Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

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Cada gole de café

Quero evoluir.

Quero me aproximar dos loucos

Que falam nos muros, nas passarelas, 

Nas celas de uma prisão, 

Utilizando tintas ou o que tiverem em mãos.

Deixam lá sua expressão, 

Seu espírito, seu coração…

Expõem o presente.

Tocam sem moeda de troca.

Tocam no presente,

Tocam o barco, seguem

Sem lançar os olhos para trás ou para frente.

Tocam no presente, 

Sem nada saber, mas sabendo que é gente.

Esses loucos desde as cavernas 

Sabem que pode se sustentar nas próprias pernas.

Quero me aproximar dos loucos.

Na literatura dessas criaturas a Terra é redonda.

Quero a minha prancha nessa onda,

Não na lama da Terra plana. 

Quero me aproximar dos loucos

Que gritam nos muros,

Que veem uma tela em celas invisíveis.

O louco consegue desfrutar do que faz,

Sem precisar de algo mais.

Quero me aproximar dos loucos.

Quero essa vibração. 

Isso não é ser indiferente à aprovação, à apreciação…

Não, não é isso não!

É apenas não escravizar o coração.

Encanta-me as vozes dos poetas de banheiro.

Encanta-me os passos do seu João Oleiro,

Que ganhava a vida com telhas e tijolos.

Mas dizia que vivia quando fazia o que não vendia,

Quando tirava do barro pássaros, vaso e pessoas,

Que eram os filhos que ele não teve.

Uma voz me diz que o amor mora longe dessas loucuras. 

O amor!

Quem desenhou a face do amor?

Que fantasia deram para ele?

Quem disse que ele precisa de caracterização?

Quem pode duvidar do amor de seu João 

Pelo que faz, pela paz

E pelo que lhe satisfaz?

Eu não sei pra onde vai meu coração.

Mas quero estar com os pés no chão,

Quero estar na minha mão,

Quero estar onde eu estiver

E saborear cada gole de café.

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Papéis

Que somos animais políticos,
Eu não conheço quem duvide,
Por mais que nos convidem para outra praça.
Disse-me seu Aristides,
Mirando uma cortina de fumaça.
Eu não sei como está a vista de seu Aristides, 
Sei que eu não estou enxergando bem o que se passa.
Mas sei que o ar, a água, o alimento, o sol, o sono... não bastam.
E só no mundo da lua
O trem pode ir bem
Com a bandeira do “cada um fique na sua”.
“Somos animais políticos”.
Bom, seu Aristides!
Somos pedestres, condutores, passageiros,
Consumidores, contribuintes, partes e inteiros.
Somos racionais, religiosos, agnósticos, ateus
E todos somos filhos de Deus.
– Mas não devíamos deixar a religião tirar a decisão para dançar!
É melhor que fique cada uma em seu lugar.
Se separarmos os papéis
Podemos saber onde por os pés.
Mas se embaralharmos os papéis, os dois homens, 
Que são o mesmo homem,
Somem para dar lugar a um homem:
Corrompido, com os dois atributos corroídos.
Se eu não separar a política da religião,
Irei louvar e lavar as mãos para a razão.
– Não sei se devo dar ouvido ao seu Aristides. 
Ouço uma voz:
– Essa discussão não está mais entre nós,
Ela descansa em paz há séculos. 
– Será que eu enlouqueci?
Será que uma máquina do tempo me levou?
Estou na idade média?
Estou no mundo da lua?
No trenzinho da sacanagem?
Estou no rebanho do pastor ou do bispo?
Eu me belisco. Não é um pesadelo.
Eu estou nesse novelo.
Não sei em qual mundo eu estou.
Meus olhos estão num papel que o vento estragou.

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