Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

4

Aldeia claudicante

A luz que me ilumina me encandeia

Quando quero mostrar o que não se mostra na aldeia.

Preciso pintar um quadro convincente,

Mas que não mostre o papel de certas gentes.

 

Tenho que fazer vista grossa

Para a gente fina

Que sempre endossa

O que vem de cima.

Tenho que viver em uma casa sem botão,

De peito aberto e sem alma na mão.

 

A minha alma é livre para navegar,

Desde que eu consiga negar:

Que os sentidos estão no sentido que interessa

Aos que mandam na conversa,

Que a luz da casa grande chega à senzala

Para indicar uma direção, não para iluminá-la. 

 

Tenho que vender como autênticos os falsos Picassos

E me emporcalhar na lama do riacho. 

Tenho que dizer que o “penso, logo existo”

É uma ofensa a Jesus Cristo. 

 

Não posso mostrar que a escravidão mudou de roupa,

Mas está aí de vento em popa. 

O excesso de exploração é uma marca marcante,

É um traço que mancha a aldeia claudicante,

É um dos fios que perpassa toda a teia

E quem tentar quebrá-lo será o peixe da ceia.

 

O que há por trás das cortinas de fumaça não pode aparecer

E a minha pintura tem que parecer

Uma representação verdadeira.

Tenho que vender uma parte como inteira.

Manipular e dissimular para se apropriar.

Preciso ser cínico, preciso apodrecer,

Preciso mostrar para esconder,

Preciso fechar os olhos para as manobras

Dos que veem o povo como mera mão de obra.

A pintura desse quadro,

Em minha alma, faz estrago.

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A Diferença

Parei em um canto

Correndo a vista nos cavalos do seu Franco.

Nesse olhar, percebi o abismo que há

Entre o cavalo de carga e o cavalo de passear.

Pra começar, o cavalo de passeio jamais deve trabalhar,

E o cavalo de carga jamais deve passear.

Pro cavalo de passeio não falta ração,

Não falta vacina, não falta água, não falta nada não.

Já o cavalo de carga, seu Franco só falta matá-lo

De sede, de fome, de trabalhar para sustentá-lo.

 

O cavalo de passeio vive protegido

Da chuva, da poeira, do sereno…

O cavalo de carga sobrevive dolorido,

Explorado, abandonado, gemendo.

O cavalo de passeio não pode ficar feio,

Seu cocho sempre, sempre, está cheio.

Já o cavalo de carga nem cocho tem,

Mata a fome na estrada transportando feito um trem.

 

O cavalo de carga não tem vida,

É um meio para o seu Franco construir a avenida.

Depois do dia todo na estrada,

Seu Franco solta o cavalo, dá-lhe uma lapada,

Se aproxima do cavalo de passear

E faz um afago para o bicho relaxar.

 

No dia a dia a carregar

O que o seu Franco quiser transportar,

O cavalo de carga vive a suportar

Mais do que o lombo pode levar.

Quando o cavalo se entorta sem aguentar,

Seu Franco usa um relho pra argumentar.

Enquanto seu Franco lapeia

Diz que o cavalo não aprende,

Então a chibata será sua ceia

Para que ele se emende.

 

Seu Franco lapeia, lapeia, lapeia,

Lapeia que o calombo encandeia.

Mesmo trabalhando o dia todo, todo dia, 

Sendo os pés e as mãos de seu Franco e família,

Diz seu Franco que o cavalo é preguiçoso

E o trato com ele não pode ser amistoso. 

 

Agora, o cavalo de passeio ele diz que é de vergonha,

Vistoso, forte, corajoso, do jeito que ele sonha.

– O cavalo de passeio não precisa levar lapada.

– Mas o cavalo de passeio não faz nada!

É um parasita voando na varanda.

É qualquer coisa que não anda.

E quando anda seu Franco só falta inverter os papéis:

Ao invés de ser os dedos seu Franco ser os anéis.

 

Observando a diferença entre o cavalo de carga e o de passear

Eu entendi o modo de um camponês mandar o filho estudar:

– Quem não dá pra sela, dá pra cangalha.

A sela é do cavalo de passeio que se espalha.

A cangalha é no cavalo de carga, açoitado,

Que existe para ser explorado.

 

 

De onde vem a diferença entre um e outro cavalo?

Matutei, matutei… em um instante tive um estalo:

O cavalo de passeio veio em um navio de passageiro.

O cavalo de carga veio em um navio cargueiro.

O de passeio veio livre, leve e solto.

O de carga carregado, todo torto.

O de passeio recebeu asas para voar.

O de carga foi acorrentado, obrigado a sofrer sem reclamar.

O de passeio era dono do seu nariz.

O de carga tinha a marca do dono como cicatriz.

Uma cicatriz que muito diz

Sobre o quadro negro sem giz

E um cenário sujo coberto de verniz.

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A Corrida

Que vença o melhor!

Vai começar a corrida.

Estão entre os competidores

Um filho de um doutor

E um filho de um pescador.

Estão todos no ponto de partida.

 

O filho do doutor amarra a sapatilha;

O filho do pescador está descalço, farroupilha.

Essa gente fica melhor assim, 

Assim fica mais distante de mim.

 

Começa a corrida, larga bem o filho do doutor.

O filho do doutor vai abrir vantagem.

O filho do pescador pensar em vitória é bobagem.

A superioridade do filho do doutor é evidente.

O filho do pescador está aí para aparecer pra sua gente.

 

O filho do doutor se hidrata, se refresca.

O filho do pescador tira o suor da testa.

O filho do pescador não tem água não.

Essa gente fica melhor assim, amigão.

 

O filho do doutor recebe todo o incentivo da plateia.

O filho do pescador recebe uma vaia que você não tem ideia,

É de deixá-lo sem traqueia,

É pra se sentir uma centopeia.

Essa gente fica melhor assim.

Essa gente nasceu pra isso do começo ao fim.

 

E o fim da corrida está chegando. 

E os pés do filho do pescador estão sangrando.

Essa gente é muito fraca,

Estão em um barco que no meu porto não atraca.

 

Enquanto isso, chega pra vitória justa e merecida,

Justa e merecida, justa e merecida, justa e merecida…

Vitória daquele que levantou toda a torcida!

Vence, o vencedor, o merecedor,

O bravíssimo filho do doutor!

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Entoca

Olho a grande mídia e vejo um piano

Que já vem com um pianista que não é humano

E toca para desfocar,

Toca para entocar,

Define os sabores

Conforme o gosto dos patrocinadores.

 

Esse pianista não toca para a plateia.

Toca a assembleia.

Toca no ritmo que quiser.

Toca na direção que quiser.

Toca na ponta do pé

Para tocar a pontapé.

 

Toca como um vaqueiro.

Toca como um grileiro.

Toca como um navio negreiro.

Toca sem musicalidade.

Toca sem um toque de verdade.

Toca para que ninguém toque no piano.

Toca para tocar o cotidiano.

Toca pesado sendo leviano.

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