com alma do mar na mão,

Piscina com tudo na mão,

Piscina não ensina a mar não.

48

O "show" Com o Show da Madonna

Recursos para socorrer o povo no Rio Grande do Sul
Foram gastos no show da Madonna,
Disse-me Maria do Perpétuo Socorro,
Indignada.
E de nada adiantou a minha esposa explicar
Que recursos reservados para emergências
Não são usados no incentivo à cultura
E no evento citado nem sequer foram usados recursos federais.

Pensei em falar,
Mas os olhos de Socorro refletiam certa cegueira.
Pensei em lavagem cerebral.
Pensei em computadores zumbi,
Que fazem o que o computador mestre pedir.
Pensei em falar sem desagradar à interlocutora.
Mas não abri a boca
E fui conversar com os meus botões.

A mentira nunca teve as pernas curtas,
Mas ultimamente, infelizmente,
Essas pernas não param de crescer.
Um ato que defenda os direitos humanos, o meio ambiente, a democracia...
Não será enfrentado com atos que defendam interesses contrários.
Os antidemocratas, os violadores dos direitos humanos, do meio ambiente, dos direitos sociais...
Não vão desenhar em suas bandeiras seus verdadeiros interesses.

Vão pôr as pernas que não param de crescer
Nas asas dos logaritmos.
E vão ser a imaginação de quem vê
Pelos olhos que mostram pra esconder.
A mentira bem penteada, bem vestida,
Desfila cheia de vida.
E além de apresentar falsos Picassos como autênticos
Ela ainda classifica os autênticos como falsos.

A mentira bem penteada, bem vestida,
Desfila cheia de vida,
Embriaga, hipnotiza, ganha corações,
Move montanhas e arrasta multidões.

34

A Causa Não Vem ao Caso

A palavra causa foi riscada

Do dicionário da minha jangada.

Na minha embarcação,

Essa palavra não embarca não.

Se eu tiver de conviver com ela, 

Vão querer saber o porquê das mazelas.

 

Tira-me o sono e me consome

A ideia de falar das causas da fome.

Para não correr esse risco,

Risco o causa, ponho um asterisco

Para poder indicar

Por onde podemos navegar.

 

Mergulhar na causa é como usar uma lupa,

Isso pode rasgar o papel da biruta.

Tudo deve seguir a direção do vento.

Quem não seguir a biruta há de ter contratempo,

Há de nadar contra a maré

E nunca chegar aonde quer.

No meu barco tudo deve andar

Por onde sempre andou.

Nada de navegar

Por onde a biruta não apontou.

 

As causas precisam estar fora de pauta.

Se ninguém vê-las, ninguém sente falta.

Vou navegar sem pausa

Pra ninguém navegar pelas causas:

Das vidas apagadas, do passeio das finanças, 

Da fome, das doenças, da falta de balança, 

Do mar carcerário, do racismo dissimulado

E de todas as mazelas desse mar mal apurado.

34

Sentidos

Agente sente que o fogo é quente

Quando ele está perto da gente.

 

39

Fantasma

Passeando em minha aldeia

A minha alma se aperreia,

Ao ver quem mais semeia

Queimar na fogueira santa

Sem direito ao que planta,

Ficar com o que sobrou, 

De um fantasma opressor,

Que esvazia a moradia.

Mas as abelhas me disseram que um dia

A gente entende que o fantasma apronta

E quem não deve é quem paga a conta.

33

O Que Impera no Convento

O que não anda

No destino definido pela máquina que comanda?

No jogo de cartas marcadas,

A voz do povo é programada para não dizer nada.

 

A maquinação é o meio para o passeio do tubarão.

É sem paralelo esse verde-amarelo ser uma casa sem botão.

Pensam nesse habitat como um lugar a ser explorado,

Não como uma nação em um bom estado.

 

Comendo o pão que o diabo amassou,

O povo fica com o que sobrou.

Mocinhos de dentro se juntam aos de fora,

Fazem a festa e vão embora,

E o seu José sobrevive esperando a hora.

A dignidade humana está em chamas,

Os caminhos estão sem luz e cheios de lama.

 

Alguns comemoram a era da informação,

Dizem que estamos tendo uma emancipação.

Mas as minhas retinas não captam isso não.

Eu vejo é muita isca nesta embarcação.

 

Aqui coerência é uma roupa rasgada levada pelo vento.

Conveniência é a moeda que impera no convento.

A luz que ilumina não é a luz do dia.

Iluminação que deixa o barco da emancipação sem poesia.

 

Aqui o ser come nas mãos do ter.

Por quê?

Quem quer saber?

Saber por aqui,

Só sobre o que a máquina definir:

Efeitos do dólar, juros da dívida, risco Brasil... 

Puta que pariu!

Estamos sendo consumidos

Como tudo que é vendido.

48

A visita

Sonhei que um ET veio visitar a minha aldeia

Pra tentar compreender os laços da cadeia.

Mas não conseguiu compreender o que tocava.

Decepcionado, desse modo ele falava:

Eu sou um ET,

Eu sou um ET,

Eu sou um ET,

Aqui nessa aldeia eu não sei o que fazer,

Não quero saber dessa aldeia que só vê

O que se mostra nas janelas do poder.

 

Eu queria seguir nesse trem,

Mas não consigo me ver bem,

Em uma aldeia onde quem tem

Tira de quem não tem.

Em meio a tanto grito não contenho a aflição.

Não consigo respirar nesse mar de manipulação,

Que é uma árvore cujo fruto causa dor.

Por que ela é tão usada? Quem é o causador?

Sou uma criança na calçada da estrada que sobrou.

Quanta dor! Quantos espinhos em cada flor!

 

Nessa aldeia o futuro

É uma viagem no escuro.

O presente é indecente.

E o passado é embrulhado.

O modo não indica nada.

O tempo é perdido, sem estrada.

O porquê foi esquecido.

O pensar foi ardilosamente destruído.

Quem é que tem tempo de ver,

Ouvir e sentir com os próprios sentidos?

 

Aqui a paz está perdendo pra guerra.

O ar está mais pesado que a terra.

No que eu posso acreditar nessa aldeia mentiras?

“Me tiras” pra nadar num mar verdadeiro

Onde o valor não se resuma ao dinheiro.

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