Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

38

Ananias

Os descendentes do doutor Jerônimo
Estão andando para trás, 
Disse-me seu Ananias.
O doutor Jerônimo era mais humano, 
Tinha mais coração, mais cabeça;
Não tinha essa fome que come
A humanidade do homem.
Não sei se o seu Ananias sabia bem o que dizia.
Mas eu sei que os filhos do doutor Jerônimo não são flor que se cheire.
E os netos são piores que os filhos.  
E os bisnetos são piores que os netos.
A cada geração é mais forte o odor.
Onde vai parar esse trator?
Olhando para a árvore do doutor Jerônimo, 
O seu Ananias dizia:
As coisas avançam, mas as pessoas estão ficando para trás. 
Às vezes, eu acho que o seu Ananias falava demais.
Mas não há como negar
Que a fome de ter o outro na mão
Coloca uma pedra no lugar do coração
E faz os olhos brilharem cegos de paixão
Pelos ventos da estação.
Nessa atmosfera, cada vez mais, 
Tudo está em poucas mãos.
Tudo está nas mãos de poucos
E a maioria sobrevive no sufoco.
A fome de ter o outro na mão
Deixa cego de paixão
Pelos pés que não pisam o chão,
Pela cabeça que não se equilibra no pescoço,
Pelo velho disfarçado de moço.
A fome de ter o outro na mão
Deixa cego de paixão
Por tudo e por nada,
Pelo trânsito fora da estrada,
Pelo trem que atravessa a rodovia,
Pela via que engole a correria
E por que mais seu Ananias?

185

A vista de um ponto

Uma pedra
Pode ser mil pedras
Em mil pares de olhos.
Uma pedra
Captada pelas minhas retinas
É apenas a minha pedra.
Tudo que eu quero
É que a minha pedra
Pareça, o máximo possível,
Com a pedra.

95

Verbo

Um dia a ideia de fim
Era para mim um charuto amargo
Que eu não conseguia tragá-lo.
Pensar no fim, logo no começo,
É uma viagem sem endereço,
Não é coisa que se faça.
Por sorte os ventos me levaram a uma praça
E me deram o presente.
Hoje, a ideia de fim
Não altera o meu boletim.
Às vezes, acho que tudo não passa de pó,
Outras vezes penso em algo melhor.
Quando falo sobre o que vem ou não depois do “fim”,
A minha esposa aponta para o jardim,
Para as plantas que vão e voltam. 
Eu não acredito nem duvido
Desse, nem de outros sentidos.
Só não creio
Que esse relâmpago passeio,
Que não dura nem um século,
Possa prender alguém pra sempre em algum lugar.
Eterna mente.

124

Outras digitais

Renato trabalhava na cidade
E morava na roça onde comprava fiado na mercearia de Lúcio.
Em uma dessas crises econômicas,
Os que dão as cartas apertaram o cinto.
Foram arrochos e mais arrochos.
A chave de fenda do poder apertou como se quisesse tirar leite de pedra
Para garantir o queijo dos que têm a bolsa nas mãos:
Especuladores, grandes acionistas e outros “artistas”.

Como sempre acontece,
Quando a mão invisível cresce
O desemprego estremece.
A maré braba atingiu muita gente.
Renato foi um dos derrubados por essa onda. 
Ele honrava os compromissos religiosamente
E se orgulhava de ser um sujeito decente.
Mas a maré braba demorou passar
E ele começou a se afundar.
Até que chegou o dia que ele foi à mercearia
E a escuridão o arrebatou em plena luz do dia.
Lúcio já estava sufocado com tantos fiados.
Lúcio perdeu a linha,
Arrodeado de clientes, bradou:
Não vendo mais fiado a você, já me deve demais.
O comum naquele meio era fazer esse comunicado em particular.
Renato baixou a cabeça, procurou terra no chão e não encontrou.
O homem mudou de cor, 
Dos olhos saíam faíscas.
Cego como estava,
Privado dos sentidos,
Renato foi em casa, pegou o revólver,
Voltou à mercearia e deixou órfão os três filhinhos de Lúcio.
Foi o dedo do Renato que puxou o gatilho,
Mas outros dedos estavam ali. 

66

A liberdade da estátua

Indo e vindo do batente,
Levado por um trem movido à gente,
Sou diariamente
Arrastado pela frente
Da estátua da liberdade.
Encaro a estátua,
Olho para aquele braço erguido
E sinto os sentidos adormecidos.
Naquele braço erguido
Não vejo um aceno, um cumprimento;
Vejo uma demarcação, uma invasão,
Um descobrimento. 
Eu me vejo naquela mão
Que é uma sonda em meu torrão.
Miro a estátua,
Sinto a pressão alta.
A coroa na cabeça da estátua me remete ao passado.
Sinto o meu suor sugado. 
Os olhos da estátua parecem piscar para mim,
A imagem é de coisa ruim.
Parecem piscar para mim,
Mas não dizem oi; dizem: livre você nunca foi.
Você trabalha para um fim 
E não passa de um meio.
Saio de mim,
Não me vejo no espelho.
Vou e volto do batente espremido
E com um gosto amargo nos sentidos.

46

Futuros roubados

Os meninos que vendem frutas,
Às margens da rodovia,
Não podem ir à escola,
Porque têm que ajudar os pais
A pagar os juros do cartão.
Os meninos acordam antes de o sol sair.
Às vezes ainda são iluminados pelo brilho da lua.
Quase sempre são banhados pelo sereno matinal.
O orvalho nos capins não enche os olhos,
Encharca os pés.
O show dos pássaros passa despercebido,
Não é música para aqueles ouvidos.
As árvores bailando com o sopro do vento,
A aurora matinal e toda a festa
Não fascina aquelas almas.
Quem sente dor, não se derrete com uma flor.
A falta de botas e casacos afeta os sentidos.
No sentido do sítio, vão eles
Levados pelos juros do cartão, 
Pelas mãos de santo Onofre 
E pelas vidas trancafiadas em um cofre. 
Nesse quadro mal desenhado,
Os meninos que oferecem frutas doces
Amargam um presente
Que sinaliza um futuro pesado
Nas balanças dos que recebem os juros dos cartões.

70

Atravessa

Um menino atravessava a rodovia,
Vindo da roça pra casa
Com duas sacas de batata no lombo do cavalo.
Um carro parou e o motorista o chamou:
– Menino, quer vender essas batatas?
– Vendo.
Ele disse o preço, o comprador aceitou
E mandou colocar na carroceria do carro.
O menino pediu o pagamento.
– Bote aí e vem pegar o dinheiro.
– Me dê logo o dinheiro.
O sujeito insistiu, mas quando viu que não daria certo,

Mudou de plano:
– Vou pegar o seu dinheiro.
Pôs a mão em algum lugar,
Puxou um revólver... 
O menino voou pela ribanceira,

Deixou para trás o cavalo, o calçado,

A batata, a balança e o sono de criança. 

O comprador levou a batata e amassou a lata da balança.
Como um indivíduo é capaz de fazer isso com uma criança?
Eu não sei!
Ou talvez eu saiba,
Porque no fundo, no fundo,
Isso não é coisa de outro mundo.

54

As Placas

Quando eu era criança,
Enquanto os caminhos me puxavam pelas mãos,
Eu ouvia o meu coração,
Que dizia que na vida adulta eu escolheria os meus caminhos.
Aos dezoito eu teria a minha emancipação
E teria o meu mundo em minhas mãos,
Seria dono do meu nariz.
Traçaria o meu caminho.
Eu achava que os adultos precisavam aprender com as crianças.
Talvez precisem um pouquinho.
Eu tinha a solução pra tudo.
Tinha solução pra tudo,
Porque não tinha nada pra solucionar.
Eu pensava que os meus caminhos estavam em minhas mãos.
Eu pensava que ia escolher como e por onde andar.
Como se não existissem as placas para me condicionar:
Aqui é mão, aqui é contramão.
Entre por aqui, por ali não pode não.
Não pare aqui, não estacione ali,
Não ultrapasse tal velocidade.
Atenção: curva perigosa, estreitamento de via,
Cruzamento, passagem de ferrovia... 
As placas estão fora e dentro de mim
E não permitem que eu tenha o meu mundo em minhas mãos.
Não sei o peso das placas que indicam a direção.
Mas quem me diz que o resultado da minha caminhada
Depende apenas das forças das minhas pernas 
Ignora ou esconde as condições do caminho.

96

Mata verde

Na festa de Mata Verde, fantasia e realidade se confundem.
Saci-pererê, mula sem cabeça, bicho-papão, papa-figo, lobo mau…
Vão bem de verdade. São bem de verdade.
Eles falam o que querem e falam sério.
Brincadeira é querer amadurecer na festa de Mata Verde.
Querer distinguir o que é fantasia ou realidade é loucura,
É querer sarna pra se coçar,
É querer nadar contra a corrente,
É querer demais.
Ultrapassa os limites da brincadeira,
Que de brincadeira não tem nada.
Na festa de Mata Verde,
Há vantagem em ser criança
Ou brincar de criança.
Na verdade só meia dúzia de crianças se dão bem,
Mas o que importa na Mata é viver verde.
As chaves que abrem as portas e as porteiras
Não se movem de brincadeira,
Movem-se para movimentar:
O Saci-pererê, a mula sem cabeça, o bicho-papão, o papa-figo, o lobo mau e todos que estão na festa.
Movem-se para fazer a festa de quem não está na festa.
Na Mata, matérias verdes apodrecem sem jamais amadurecer.
A festa de Mata Verde é isso.
Não é pra brincar em serviço.
A festa da Mata cultiva profundamente o verde.
O saci-pererê, a mula sem cabeça, o bicho- papão, o papa-figo, o lobo mau…
Botam as crianças pra dançar,
Tiram os pés do chão e a cabeça do lugar.
Nessa festa quem quiser enxergar, ouvir, ou sentir com os próprios sentidos
Vai dar de cara com um vespeiro enlouquecido.

126

O Portão

Dormi no relento para entrar na escola.
Não foi bem dormir,
Passei a noite em uma rede a céu aberto
Olhando pra lua, pras estrelas e para mim.
Olhava para mim e saía de mim.
Não havia, nem eu queria, um espelho para eu me ver.
Eu me via com sono e com medo de dormir.
Medo de acordar com a chuva.
Medo do sereno não me acordar.
Medo de não acordar cedo,
Quatro da manhã.
Mas quatro da manhã seria suficiente
Ou a escola já estaria cheia?
Passar aquela noite que não passava
Para não passar pelo portão da escola
Era um pesadelo a ser tatuado na minha memória.
Não aguentei ficar na rede até às quatro horas.
Corri pra escola.
Já havia fila.
Meu coração acelerou.
A minha alma desapareceu na escuridão dentro de mim.
Quando o dia clareou passei pelo portão.
Mas passo mal quando vejo alguém dizer,

Com ingenuidade ou de má fé,
Que só não passa pelo portão quem não quer.

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