Manuela Barroso

Manuela Barroso

Licenciatura em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora no Ensino Secundário de Português e Francês. Só depois da aposentação, faço das palavras , outra companhia.

n. 0000-00-00, Balança- 25 de Outubro de 1946

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Solidão


Perdi-me de mim e dormi.
Senti o sabor da solidão que florescia na sombra
corri os montes das flores que me falavam do vale
no bulir das marés.
Acariciei as flores plantadas na água que regava a marcela
e afaguei os meus pés.
Corri com saltões
saboreei o trigal
deitei-me na erva
pousei o meu corpo no chão húmido da esperança
senti o arrepio das cigarras
a fome das alturas
e a sede de ser de novo criança!

Os olhos...
ah! os olhos eram a água atrevida
inundando a consciência com fome de vida.
Eram as flores teimosas
escorrendo amarelas
na face das mimosas
invasão no sorriso ardente
no espelho líquido da nascente
cansaço mole na mistura tão difusa do poente.

Quero perder o tempo que se infiltra na terra
e me prende às cheias de fogo que morrem nas minhas cinzas;
fugir na cantilena da água que se perde nos outeiros
tremendo veloz pelas fragas em repuxos aéreos de ventos.

Quero regar de alma as raízes das fontes e dos fetos
que semeiam a frescura dos montes
sentar-me na sombra dos lírios, namorando as violetas
que ardem na chama roxa dos aromas, nos círios dos poetas.

Manuela Barroso, "Laços-Dueto"- Editora Versbrava









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Poemas

2

SE


Se vires nascer flores nos espinhos das rosas
não estremeças o teu olhar
queima as pétalas no cálice da tua alma
faz com elas incenso do teu altar. 

E respira  
deixa  que o aroma  ecoe em  nuvens doces  de beijos.
Não corras atrás do fumo, deixa que voe
na pele mansa do lago. São nenúfares em cortejos.
 
No ar estende-se o musgo dos dias. Fica.
Lê o verde do tempo, sorri com o encanto da vida.
Repousa quando o recolhimento do poente a isso te convida.

Se vires um rebanho de rolas, rasgando a penumbra dos pinheirais
são cordas de anjos à solta  em harpas sonantes, de  voos celestiais.
E não te perguntes de onde vêm
aceita só a beleza que têm.

Se vires no vale de alfazema, andores suspensos de borboletas,
deixa-te esvoaçar como elas,
paira sobre as flores,
sorve o afeto na  luz humilde das violetas. 

Se vires andorinhas na alegria dos beirais,
que tragam nas asas água
apaguem a  sede de amor
afoguem nos lagos a mágoa
dos que sufocando, engolem a dor.
A vida corre depressa, fica-se preso ao chão da Terra,
incógnito de si, existindo, caminhando, como quem erra.

Se as fontes secarem e faltar o trigo, faz-te mar
na cassiopeia  da noite. Adormece tua paz. 
O dia é como a vida: existência tão fugaz…
 
O silêncio espera-te no regato selvagem do monte.
É o Universo fluindo.
Ele está em ti, tua alma é a sua fonte.

 
Manuela Barroso, “ Luminescências”, Seda Editora

 






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Faço uma paragem



                     FAÇO UMA PARAGEM    


                 Faço uma paragem no espaço
                 entre o tempo
                 que passa na aragem do meu pensamento.

                 Confundo memórias do tempo que fui
                 viagem na história
                 da vida que flui.
                 Pousaram nos olhos longos de criança
                 saudades aos molhos
                 do tempo de infância.

                 Quem sou eu afinal
                  nascida na terra
                  girando no céu?

                  Partícula cósmica no universo sem fim
                  viagem incógnita
                  ao encontro de mim.

 
                     Manuela Barroso, “Luminescencias”- Seda Editora



























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