Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

2

O sono

O sono me puxa
Pelos cabelos que não tenho.
Desperto um pouco,
Vejo-me no meu lugar,
Que eu não sei onde é.
Perco-me em um labirinto que está dentro de mim.
Corro com uma faca nos dentes
Para não sair da minha mão,
Que eu não sei se é minha.
O sono dá um tempo para mim.
Um tempo como todo tempo,
Com presente, futuro e passado
Correndo abraçados.
O relógio não para. 
No meu pulso ainda vejo alguma coisa. 
Na luz do dia nada vejo. 
O sono passa e leva com ele
Algo que é meu.
Meus olhos, meus ouvidos,
Todos os sentidos, 
Pelo sono atingidos. 
O sono adormece o meu ser,
Põe a minha alma no mar,
Para deixá-la sem peso,
Para ser facilmente levada pelos ventos.
O sono antes de pegar o corpo
Tira a alma pra dançar.
O sono dá razão à falta de razão.
O sono da razão é um pesadelo,
Que embrulha os sentidos em um novelo
Que rola de ladeira abaixo.

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Linhas da minha mão

No mundo das linhas da minha mão,
Vejo tudo em cima de um balcão.
Estou sem óculos e é ruim a iluminação.
E a cigana que me ensinou a ler
Se perdeu dentro de mim.
Fico sem saber
Onde pôr os pés no meu jardim.
Olho para frente
Vejo apenas as minhas mãos com um presente indecente,
Embrulhado de ontem.
Ontem mal embrulhado,
Com o lacre violado,
Com o endereço errado,
Com a validade vencida.
Quem toca o presente
Não sente a minha vida.
Não quer saber de nada,
Nem de mim nem de ninguém.
Diz que o outro é uma escada
E dos anjos ouve “amém”.
Nas linhas das minhas mãos,
Vejo que não tenho tempo
Pra apurar a minha visão 
E saborear meus alimentos.

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