Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

4

Os Cristãos Matariam Cristo?

Os cristãos servem a Cristo?

O que existe por trás do visto?

Será que o diabo está se servindo do imprevisto,

Ou do previsto, ou do visto, ou do registro?

Os cristãos seguem Cristo?

Se Cristo voltasse seria benquisto?

 

Cristo iria aceitar a diferença que há

Entre o ser e o parecer?

Nesse espaço passeia:

A luz que encandeia,

A riqueza que gera fome,

As grandezas que amesquinham o homem...

 

Cristo iria aceitar a feira livre em seu nome

Ou iria colocar a boca no trombone?

Os denunciados de hoje fariam o quê?

O mesmo que os de ontem puderam fazer?

Suportaríamos a presença de Cristo

Ou mais uma vez o pregaríamos num crucifixo?

151

Espírito mesquinho

Vale tudo para vender gato por lebre.

Vale tudo para que o mágico celebre.

Só não se coloca em jogo as integridades física e financeira,

O resto é tudo besteira.

Danem-se os valores que não valem no cassino.

O interesse público não vai no meu destino,

Vai na contramão e traz companhia que desagrada

Aos aeroportos, universidades e outras estadas.

 

Até engulo certas pessoas nesses lugares,

Se lá estiverem para fazer o que fazem em nossos lares.

Essa gente tem que rastejar feito cobra.

Não pode passar da condição de mão de obra.

 

A nossa aldeia não pode pegar os caminhos

Daquelas onde os animais mostraram o focinho.

Aqui não, aqui temos outros planos

Aqui há humanos e humanos.

Em outras aldeias falta tapete para o homem de bem pisar

Aqui não há de faltar.

 

Aqui os tapetes não irão criar asas,

Vão servir dentro e fora de nossas casas.

Aqui é para gente que é gente

E o passado é o nosso presente para sempre. 

143

O touro

Parei para correr a vista
No passeio de alguns artistas
Que são mestres na arte
De lucrar por toda parte.

Não há galinha dos ovos de ouro,
Eles não produzem nenhum tesouro.
É que o dinheiro dessas cacatuas
Põe mais ovos que um peixe-lua.
Cada uma das cédulas bebês
Além de parir, não param de crescer,
Multiplicam-se incontrolavelmente
E não são pobres mortais como a gente.

E para elas não há um único predador.
Quem controla o touro se sente criador,
Mas são as criaturas os únicos não mortais,
Assim, um dia elas transmutam a hierarquia dos corais.

184

O Reitor

Algemaram o reitor.

Um professor oferece perigo,

De certas criaturas é um inimigo. 

Um professor pode iluminar o escurinho do cinema.

Iluminar é uma coisa que pode causar problema.

A falta de luz é essencial

Para o passeio no curral.

 

A falta de luz é essencial:

Para a ação do marginal,

Para a convulsão intelectual,

Para a serpente sair da toca,

Para levarem o ouro da vendedora de pipoca,

Para o morcego chupar o sangue do animal,

Para a mentira fazer um carnaval...

 

Sem dúvida tinham que algemar o reitor.

É preciso enfeitar a página, leitor.

Algema no pé, algema no amor,

Algema até na alma do professor.

Algema no pé, algema na mão,

Algema na educação.

Algema no pé, algema na mão,

Algema na iluminação.

 

Algema para a diversão da TV.

Algema para a educação aprender.

Algema para todo mundo ver

O que acontece com quem não aprende a ler

Nos olhos dos donos do poder.

Professor gosta de iluminação.

Algema nele então,

E luz, câmera e ação. 

O espetáculo precisa deixar uma lição:

Ninguém deve contrariar a razão da aluvião.

As águas da liberdade de expressão

Passeiam livres nas torneiras do coração

Se não contrariarem os interesses de quem tem tudo nas mãos.

 

As águas que não correm para o mar

Em obstáculos irão esbarrar.

A água que não corre para o mar

Pode logo se acabar

Ou ser acabada pelos nobres que

Acabaram com o reitor. 

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