Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

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Alta nobreza

É inadmissível que haja boa escola

Pra filhos de preto e pobre.

Já pensou se esse povo sobe

E deixa de aceitar a degola.

Dar escola boa pra essa gente

É como dar asas para serpente.

Se criarem asas vão sair dos trilhos

Vão querer o lugar dos nossos filhos

Nas faculdades de medicina, direito, engenharia,

Só em pensar já morro de agonia.

 

O lugar deles é: construindo nossas casas,

Lavando o nosso chão e sendo escadas,

Tapetes pra gente pisar

E impedi-los de sair do lugar.

 

É óbvio que é inadmissível que o Estado

Ofereça ensino qualificado

Para os filhos dos nossos empregados.

Temos que garantir eternamente esse legado!

O lugar deles é nos servindo

E não nos incomodando, competindo.

Qualquer governo que se assanhe nessa direção

Deve ser derrubado, esmagado, jogado no chão.

Somos descendentes de senhores escravizadores.

Nossos ascendentes não aceitariam tais horrores.

Honremos suas memórias!

Nada de eles terem glórias!

Nada de preto e pobre serem vistos como gente!

O nosso passeio tem que seguir em frente.

 

Temos que mantê-los na rédea olhando para o chão,

Sem dar a menor chance de apurar a visão.

Eles não podem acreditar que podem,

E sim que se saírem dos trilhos eles explodem. 

Eles não podem captar os horizontes.

É assim que o hoje e o amanhã é e será ontem.

Pois não basta que eu tenha tudo o que eu quero,

Não quero que os de baixo venham para o bolero.

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Fonte iluminada

Disseram-me que eu não sou capaz de pensar.

Eu e todos que estão no meu lugar.

Eu sou o povo e o povo é só para executar

Aquilo que os que pensam “mandar”.

Disseram-me que o povo é como uma boiada

A ser tangida por quem é tudo sem ser nada.

Uma boiada incapaz de aprender,

Incapaz de escolher,

Incapaz de ter visão,

Incapaz de andar sozinha sem meter os pés pelas mãos.

 

Disseram-me que eu não sei me virar

Sem ser tocado pelo barco que toca o mar.

O mar amarrado ao rabo de uma caravela.

Isso revela o enredo,

Que esconde os segredos

De quem em tudo tem o dedo.

Há o dedo deles em tudo.

Eles são mágicos.

 

Disseram-me que o barco do povo segue em frente

Porque os mágicos levam a gente.

Os mágicos são uma raça superior

Merecedores de todo o esplendor.

Eles com força e sabedoria usam o leme,

Transpiram virtudes e nada temem.

 

Disseram-me, disseram-me, disseram-me...

Mas tudo que me disseram não passa de lero-lero

Pra esconder a festa dos que tocam o bolero.

Como que os mágicos são virtuosos e nada temem,

Se eles morrem de medo de um Mister M?

O que seria dos mágicos sem as capas e cartolas?

Por que os mágicos apagam as luzes para mostrar suas escolas?

Por que os mágicos mataram Sócrates e Jesus

E põem pedras no caminho que leva à luz?

Por que os mágicos tiram da lição

As matérias que geram iluminação?

Se o povo não somos de nada,

Por que tentam esconder a fonte iluminada?

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