manuelpaulo

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Era uma vez um saco

Sou saco perdido
no meio da estrada.
não sei se vazio
se cheio do nada.

Sou cabra sou cobra
sou coroa de rei.
sou fada madrasta
nas teias da lei.

Sou puro sou virgem
sou casto no lar,
sou bruto sou bronco,
sou monstro no mar.

Sou pajem, sou prenda,
sou tenda contigo.
Sou farsa sou frágil,
sou falso comigo.

Sou saco perdido
no meio da estrada,
não sei se vazio
se cheio do nada.

Sou belo, sou crente,
sou ponte do rio.
Sou luz e sou fonte,
no meio do frio.

Sou filme, sou vento,
se tento lutar.
Sou palco, sou cena
sou pena a voar.

Sou cana batida
pelo vento de lado,
que goza na vida
bocado a bocado.

Sou saco perdido
no meio da estrada,
não sei se vazio
se cheio do nada.

Sou naco de broa
na boca do mundo,
palhaço, cantor.
pastor, vagabundo.

Sou prenda embrulhada
em papel de jornal.
Sou coisa, sou loiça
sou simples mortal.

Sou saco perdido
no meio da estrada,
não sei se vazio
se cheio do nada.

Mas parto contente
de tudo o que sou.

Não sei se sou gente,
não sei se sou crente,
não sei de onde venho
nem para onde vou.

Mas sei o que sou.

Um pouco de ti.
um pouco de mim.
um pouco do outro
que por mim passou.

14/04/1968
Ler poema completo
Biografia
Poeta desde os quinze anos, publiquei o meu primeiro livro aos sessenta e cinco: - Ponto Final - Edição do autor. Lançamento em Vila Real. Após 2005 publiquei mais quatro livros de poesia: - Arca da Aliança - 2009 - Editora Scortecci, Brasil - Lançamento São Paulo. - De Olhos bem Abertos - 2012 - Editora Delicatta, Brasil. Lançamento na Bienal do Livro de São Paulo. - Pontas Soltas - 2016 - Chiado Editora. Lançamento em Lisboa. - As Coisa da Vida, A Vida das coisas - 2017 - Edição do Autor. Licenciei-me em Economia pela Universidade do Porto em 1970, assumindo ao posteriormente responsabilidades de gestão em sociedades de grupos empresariais tais como o Grupo Nestlé. Exerço ainda a atividade de Consultor de Gestão. Amador e amante de poesia, nunca deixei de escrever, criando muitos dos meus textos para serem declamados em momentos importantes ou simbólicos da vida da família e das comunidades a que fui pertencendo.

Poemas

2

E regressei às origens

Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.
Confúcio



Amar.

No princípio era o verbo.
Um verbo gerado numa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada.
Nela as areias formavam multidão
que lavrava, comia, pensava,
prometia, calava.

Certo dia,
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega
chocaram de frente.
Retiraram as vendas
e olharam-se
olhos nos olhos.

Foi em terras do Gerêz.
E viram como isso é bom.
E foi de vez.

Enleando-se,
as duas areias morreram
para que pudesse nascer
uma pedrinha maior
que o mar já não podia arrastar.

Enleando-se,
Foram aos poucos morrendo
cada dia
para que pudessem nascer
rochas de tamanho maior.

E ontem,
passando em passeio
nessa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada,
o que vi.
Um rochedo virado montanha
que nenhum abalo derrubará.

Trepei a nossa montanha.
Sentei-me no pico, em silêncio,
olhando o horizonte.
Ao longe
eu vi fascinado
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega,
olharem-se olhos nos olhos.

Na eternidade, olhando do Céu
essa nova rocha virada montagem,
seja eu quem for, esteja onde estiver,
serei feliz de novo.

11/11/2017
www.manuelpaulo.com
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E regressei às origens

Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.
Confúcio



Amar.

No princípio era o verbo.
Um verbo gerado numa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada.
Nela as areias formavam multidão
que lavrava, comia, pensava,
prometia, calava.

Certo dia,
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega
chocaram de frente.
Retiraram as vendas
e olharam-se
olhos nos olhos.

Foi em terras do Gerêz.
E viram como isso é bom.
E foi de vez.

Enleando-se,
as duas areias morreram
para que pudesse nascer
uma pedrinha maior
que o mar já não podia arrastar.

Enleando-se,
Foram aos poucos morrendo
cada dia
para que pudessem nascer
rochas de tamanho maior.

E ontem,
passando em passeio
nessa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada,
o que vi.
Um rochedo virado montanha
que nenhum abalo derrubará.

Trepei a nossa montanha.
Sentei-me no pico, em silêncio,
olhando o horizonte.
Ao longe
eu vi fascinado
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega,
olharem-se olhos nos olhos.

Na eternidade, olhando do Céu
essa nova rocha virada montagem,
seja eu quem for, esteja onde estiver,
serei feliz de novo.

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