marcioulisses

marcioulisses

n. 1979 BR BR

Amante da Literatura, Poeta, Biólogo, Mestre em Biologia Vegetal.

n. 1979-05-04, Carpina, PE

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RESILIR

Entre o conforto que enche
Meus dias de amor
Calor, cheiros, cores, sabores
Dormir    acordar

Sonhar pra viver
Atravessar nuvens júlias
Ainda que pai natimorto
Sofro

Sempre me perseguirá
A brisa felicidade  
O acalanto da bondade
Aonde for me procurará

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Poemas

16

APESAR DE TI

Mesmo com toda desilusão
Por todo mal que fora feito
Não me verás sucumbir a tua desonra
Nem após ser praticada toda traição

Vou voar sobre teu desprezo
Ser amigo terno e incondicional aos meus
O mundo tem muito mais do que mereço
Guarde teu sorriso torpe àqueles seus
189

HOMENAGEM À ARARA VERMELHA [para Cida Pedrosa]

Quando eu estava indo à forca
Ela me ligou
Desesperado lhe disse ao canto da boca
Minha família me pegou

Mas ela sabia que eu não ia perder a cabeça
-Tenha calma, meu querido, vai dar tudo certo.
Então a inquisidora me inquiriu à força
Interrogou-me sem ouvir um por cento

Sentenciou: Você está bem. vai ficar conosco
Não tinha jeito era um tribunal de exceção
Tirei a roupa do trabalho, entreguei, celular, carteira, rosto
Mas mesmo triste, confiava na força daquela calma expressão

E no fim disse a douta:
Você sabe que eu não deveria estar aqui
Mas vou esperar tranquilo até sair
Para vê-la: A arara vermelha

155

MAURITIA

No fundo de teus olhos não vejo só a retina
Enxergo verde, azul, amarelo
Lembro das noites de Madri
Mesmo sem nunca tê-las bebido

Sinto o frio de Barcelona
As cores do Picasso
As ondas de Van Gogh
E o calor das nossas vozes

Espreguiço-me e vejo tua silhueta
Quero detê-la sob as minhas intenções
Respiro e me engasgo de perfume
Regurgito e me vem na testa teu nome

Ó querida amada, amiga, feliz, e que me faz cantar
Me deixa tocar minha música sob tua influência
E me permitas as noites de onde fores
Que te prometo a eternidade do meu sorriso
185

REI NANÁ [Homenagem a Naná Vasconcelos]

O maestro dos tambores do nosso carnaval
O mestre do batuque
O dono do som das ondas do mar
O timoneiro do navio negreiro

Que trouxe o samba da Bahia a Pernambuco
E depois ao Rio
Já antes quando ele era Semba
O espírito de Naná já tamborilava por aí

161

COMO CALDO DE CANA

É assim na hora
Feito caldo de cana
Que o pistoleiro olha
Mira
E atira
A flor
De aço
Sobre o peito inchaço
Sobre a vida
O cheiro do Jasmim
O cheiro do meu vô
Ah que flor
Ai que dor
Sob minhas lágrimas
Sob meus pés
Sobre minha Estela
E que amor
Guia-me
Sempre
Em busca do meu passado
Das minhas glórias ancestrais
Da princesa Maria
Do rei Constantino
Do patrono José do Livramento
Ah vidas passadas
Ai amores passados
Ai paixões futuras
Terrenas e santas
Como o deus da lua
179

A VOLTA DO VENTO DO MUNDO

Pesquisarei sempre as voltas que o tempo traz
Qual sanfona de 120 baixos do Rei Luiz
Do sertão desbravado pelos brancos e bravado pelos originários
Como os Marcelinos dos açores a Timbaúba e Nova Iorque

Mas nem sempre são flores, há os que são cuspidos pelos seus
E depois corrompidos de São Miguel a São José, ou corruptores
E não se importam em separar filhos de pais, por dinheiro
São nômades do sentimento alheiro, vivem de apagar memórias... E vendê-las
180

COMO AQUELE QUE VIVEU PARA CONTAR E COMO AQUELE QUE VOLTOU PARA CANTAR

Como aquele que viveu para contar, e como aquele que voltou para cantar...
Ele vivia, como cantou Dylan
Sobre as águas
Conquistando o pão pra ti

E dessa forma viveu seus áureos anos na terra
Compartilhou peixes, pão e a verdade
Entrecortou suas palavras como diamantes
A sublime paixão pelo divino que há no humano

Porque ele aqui esteve para nos encantar com seu brilho
Com sua distinção de cavaleiro celestial
Quando destrinchava todas as emoções existentes
Principalmente aquelas dos olhos de sua mãe

É a vida aqui também como lá
Aqui no sertão a gente planta na terra seca e colhe frutos cheios de suor
E ainda assim aquele o sertanejo é resiliente, forte, valente, sonhador e pensante
Como os adivinhadores de Buíque – que eu conheci de uma forma tão mágica

Como me fizeram crescer e aprender a observar o mato como a UFPE não o fez.
Os olhos claros daquela gente negra
Era o povoado todo uma família Siqueira
Não um latifúndio, sim um vilarejo de sítios

Como a poesia transcendente do nosso avô Luiz Gonzaga
E lá no sertão da Zona da Mata Norte, de Marcelinos de Lima e Constantinos da Silva

173

O ÚLTIMO CARNAVAL

O carnalval da minha janela cega
de onde vêm as fantasias
donde vem o berro, a algazarra
donde vem os beijos e as heresias
Dois anos de mortos
Dois anos de escuridão
dois anos sem a alegria de Carlos
Sem a safadeza gostosa de conceição
Não, não, não, não
O mundo não acabou
Ou pelo menos, é o carnaval, o purgatório
não, não não não não
Não é o juízo final
Se fosse não me apaixonaria por Natália
Pode haver amor no inferno?
Negra cor de ouro
Leva meu coração pela Ribeira
Vou atrás até chegar à prefeitura
Emendou os beiços com uma loira
E agora… é cana, é pau do índio
É da cerveja 3 por 15
O que faço? Vou pra casa?
Claro que não
Não não não não
Amor de carnaval não acaba em quatro dias
Depois a encontro na subida de um bloco
Tum maracatu, tum maracatu
Tum maracatu, Tum maracatu
Lá vem nossos ancestrais escravizados
É a sua guerra, Tum maracatu
O batuque é muito forte
Domina até alemães, uma gringa gira, gira,
Pomba gira, Pomba gira,
Um carioca se atira no chão,
O mestre o levanta, o ampara,
Manda cuidarem dele
Que logo depois levanta no embalo
Tum maracatu, tum maracatu
Portugueses boquiabertos,
Com medo, mas não conseguem não entrar na dança
Acompanham o ritmo, dois passos, mãos unidas pra cima
Tum Maracatu, tum maracatu
Agora estou louco por Daniela,
Sou tímido, mas ao cruzar o olhar com o meu
Danou-se, quase engoliu a minha boca,
A paixão foi repentina, nunca vi um beijo desse
Fomos para frente da Pitombeira
Um samba dos diabos tava rolado
Era impossível ficar parado
Passava a escola Patusco
Nossa senhora a cachaça subiu no quengo
Virei passista, juntou gente
Já tinha gente, junto multidão
Que me levantou como campeão
Foi bom mas Daniela sumiu
Puta que pariu
Começar tudo de novo
198

O PRIMOGÊNITO

Do prato do samba
Nasceu o menino
Teorizando a Física
E a fé do candomblé

A graça e honra de vir de Canô
Zeca, Dédé, toda àquela família real
Além do poeta que construiu o mundo em versos
O vi em shows cuja ternura nos colocava na família

Elogios, desnecessários,
Carinho e amor por toda sua árvore genealógica de Araçá
Sabendo-o cidadão do mundo
Mas que o Brasil todo é um só

Nossa luta através da poesia, da cortesia, e da simplicidade
A insustentável lindeza do ser
How beautiful could a being be.

 
*Dedicado ao meu irmão em admiração Moreno veloso.
183

ESCORPIÃ

Escorpiã, escorpião serei eu ao flamejar em teus olhos
Oh como quero, como quero
ser feliz envolto ao teu ferrão

Ao lado de ti
Assim que tu me queiras
E que o mar tenha me elegido para te amar
Uma paixão arrebatadora

Como em nossa juventude no Janga
Você tão mulher
Eu tão triste, tão fraco
Não podia com um ser como o teu

Saudade do tempo que não volta
Do corpo que não volta
Das conversas perdidas
Do amor que não existe mais em mim
195

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