Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

6

Novos velhos

O atual sistema feudalista lista o que quer,

Despista o que é e descarta o que não quer.

Ouço a mão do sistema,

Dos novos suseranos, velhos fulanos, eternos esquemas

Para sugar a massa e deixar a carcaça fora do desenho.

Suserano, senhor feudal, senhor de engenho...

Nomes que não mais comem.

Mas a fome que eles representam

Apresenta agora outras nomenclaturas,

Que significam a mesma voracidade das velhas criaturas.

Voracidade que ganha asas por meio de novos instrumentos

Para não só fazer sofrer, mas também aceitar os sofrimentos.

 

As correntes que prendem os escravos de hoje

São invisíveis.

Os escravos nem sabem que são escravos.

O acorrentado se sente preso,

Mas não sabe a quê.

Pode pensar que seja ao que não tem,

Ou a todo mundo ou a ninguém.

O acorrentado se sente preso.

A prisão é invisível,

Mas se sente o peso.

A dor é sentida.

As correntes são invisíveis.

Traficantes de escravos,

Senhores de engenho, feudais, suseranos atuais,

São todos invisíveis.

Mas a dor é sentida.

 

O açoite e o chicote também são invisíveis.

Mas a dor é sentida!

O ferro, em brasa, rompendo a pele

Para identificar o proprietário

É invisível.

Mas a dor é sentida!

O chiado e a fumaça do ferro

Que identifica o proprietário

São invisíveis.

Mas a dor é sentida!

A dor é sentida, a dor é sentida...

119

Morcego

Vejo o capitalismo como o efeito estufa,

Tem que ser com ele, mas o excesso nos desfaz.

Não dá pra suportar os morcegos neoliberais.

Nem dá pra engolir a conversa do javali,

Que trata o povo como o vendedor de caldo trata a cana.

O povo é apenas uma escada pra subida do bacana.

 

A distância entre o bacana e o bagaço de cana não para de aumentar.

E certos moços têm coragem de falar que sugar é sustentar.

Tapam o sol com uma peneira, falam sério de brincadeira,

Deixam a massa amassada, sugada, jogada na esteira.

Se as coisas vão de vento em popa,

Eles vão enchendo a boca.

Quando a escassez aperta o cerco

 Apertam ainda mais os que vivem no aperto.

 

Olhando os horizontes, vejo o hoje pior que o ontem.

Sinto os ventos me puxando para trás,

Soprados pelos toques da viola dos neoliberais,

Que toca no ritmo que quiser.

Faz a festa e bate o pé

E por mais que toque errado

Jamais o pinho é culpado. 

47

Tempo sombrio

Sonhei que eu estava em um tempo sombrio.

Som, brio, alma, visão, paladar, olfato, tato, todos os sentidos

Sendo atingidos pelo vácuo que se abriu.

Dele emergiu um espírito de porco,

Muito cínico e muito louco,

Que queria afastar de mim o pensar.

Tirando-me o pensar, em mim nada vai restar!

 

Ele é céu, o sol, o ar da minha vida,

Sem ele ela é um cisco atingido numa corrida,

Irei bater a cabeça na parede da memória,

Serei livre como um pássaro numa gaiola.

 

Se eu não puder bater asas, contemplar, perceber, 

Cantar e contar o amanhecer e o que eu ver

Sem dúvida, irei perder o que herdei

E não saberei por onde andar nem aonde andei.

 

Sem a barca do pensar

Serei arrastado pelas águas que correm para o mar.

Se suprimirem de mim essa dama,

Em mim só restará lama.

Que pesadelo pensar 

Que a barca do pensar vai afundar.

Acordei embaraçado como se tivesse levado um sacode.

Era o som do alarme repetindo: acorde, acorde...

79

A indústria da seca

Na minha aldeia

A coisa está feia por falta de água,

Da água que não falta nesse chão.

Aqui a caminhada deixa o povo na mão

De quem pinta e borda, deita e rola

Em cima do povo, que assim precisa de esmola.

 

 

Esse alçapão parece de espuma de sabão,

Mas é duro como pedra

E dura tanto que me quebra.

 

Se cavar o chão a água vem pra mão,

Com a água na mão vem o pão,

Com o pão vai o problema,

Vem a solução para quem sofre.

Mas solucionar não é a melhor opção

Na visão de quem tem um cofre.

 

Até entendo que o dono de funerária fique alegre com a morte,

O mecânico com o motorista em má sorte,

O médico com o paciente...

Mas a indústria da seca é diferente.

Ela deixa o homem sem pernas

Para que a festa da casa grande seja eterna.

Ela não apenas lucra com a desgraça alheia.

Ela impede que o homem se desamarre da correia.

 

Quando o povo está a morrer de fome e de sede,

Certos socorristas formam uma rede

Que fica com o que vem da distribuição:

O cabresto, o curral, o mercado, a eleição...

 

A seca seca a esperança,

Que murcha e estrebucha

Cercada pelos que não querem mudança.

A fome que consome

Serve de instrumento

Para o lobisomem fazer o nome.

94

O mordomo

Toda a culpa é do mordomo.

Essa ladainha me dá sono,

Mas meus olhos não estão fechados,

E veem nos horizontes um quadro mal pintado.

Está difícil dormir com esse barulho.

Nessa terra aterrada

Ninguém tem culpa de nada

Toda a culpa é do Estado e do entulho.

 

Estado, sociedade e mercado.

O jogo não era tão desequilibrado.

Agora passeiam as cartas marcadas

Jogadas para tudo e para nada.

 

Nos novos tempos, os velhos moços

Colocam o mundo no bolso

E por baixo dos panos

Arrastam tudo e causam danos.

 

Marcada à parte, a arte de regular está sendo desregulada. 

E no caminho do deus dinheiro

Não surge um camelo pra limitar a caminhada.

 

Quem vai dizer que a eco “non” mia mais alto? 

Ela corrompe, envenena e toma de assalto.

Tornando natural o que não é natural,

Ela vai promovendo na pirâmide social

Uma diferença abissal.

 

A eco não prioriza a bio. 

Dela só escapa o que ela não viu.

Ela é mecânica, robotizada,

Sem alma, sem nada

Que possa compreender a vida, 

Por isso queima tudo para se manter aquecida.

Ela não ecoa para o meu mundo.

A eco ecoa para o touro pisar fundo.

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Empatia

Sonhei que eu era uma criança
Sendo queimada viva na Faixa de Gaza.
Eu gritava, pedia socorro...
Para recebê-lo estirava a mão,
Mas as línguas de fogo apagaram a minha respiração.
Vi meu corpo lambido
E me vi com asas para voar.
Vi a face dos disfarces.
Senti as chamas na minha alma,
Tão ardentes quanto as que lamberam o meu corpo.

As chamas antes de me queimarem,
Queimaram meus filmes.
Nos últimos minutos subiam as letrinhas.
Queimaram os créditos, os agradecimentos, as festinhas...
As chamas antes de me queimarem,
Queimaram meus aniversários,
Meus desenhos animados,
Minhas musiquinhas pra eu dormir...
Queimaram a festa de formatura da alfabetização.
Queimaram os abraços dos meus pais, dos meus avós,
Da minha irmã de três anos que corria até o portão para me abraçar quando eu chegava da escola.
Queimaram meu sorriso com uma janelinha na boca,
Que eu o apreciava nos olhos de minha mãe.
Queimaram minha cavalgada nas costas do meu pai.
Queimaram as cenas nas quais eu voava dos braços para os braços do meu pai.
Queimaram os sonhos meus e de meus coleguinhas,
Sonhávamos em ser escritor, professor, ator, cantor, jogador de futebol...
Sonhávamos com a lua, com as estrelas, com a praia em um dia de sol...
Sonhávamos...

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