Lista de Poemas
Encomenda
Onde eu pinto o meu e digo que é o seu retrato
Dois mais dois não é igual a quatro.
As operações dessa matemática
Desdobram-se numa sacola elástica.
Tudo cabe na sacola que enrola.
Tudo cola na vida que vigora
No barzinho da dona Aurora.
Os valores vivem de esmola.
Deita e rola o menino dono da bola,
Joga falso e fato num balaio
E a distinção depende de um ensaio.
O fato está fora da barriga.
O falso está em tudo, está na briga.
O fato virou comida.
A ração expulsa a razão da avenida.
A vergonha está em seu fim de vida
No barzinho da dona Aurora.
O fato está à venda.
Na prateleira, o fato atende à encomenda.
A barriga está rasgada, as vísceras estão expostas.
O ar está cheirando mal no barzinho da dona Aurora.
Laissez-faire
A minha aldeia sempre teve dono.
Mas hoje está de tirar o sono.
Deixe fazer, deixe fazer, deixe fazer…
Fizeram pedra virar urina.
Vendem veneno por vitamina.
O fim é metamorfoseado em um meio.
Fizeram uma mãe que não tem seio.
Estão dirigindo um carro sem freio
Passando por cima de quem não está no passeio.
Fazem para desfazer o que não possa valer
Para a mão que ninguém vê,
Que libera suas feras para saciarem o insaciável.
Inacreditável: tudo está tangenciável,
Não param de alienar o inalienável
E qualquer luz é vista como inflamável.
Os cardeais com o diabo nas mãos seguram as rédeas,
O que há para contê-los é uma comédia:
Não segura, não controla, não regula.
Os cardeais pulam e manipulam toda a bula.
Os cardeais estão na direção da idade média.
Não é comédia, é uma tragédia.
Nessa festa os filhotes são piores que os pais.
Hoje é pior que ontem, devoram cada vez mais.
A chave da condução está nas mãos de cardeais
Que atropelam a quem não os servem e transportam os seus chacais.
Cada vez mais as almas mais tortas
Tomam conta das chaves das maiores portas.
Vale do ouro
Vale o valor que vale na arapuca armada.
No vale tudo, que não vale nada,
Vale tudo a favor da peça encenada.
O vale tudo deixa a água enlameada.
Na arapuca armada tudo é quase nada se não valer o valor que vale.
As águas arrastam muita coisa para o vale.
O vale leva tudo para um fosso infecto.
O valor deixa desvalido o intelecto.
O valor vai invalidando todos os valores.
O valor define o toque, o trote e os sabores.
O valor dá as cartas e descarta qualquer valor
Que não seja o corrente que acorrenta e causa dor.
O valor afaga e afoga, não entrega e cobra
A quem não deve e serve a quem manobra.
O valor leva lava para queimar os valores.
Na terra arrasada o valor passeia em tratores.
No vale do ouro os valores são um jardim,
Sem flores, sem árvores e entregue aos cupins.
Limites
“É preciso haver limites pra criança”.
– Sempre ouvi isso com a esperança
De que também haja limites para outras criaturas,
Porque sem eles alvorece a loucura
E o tempo para em uma noite escura
E deixa as almas à mercê da ditadura
Que dita uma construção sem fundação
E um caminho livre que leva à prisão.
A falta de limites limita a visão
E ao invés de lavar, leva almas para contramão.
Contra os sentidos ou andando para trás,
Os cavaleiros tiram de quem não tem para dar a quem tem mais.
Que vergonha que me dá
Em ver a cerca do Ademar
Caminhar daqui pra lá
Engolindo as terras do Gilmar.
Sem limites, as cercas não param de andar
E a virtude não para de se afundar.
As cercas engolem terras, almas, vidas,
Enchem de veneno as comidas,
Deixam corpos e almas adoecidos
E o barco que nos trouxe até aqui é esquecido.
As cercas transformam sujeito em objeto
E ditam os traços do projeto.
As cercas estão enfraquecendo a iluminação.
As cercas estão festejando a escuridão.
As cercas estão sem limite
E em um rumo de verdade arremessam dinamites.
Alta nobreza
É inadmissível que haja boa escola
Pra filhos de preto e pobre.
Já pensou se esse povo sobe
E deixa de aceitar a degola.
Dar escola boa pra essa gente
É como dar asas para serpente.
Se criarem asas vão sair dos trilhos
Vão querer o lugar dos nossos filhos
Nas faculdades de medicina, direito, engenharia,
Só em pensar já morro de agonia.
O lugar deles é: construindo nossas casas,
Lavando o nosso chão e sendo escadas,
Tapetes pra gente pisar
E impedi-los de sair do lugar.
É óbvio que é inadmissível que o Estado
Ofereça ensino qualificado
Para os filhos dos nossos empregados.
Temos que garantir eternamente esse legado!
O lugar deles é nos servindo
E não nos incomodando, competindo.
Qualquer governo que se assanhe nessa direção
Deve ser derrubado, esmagado, jogado no chão.
Somos descendentes de senhores escravizadores.
Nossos ascendentes não aceitariam tais horrores.
Honremos suas memórias!
Nada de eles terem glórias!
Nada de preto e pobre serem vistos como gente!
O nosso passeio tem que seguir em frente.
Temos que mantê-los na rédea olhando para o chão,
Sem dar a menor chance de apurar a visão.
Eles não podem acreditar que podem,
E sim que se saírem dos trilhos eles explodem.
Eles não podem captar os horizontes.
É assim que o hoje e o amanhã é e será ontem.
Pois não basta que eu tenha tudo o que eu quero,
Não quero que os de baixo venham para o bolero.
Fonte iluminada
Disseram-me que eu não sou capaz de pensar.
Eu e todos que estão no meu lugar.
Eu sou o povo e o povo é só para executar
Aquilo que os que pensam “mandar”.
Disseram-me que o povo é como uma boiada
A ser tangida por quem é tudo sem ser nada.
Uma boiada incapaz de aprender,
Incapaz de escolher,
Incapaz de ter visão,
Incapaz de andar sozinha sem meter os pés pelas mãos.
Disseram-me que eu não sei me virar
Sem ser tocado pelo barco que toca o mar.
O mar amarrado ao rabo de uma caravela.
Isso revela o enredo,
Que esconde os segredos
De quem em tudo tem o dedo.
Há o dedo deles em tudo.
Eles são mágicos.
Disseram-me que o barco do povo segue em frente
Porque os mágicos levam a gente.
Os mágicos são uma raça superior
Merecedores de todo o esplendor.
Eles com força e sabedoria usam o leme,
Transpiram virtudes e nada temem.
Disseram-me, disseram-me, disseram-me...
Mas tudo que me disseram não passa de lero-lero
Pra esconder a festa dos que tocam o bolero.
Como que os mágicos são virtuosos e nada temem,
Se eles morrem de medo de um Mister M?
O que seria dos mágicos sem as capas e cartolas?
Por que os mágicos apagam as luzes para mostrar suas escolas?
Por que os mágicos mataram Sócrates e Jesus
E põem pedras no caminho que leva à luz?
Por que os mágicos tiram da lição
As matérias que geram iluminação?
Se o povo não somos de nada,
Por que tentam esconder a fonte iluminada?
Aldeia claudicante
A luz que me ilumina me encandeia
Quando quero mostrar o que não se mostra na aldeia.
Preciso pintar um quadro convincente,
Mas que não mostre o papel de certas gentes.
Tenho que fazer vista grossa
Para a gente fina
Que sempre endossa
O que vem de cima.
Tenho que viver em uma casa sem botão,
De peito aberto e sem alma na mão.
A minha alma é livre para navegar,
Desde que eu consiga negar:
Que os sentidos estão no sentido que interessa
Aos que mandam na conversa,
Que a luz da casa grande chega à senzala
Para indicar uma direção, não para iluminá-la.
Tenho que vender como autênticos os falsos Picassos
E me emporcalhar na lama do riacho.
Tenho que dizer que o “penso, logo existo”
É uma ofensa a Jesus Cristo.
Não posso mostrar que a escravidão mudou de roupa,
Mas está aí de vento em popa.
O excesso de exploração é uma marca marcante,
É um traço que mancha a aldeia claudicante,
É um dos fios que perpassa toda a teia
E quem tentar quebrá-lo será o peixe da ceia.
O que há por trás das cortinas de fumaça não pode aparecer
E a minha pintura tem que parecer
Uma representação verdadeira.
Tenho que vender uma parte como inteira.
Manipular e dissimular para se apropriar.
Preciso ser cínico, preciso apodrecer,
Preciso mostrar para esconder,
Preciso fechar os olhos para as manobras
Dos que veem o povo como mera mão de obra.
A pintura desse quadro,
Em minha alma, faz estrago.
A Diferença
Parei em um canto
Correndo a vista nos cavalos do seu Franco.
Nesse olhar, percebi o abismo que há
Entre o cavalo de carga e o cavalo de passear.
Pra começar, o cavalo de passeio jamais deve trabalhar,
E o cavalo de carga jamais deve passear.
Pro cavalo de passeio não falta ração,
Não falta vacina, não falta água, não falta nada não.
Já o cavalo de carga, seu Franco só falta matá-lo
De sede, de fome, de trabalhar para sustentá-lo.
O cavalo de passeio vive protegido
Da chuva, da poeira, do sereno…
O cavalo de carga sobrevive dolorido,
Explorado, abandonado, gemendo.
O cavalo de passeio não pode ficar feio,
Seu cocho sempre, sempre, está cheio.
Já o cavalo de carga nem cocho tem,
Mata a fome na estrada transportando feito um trem.
O cavalo de carga não tem vida,
É um meio para o seu Franco construir a avenida.
Depois do dia todo na estrada,
Seu Franco solta o cavalo, dá-lhe uma lapada,
Se aproxima do cavalo de passear
E faz um afago para o bicho relaxar.
No dia a dia a carregar
O que o seu Franco quiser transportar,
O cavalo de carga vive a suportar
Mais do que o lombo pode levar.
Quando o cavalo se entorta sem aguentar,
Seu Franco usa um relho pra argumentar.
Enquanto seu Franco lapeia
Diz que o cavalo não aprende,
Então a chibata será sua ceia
Para que ele se emende.
Seu Franco lapeia, lapeia, lapeia,
Lapeia que o calombo encandeia.
Mesmo trabalhando o dia todo, todo dia,
Sendo os pés e as mãos de seu Franco e família,
Diz seu Franco que o cavalo é preguiçoso
E o trato com ele não pode ser amistoso.
Agora, o cavalo de passeio ele diz que é de vergonha,
Vistoso, forte, corajoso, do jeito que ele sonha.
– O cavalo de passeio não precisa levar lapada.
– Mas o cavalo de passeio não faz nada!
É um parasita voando na varanda.
É qualquer coisa que não anda.
E quando anda seu Franco só falta inverter os papéis:
Ao invés de ser os dedos seu Franco ser os anéis.
Observando a diferença entre o cavalo de carga e o de passear
Eu entendi o modo de um camponês mandar o filho estudar:
– Quem não dá pra sela, dá pra cangalha.
A sela é do cavalo de passeio que se espalha.
A cangalha é no cavalo de carga, açoitado,
Que existe para ser explorado.
De onde vem a diferença entre um e outro cavalo?
Matutei, matutei… em um instante tive um estalo:
O cavalo de passeio veio em um navio de passageiro.
O cavalo de carga veio em um navio cargueiro.
O de passeio veio livre, leve e solto.
O de carga carregado, todo torto.
O de passeio recebeu asas para voar.
O de carga foi acorrentado, obrigado a sofrer sem reclamar.
O de passeio era dono do seu nariz.
O de carga tinha a marca do dono como cicatriz.
Uma cicatriz que muito diz
Sobre o quadro negro sem giz
E um cenário sujo coberto de verniz.
A Corrida
Que vença o melhor!
Vai começar a corrida.
Estão entre os competidores
Um filho de um doutor
E um filho de um pescador.
Estão todos no ponto de partida.
O filho do doutor amarra a sapatilha;
O filho do pescador está descalço, farroupilha.
Essa gente fica melhor assim,
Assim fica mais distante de mim.
Começa a corrida, larga bem o filho do doutor.
O filho do doutor vai abrir vantagem.
O filho do pescador pensar em vitória é bobagem.
A superioridade do filho do doutor é evidente.
O filho do pescador está aí para aparecer pra sua gente.
O filho do doutor se hidrata, se refresca.
O filho do pescador tira o suor da testa.
O filho do pescador não tem água não.
Essa gente fica melhor assim, amigão.
O filho do doutor recebe todo o incentivo da plateia.
O filho do pescador recebe uma vaia que você não tem ideia,
É de deixá-lo sem traqueia,
É pra se sentir uma centopeia.
Essa gente fica melhor assim.
Essa gente nasceu pra isso do começo ao fim.
E o fim da corrida está chegando.
E os pés do filho do pescador estão sangrando.
Essa gente é muito fraca,
Estão em um barco que no meu porto não atraca.
Enquanto isso, chega pra vitória justa e merecida,
Justa e merecida, justa e merecida, justa e merecida…
Vitória daquele que levantou toda a torcida!
Vence, o vencedor, o merecedor,
O bravíssimo filho do doutor!
Entoca
Olho a grande mídia e vejo um piano
Que já vem com um pianista que não é humano
E toca para desfocar,
Toca para entocar,
Define os sabores
Conforme o gosto dos patrocinadores.
Esse pianista não toca para a plateia.
Toca a assembleia.
Toca no ritmo que quiser.
Toca na direção que quiser.
Toca na ponta do pé
Para tocar a pontapé.
Toca como um vaqueiro.
Toca como um grileiro.
Toca como um navio negreiro.
Toca sem musicalidade.
Toca sem um toque de verdade.
Toca para que ninguém toque no piano.
Toca para tocar o cotidiano.
Toca pesado sendo leviano.
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