Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

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Meu avô

Parei para ouvir dois repentistas,
Que davam alma a uma feira camponesa. 
Ao lado de frutas, verduras e legumes orgânicos,
Coisa boa para o corpo,
Ofereciam coisas para a alma.
Com tudo na ponta da língua, relampeavam as palavras,
Desenhavam um quadro do mundo rural.
Ali viajei pra minha infância.
Senti o vento, vi o baile das árvores, 
Ouvi os pássaros festejarem o amanhecer.
Vi os aboios do meu avô, 
Que cantava e contava o que via.
Ele não sabia apreciar pratos chiques,
Degustar Beethoven, Picasso, Camões.
Mas não alimentava a alma com alimentos enlatados, 
Temperados ao gosto de quem perdeu o paladar
E de quem só é capaz de sentir quando põe a mão no bolso.
Meu avô gostava de pôr os pés no chão,
Equilibrar a cabeça, montar e galopar sem se curvar,
Sem seguir os ventos que arrastam tudo para o mesmo lugar.
Não abria mão de ser dono do próprio nariz.
De outro modo, não se sentiria feliz.
Aboiava, cavalgava, cantava, contava, escrevia cordéis...
Gostava de usar a voz para desatar seus nós.
Fazia e refazia os seus papéis.
Corria para onde queria,
Dentro dos limites que havia. 
Livre até os ossos... é um sonho ou pesadelo.
A verdade também está nesse novelo.
Mas meu avô dizia que depois dos filhos e da mulher,
Buscar um barquinho de verdade
Era o que o mantinha de pé,
Para balançar o esqueleto
Sem ser balançado, lançado nas ondas
Para que a elas responda como o eco à voz. 
Estando na rede sendo apenas um dos nós
Que não amarra nem solta, apenas conecta.
Apenas um conector.
Isso nunca seria o meu avô.
Ele sempre soube onde queria estar.
E eu sei que ele está em algum lugar.
Apesar das chamadas de vídeo, do envio de áudios...
O meu avô gosta de receber cartas.
E eu escrevo para o meu avô.

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Não há tempo

Ganhamos tempo com a máquina de lavar,
Com liquidificador, com o avião...
Da cozinha às vias de comunicação,
Ganhamos tempo.
Ganhamos tempo com os robôs, com a internet,
Com a linha de produção...
Ganhamos tempo, ganhamos tempo. 
A distância e o tempo nos estendem as mãos. 
Há ganho de tempo.
Mas eu não tenho tempo, não sobra tempo para mim.
Há ganho de tempo, mas... enfim:  
Não há tempo para os filhos.
Não há tempo para os pais.
Não há tempo pra dona Maria José da Paz.
Não há tempo para empatia...
O dia a dia escorre na correria.
Não há tempo para ir ao médico, ao dentista, ao cabeleireiro...
Às vezes falta tempo até para ir ao banheiro.
Não há tempo para dar as mãos.
Não há tempo para um irmão.
Não há tempo para combater a fome,
Também não há para saborear o que se come.
Não há tempo para sonhar, enxergar, caminhar...
Não há tempo pra pensar!
Pra pensar!
Meu Deus! Onde vamos parar!
Não há tempo pra ver as estrelas, a lua
Ou pra respirar embaixo de uma árvore no meio da rua.
Não há tempo fora do tempo de servir.
Servir o tempo todo.
Não só de segunda a sexta;
Sábados, domingos, férias e feriados.
Servir aos bens, serviços e seriados. 
Não há tempo a perder.
Todo o tempo é pra correr.
Correr como um trem
Na linha e sem saber pra quê ou pra quem.
Há ganho de tempo em todo lugar,
Mas ele é arrastado pelas águas que correm para o mar.

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