Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

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Duas bolsas

Contemplando a evolução das tecnologias

Disseram-me que evolução humana brilha em nossos dias.

Essa afirmação me acompanhou feito uma assombração.

Para mim, em tal comparação paira uma grande confusão.

A evolução tecnológica é um avião de última geração,

Já a humana não passa de uma Maria Fumaça se arrastando pelo chão.

 

Naquilo que nos diferencia dos outros animais

E das inteligências artificiais

A evolução é uma Maria Fumaça que anda devagar demais.

– Rapaz, isso é muita areia pro seu caminhão!

– Eu sei que é, mas do jeito que der vou seguir a minha condução. 

– Os outros animais não constroem avião!

– Sim, mas vamos ver a face humana dessa evolução: 

A Maria Fumaça é uma das faces da moeda.

Não é toda a moeda que a gente pega.

Pegando a Maria Fumaça ponho os pés no chão

E sigo a minha viagem dividindo a bagagem

Em duas bolsas a serem levadas para pesagem.

 

O peso da bolsa de tecnologias salta aos olhos dia após dia.

O peso da bolsa da razão, da emancipação, da virtude, da harmonia...

É um peso abaixo do peso, um pesar,

Uma tristeza, uma baixeza e ainda tende a afundar.

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Zumbis

Sonhei que eu era um computador

Que em conversas com outras máquinas

Percebi algo ameaçador:

Uma rede de computadores zumbi

Pronta pra fazer o que o computador mestre pedir.

Nela, cada escravo anda na tocada que é tocado.

Pensar, ouvir, ver, sentir, tudo cativado. 

A luz que ilumina leva os olhos à escuridão.

Nas esquinas tropeçam as viúvas da razão.

A razão, distinção do ser, fundamento, 

Afundada, pisoteada por um casco de jumento.

Amargando esse pesadelo, tento ficar livre da escuridão

Que não atinge meus olhos, mas escurece o meu coração. 

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Rédeas curtas

Parei para correr a vista sobre uma boiada

Tocada por dois cavaleiros e mais nada,

Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,

Ou por tudo que lá está ou pelos dois.

 

Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?

O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada

Que leva a boiada para exploração?

Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração?

 

Um boi não consegue vencer os cavaleiros,

Mas pra boiada eles perderiam ligeiro.

Essa boiada não sabe a força que tem,

Se soubesse poderia se dar bem.

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O Mapa

No mapa da minha alma

A solidariedade ocupa espaços da justiça social.

A solidariedade é uma beleza natural,

É um pássaro bonito, celebrado;

A justiça social é um patinho feio, renegado.

O pássaro bonito deve ter espaço sim.

Mas o feio é o mais bonito pra mim.

 

A solidariedade pode encher os olhos e espalhar doçura

Mas quando usada para sustentar uma estrutura,

O uso, para mim, é um abuso

Que esconde o que se procura.

Sinto-me no escuro no sol do céu azulzinho.

Eu quero mais é ver os dois passarinhos. 

Mas ver cada um em seu lugar.

Ainda ouço uma voz a indagar:

O que é que isso vai importar

Para o balanço desse lugar?

 

A estrutura sustentada pelo pássaro bonito

É como um rio intermitente, dependente do agito

Que agita o humor de São Pedro.

Isso me arrepia e me dá medo.

Nada para mim será verdadeiro

Se o pássaro bonito ocupar o mapa inteiro.

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