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Poema do desassossego

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer,
Ter medo de suas lembranças.

Mário Quintana


Basta.
Fazer coisas não aquece o coração.
Não o meu. Tão pouco o teu.

Que aquilo que resta
do desassossego do fazer
não acrescenta um côvado
à lembrança daquele
que cruza comigo. Ou contigo.

Mas faz o que tens a fazer
sem medo das tuas lembranças,
que são a origem e termo do que és.

Eu sei quanto é custoso.
Eu sei que as bolas de sabão
que eu lançava ao ar
quando criança,
nascidas numa lata velha
achada no lixo do meu quintal,
foram tropeços
quando penetrei
no mundo do fazer.

Fi-las explodir, uma a uma,
na crença de que seguia
o caminho certo
para ser crescido.

Até um dia,
porque era sábado,
em que parei para pensar.

Foi quando descobri
que fazer coisas
iguais ao que fazia
após a explosão
das bolas de sabão,
se for por gente,
com gente, para gente vizinha
aquecem, essas sim,
o coração.

É por isso, amigo,
que segredo-te ao ouvido
num sussurro:
apesar do que resta
do teu desassossego,
faz o que tens a fazer
sem medo das tuas lembranças.
Que elas são a origem e termo do que és.

25/11/2017
www.mauelpaulo.com
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Biografia
Poeta desde os quinze anos, publiquei o meu primeiro livro aos sessenta e cinco: - Ponto Final - Edição do autor. Lançamento em Vila Real. Após 2005 publiquei mais quatro livros de poesia: - Arca da Aliança - 2009 - Editora Scortecci, Brasil - Lançamento São Paulo. - De Olhos bem Abertos - 2012 - Editora Delicatta, Brasil. Lançamento na Bienal do Livro de São Paulo. - Pontas Soltas - 2016 - Chiado Editora. Lançamento em Lisboa. - As Coisa da Vida, A Vida das coisas - 2017 - Edição do Autor. Licenciei-me em Economia pela Universidade do Porto em 1970, assumindo ao posteriormente responsabilidades de gestão em sociedades de grupos empresariais tais como o Grupo Nestlé. Exerço ainda a atividade de Consultor de Gestão. Amador e amante de poesia, nunca deixei de escrever, criando muitos dos meus textos para serem declamados em momentos importantes ou simbólicos da vida da família e das comunidades a que fui pertencendo.

Poemas

2

E regressei às origens

Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.
Confúcio



Amar.

No princípio era o verbo.
Um verbo gerado numa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada.
Nela as areias formavam multidão
que lavrava, comia, pensava,
prometia, calava.

Certo dia,
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega
chocaram de frente.
Retiraram as vendas
e olharam-se
olhos nos olhos.

Foi em terras do Gerêz.
E viram como isso é bom.
E foi de vez.

Enleando-se,
as duas areias morreram
para que pudesse nascer
uma pedrinha maior
que o mar já não podia arrastar.

Enleando-se,
Foram aos poucos morrendo
cada dia
para que pudessem nascer
rochas de tamanho maior.

E ontem,
passando em passeio
nessa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada,
o que vi.
Um rochedo virado montanha
que nenhum abalo derrubará.

Trepei a nossa montanha.
Sentei-me no pico, em silêncio,
olhando o horizonte.
Ao longe
eu vi fascinado
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega,
olharem-se olhos nos olhos.

Na eternidade, olhando do Céu
essa nova rocha virada montagem,
seja eu quem for, esteja onde estiver,
serei feliz de novo.

11/11/2017
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E regressei às origens

Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.
Confúcio



Amar.

No princípio era o verbo.
Um verbo gerado numa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada.
Nela as areias formavam multidão
que lavrava, comia, pensava,
prometia, calava.

Certo dia,
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega
chocaram de frente.
Retiraram as vendas
e olharam-se
olhos nos olhos.

Foi em terras do Gerêz.
E viram como isso é bom.
E foi de vez.

Enleando-se,
as duas areias morreram
para que pudesse nascer
uma pedrinha maior
que o mar já não podia arrastar.

Enleando-se,
Foram aos poucos morrendo
cada dia
para que pudessem nascer
rochas de tamanho maior.

E ontem,
passando em passeio
nessa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada,
o que vi.
Um rochedo virado montanha
que nenhum abalo derrubará.

Trepei a nossa montanha.
Sentei-me no pico, em silêncio,
olhando o horizonte.
Ao longe
eu vi fascinado
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega,
olharem-se olhos nos olhos.

Na eternidade, olhando do Céu
essa nova rocha virada montagem,
seja eu quem for, esteja onde estiver,
serei feliz de novo.

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