Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

5

Outras digitais

Renato trabalhava na cidade
E morava na roça onde comprava fiado na mercearia de Lúcio.
Em uma dessas crises econômicas,
Os que dão as cartas apertaram o cinto.
Foram arrochos e mais arrochos.
A chave de fenda do poder apertou como se quisesse tirar leite de pedra
Para garantir o queijo dos que têm a bolsa nas mãos:
Especuladores, grandes acionistas e outros “artistas”.

Como sempre acontece,
Quando a mão invisível cresce
O desemprego estremece.
A maré braba atingiu muita gente.
Renato foi um dos derrubados por essa onda. 
Ele honrava os compromissos religiosamente
E se orgulhava de ser um sujeito decente.
Mas a maré braba demorou passar
E ele começou a se afundar.
Até que chegou o dia que ele foi à mercearia
E a escuridão o arrebatou em plena luz do dia.
Lúcio já estava sufocado com tantos fiados.
Lúcio perdeu a linha,
Arrodeado de clientes, bradou:
Não vendo mais fiado a você, já me deve demais.
O comum naquele meio era fazer esse comunicado em particular.
Renato baixou a cabeça, procurou terra no chão e não encontrou.
O homem mudou de cor, 
Dos olhos saíam faíscas.
Cego como estava,
Privado dos sentidos,
Renato foi em casa, pegou o revólver,
Voltou à mercearia e deixou órfão os três filhinhos de Lúcio.
Foi o dedo do Renato que puxou o gatilho,
Mas outros dedos estavam ali. 

66

A liberdade da estátua

Indo e vindo do batente,
Levado por um trem movido à gente,
Sou diariamente
Arrastado pela frente
Da estátua da liberdade.
Encaro a estátua,
Olho para aquele braço erguido
E sinto os sentidos adormecidos.
Naquele braço erguido
Não vejo um aceno, um cumprimento;
Vejo uma demarcação, uma invasão,
Um descobrimento. 
Eu me vejo naquela mão
Que é uma sonda em meu torrão.
Miro a estátua,
Sinto a pressão alta.
A coroa na cabeça da estátua me remete ao passado.
Sinto o meu suor sugado. 
Os olhos da estátua parecem piscar para mim,
A imagem é de coisa ruim.
Parecem piscar para mim,
Mas não dizem oi; dizem: livre você nunca foi.
Você trabalha para um fim 
E não passa de um meio.
Saio de mim,
Não me vejo no espelho.
Vou e volto do batente espremido
E com um gosto amargo nos sentidos.

46

Futuros roubados

Os meninos que vendem frutas,
Às margens da rodovia,
Não podem ir à escola,
Porque têm que ajudar os pais
A pagar os juros do cartão.
Os meninos acordam antes de o sol sair.
Às vezes ainda são iluminados pelo brilho da lua.
Quase sempre são banhados pelo sereno matinal.
O orvalho nos capins não enche os olhos,
Encharca os pés.
O show dos pássaros passa despercebido,
Não é música para aqueles ouvidos.
As árvores bailando com o sopro do vento,
A aurora matinal e toda a festa
Não fascina aquelas almas.
Quem sente dor, não se derrete com uma flor.
A falta de botas e casacos afeta os sentidos.
No sentido do sítio, vão eles
Levados pelos juros do cartão, 
Pelas mãos de santo Onofre 
E pelas vidas trancafiadas em um cofre. 
Nesse quadro mal desenhado,
Os meninos que oferecem frutas doces
Amargam um presente
Que sinaliza um futuro pesado
Nas balanças dos que recebem os juros dos cartões.

70

Atravessa

Um menino atravessava a rodovia,
Vindo da roça pra casa
Com duas sacas de batata no lombo do cavalo.
Um carro parou e o motorista o chamou:
– Menino, quer vender essas batatas?
– Vendo.
Ele disse o preço, o comprador aceitou
E mandou colocar na carroceria do carro.
O menino pediu o pagamento.
– Bote aí e vem pegar o dinheiro.
– Me dê logo o dinheiro.
O sujeito insistiu, mas quando viu que não daria certo,

Mudou de plano:
– Vou pegar o seu dinheiro.
Pôs a mão em algum lugar,
Puxou um revólver... 
O menino voou pela ribanceira,

Deixou para trás o cavalo, o calçado,

A batata, a balança e o sono de criança. 

O comprador levou a batata e amassou a lata da balança.
Como um indivíduo é capaz de fazer isso com uma criança?
Eu não sei!
Ou talvez eu saiba,
Porque no fundo, no fundo,
Isso não é coisa de outro mundo.

54

As Placas

Quando eu era criança,
Enquanto os caminhos me puxavam pelas mãos,
Eu ouvia o meu coração,
Que dizia que na vida adulta eu escolheria os meus caminhos.
Aos dezoito eu teria a minha emancipação
E teria o meu mundo em minhas mãos,
Seria dono do meu nariz.
Traçaria o meu caminho.
Eu achava que os adultos precisavam aprender com as crianças.
Talvez precisem um pouquinho.
Eu tinha a solução pra tudo.
Tinha solução pra tudo,
Porque não tinha nada pra solucionar.
Eu pensava que os meus caminhos estavam em minhas mãos.
Eu pensava que ia escolher como e por onde andar.
Como se não existissem as placas para me condicionar:
Aqui é mão, aqui é contramão.
Entre por aqui, por ali não pode não.
Não pare aqui, não estacione ali,
Não ultrapasse tal velocidade.
Atenção: curva perigosa, estreitamento de via,
Cruzamento, passagem de ferrovia... 
As placas estão fora e dentro de mim
E não permitem que eu tenha o meu mundo em minhas mãos.
Não sei o peso das placas que indicam a direção.
Mas quem me diz que o resultado da minha caminhada
Depende apenas das forças das minhas pernas 
Ignora ou esconde as condições do caminho.

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