O beijo dessa tarde de domingo chegou gelado e ríspido, como quem vai dar um abraço e não sabe onde tocar primeiro. E os olhinhos de janela são inúmeros, rodeiam a minha face, mas não sei se percebem nos meus olhos, quais são os olhos que eu quero olhar, ou se capturam, mesmo que ligeiramente, alguma fagulha da dor eminente desse terceiro andar. E se captam, deixam de lado, rapidamente, seguem exalando a solidez e indiferença dos prédios. Quase que arrogantes, por estarem tão perto das estrelas. Nenhuma proximidade ilusória dos astros os deixam menos irritantes, nem o reflexo dessa lua brilhosa em suas janelas me salva desses dias de tédio. Não tem pra vizinho charmoso que cruzou o olhar com o meu, e me perguntou se por acaso, aqui em casa a gente não viria a ter certo remédio… Absolutamente tudo aqui é um fardo, e saber que essa permanência no pagamento do aluguel é um fato, tornam a mim e meus objetos, meus objetivos, cada vez mais claustrofóbicos. E, cogito a tua visita nesse ambiente, quer dizer, se você, por uma sútil coincidência, passasse aqui durante um dia quente. Se tu por descuido deixasse os teus sentimentos em evidência, se no teu peito houvesse um lugarzinho pra mim rodopiar. Se você acordasse da inebriação dos teus pensamentos e afazeres, e puxasse a minha mão, me fizesse apalpar todo o relevo e inclinações que te moldam, desde o teu primeiro despertar, seja ele místico ou intelectual. Quero ver que gosto tem o que te nutre, e o que te devora a carne. E te ler sem sinopse, ver-te decepcionar todas as minhas hipóteses. Provar sem ter vontade de engolir, o teu lado ruim, enquanto toca a versão mais tosca possível de qualquer coisa que você insiste em chamar de samba. Mas, tudo isso ainda só seria se o sol não resolvesse deixar de bater mais cedo na minha varanda, se a gente tivesse urgentemente que salvar o planeta coreografando uma dança. Se os olhinhos de janela ficassem semicerrados, de levinho, pra ver, curiosamente, a gente namorar. Se o teu afago desconhecido e a tua presença terna me ajudasse com a mudança de sentimentos, me confortasse com a transição de lugar. Se a minha paisagem não fosse só concreto e cimento, se ainda houvesse um quintal e uma rede, e o teu tempo livre pra tu de mim se ocupar. Quem sabe com essas condições, o tormento cessaria, essa chatice cansaria da minha cara disfarçada, que parece nunca se afetar, e pousaria em outro andar.
O beijo dessa tarde de domingo chegou gelado e ríspido, como quem vai dar um abraço e não sabe onde tocar primeiro. E os olhinhos de janela são inúmeros, rodeiam a minha face, mas não sei se percebem nos meus olhos, quais são os olhos que eu quero olhar, ou se capturam, mesmo que ligeiramente, alguma fagulha da dor eminente desse terceiro andar. E se captam, deixam de lado, rapidamente, seguem exalando a solidez e indiferença dos prédios. Quase que arrogantes, por estarem tão perto das estrelas. Nenhuma proximidade ilusória dos astros os deixam menos irritantes, nem o reflexo dessa lua brilhosa em suas janelas me salva desses dias de tédio. Não tem pra vizinho charmoso que cruzou o olhar com o meu, e me perguntou se por acaso, aqui em casa a gente não viria a ter certo remédio… Absolutamente tudo aqui é um fardo, e saber que essa permanência no pagamento do aluguel é um fato, tornam a mim e meus objetos, meus objetivos, cada vez mais claustrofóbicos. E, cogito a tua visita nesse ambiente, quer dizer, se você, por uma sútil coincidência, passasse aqui durante um dia quente. Se tu por descuido deixasse os teus sentimentos em evidência, se no teu peito houvesse um lugarzinho pra mim rodopiar. Se você acordasse da inebriação dos teus pensamentos e afazeres, e puxasse a minha mão, me fizesse apalpar todo o relevo e inclinações que te moldam, desde o teu primeiro despertar, seja ele místico ou intelectual. Quero ver que gosto tem o que te nutre, e o que te devora a carne. E te ler sem sinopse, ver-te decepcionar todas as minhas hipóteses. Provar sem ter vontade de engolir, o teu lado ruim, enquanto toca a versão mais tosca possível de qualquer coisa que você insiste em chamar de samba. Mas, tudo isso ainda só seria se o sol não resolvesse deixar de bater mais cedo na minha varanda, se a gente tivesse urgentemente que salvar o planeta coreografando uma dança. Se os olhinhos de janela ficassem semicerrados, de levinho, pra ver, curiosamente, a gente namorar. Se o teu afago desconhecido e a tua presença terna me ajudasse com a mudança de sentimentos, me confortasse com a transição de lugar. Se a minha paisagem não fosse só concreto e cimento, se ainda houvesse um quintal e uma rede, e o teu tempo livre pra tu de mim se ocupar. Quem sabe com essas condições, o tormento cessaria, essa chatice cansaria da minha cara disfarçada, que parece nunca se afetar, e pousaria em outro andar.
838
onda de dentro
sobre a cama com as pernas tensionadas, depois de repetir o teu nome entre alguns suspiros breves, emanados de uma voz rouca. onda de dentro, impulsionada por frenesis. a força dessa maré sou eu mas é o mesmo mar que te atrai, te arrasta, e incide que você navegue por aqui. as minhas águas pintadas com o brilho do sol e o sal marinho, pra banhar-lhe o rosto e na tua boca calar, enquanto com o olhar, você percorre esse caminho. te devora pois também quer sentir o teu gosto, fazes sentir afogar, roubando-te o ar. explora o que tu quer e se revitaliza nesse azul, permite que molhe teu corpo inteiro, lave-o por dentro. se tem receios não entra, mas se for entrar, vai de corpo e coração nu.
505
para Eliza
Eliza, voltei, mais teu e menos triste, Eliza, voltei, banhado e salgado das águas de Recife, Eliza, sim, meu bem, eu voltei pois viajei só pra voltar e te afirmar que fui lá apenas tentar desfazer o nó que teu rosto fizeste uma vez só antes que meu corpo resistisse mas, Eliza, escuta, voltei com ele maior, ainda lembrando da conclusão, os lábios molho e agora, te escrevendo, os meus membros e o danado do amaranhado são um só Eli, e você, você segue sendo diante dos meus olhos o recorte do mundo mais lindo que existe
267
acontecimentos pontiagudos
alguém mordeu um pedacinho da lua hoje, dois gatos brincam no calçamento deserto agora, um casal degusta vinho em uma varanda ambientada sonoramente por música ruim, alguém do andar de cima escreve sem disposição e ânimo pra tal coisa, uma (não) mãe cochila com fome enquanto os filhos completamente adormecidos tem os seus estômagos minimamente alimentados e o pai sei lá o quê. os fatos do mundo, sendo tenros ou malditos, se expõem a mim, se colocam sobre os meus olhos, se espalham dentro dos meus ouvidos, irritam o meu nariz com o seu odor, amargam minha língua por terem um sabor hostil, amassam a minha pele, quase lembrando um toque viril (rude) e o meu dar de ombros pra todos eles contrasta com a vontade de adentra-los, o que me faz não descer as escadas e ir até a rua gélida fazer carinho nos felinos? que impedimento prudente não me deixa entrar no grupo de Whatsapp do condomínio e postar a playlist das cinco melhores músicas para ouvir enquanto se experimenta vinhos romanticamente, pra que indiretamente aquele vizinho veja e passe a duvidar da musicalidade dos seus hits preferidos, e que tipo de pudor me censura e influi pra que eu não confesse o quanto os escritos desse cara me tocam? em que parte da confissão eu deixo escapar que não é só na produção literária que ele faz surtir efeitos-fagulhas em mim? como eu desfaço o nó que fica na minha garganta quando eu durmo de barriga cheia, ouvindo ruídos do estômago alheio ecoando na minha cabeça, deixando um vazio no meu coração, e ainda...trazendo-me inúmeras vezes o valor exato da quantidade de dinheiro que eu guardo em minha carteira. com que Deus eu grito enquanto culpo-o por um filho da puta simplesmente conseguir morder a lua no tempo em que essa família segue dias sem comer? cerrar os punhos enquanto eu me refiro à uma divindade vai me mandar direto pro inferno? qual é a cor da caneta celestial que me darão pra eu assinar minha penitência de permanecer aqui e seguir vendo o que eu já vi, dormir novamente sabendo do que eu sei, olhar no espelho mais uma vez e ver a insignificância que eu sou diante dos acontecimentos pontiagudos que me perfuram o peito todos os dias?
528
parte do corpo
Me dói o peito, barriga e cabeça. E também dói algo a mais em mim, como se fosse parte do corpo o amor. Que com sua desconhecida anatomia, fica fragilizado, esfria. Dá direção aos outros órgãos e não se identifica com o cérebro ou coração. Esses deixa pedidos, com o funcionamento falho, aflitos. Escolhendo o estômago como intermediário e os olhos para fugir de conceitos abstratos, que pra um órgão sentimentalista são um fardo.
537
Cicatriz
eu vomito nos seus sapatos todas aquelas palavras que eu ensaiei pra te dizer, a vizinha dança ao som de um rock de vinil, no andar de cima. enquanto o céu parece desabar sobre a minha cabeça. eu não sou capaz de reparar se hoje está uma daquelas noites estreladas. como se a minha frustração romântica fosse um quadro, eu te vejo de costas, com a pele desnuda, dando as primeiras pinceladas. mesmo com essa tela sendo preenchida por você, mesmo com essa expressão de sentimentos indigestos sujando os teus calçados, sinto que algo no teu dar de ombros te trai. a mansidão das tuas palavras escorre agora pelas minhas mãos, passa por entre os meus dedos, e goteja sobre os meus pés, seguindo o seu fluxo no chão. a hostilidade que essa cortesia exala, arranha a pele que outrora você quis sentir no paladar. e eu insisto em deixar tuas marcas no meu corpo à a mostra, que o vento gelado as toquem, que os círculos sociais as comentem, e que o meu constrangimento me engula viva. que consuma a mim e as minhas entranhas o maldito carma que tanto me deseja, mas essa cicatriz ativa, baby, essa eu não vou esconder.
478
moléculas
eu me encontro estirada sobre um lençol ao sol e esmagadoramente oprimida pela sua ideia de amor romântico. o piedoso líquido de ternura me deixou ébria. e agora parece que eu não aprendi a começar dias sem a concha protetora do nosso possível entrelaçamento quântico.
419
mistura
fujo dos teus afagos mas quando sozinha te busco, te trago, me inclino com manha, desnudo a pele pra tu acariciar. as dores corpóreas de outrora vão longe embora quando o teu timbre arranhado me diz que vai passar eu já não me recordo de antes, não lembro de você andando calado o teu efeito entorpecente adormece todos os meus antecedentes estados. e faz-me esquecer do fardo que é querer ler e tatear todos os teus aspectos. ver-te e sentir o teu cheiro de perto, misturar a tua pele com a minha até não saber ao certo onde é tu e aonde começa eu.
408
fica pra jantar
a objetiva praticidade desse apart me insulta, cada minuto um pouco mais. esse nude nas paredes paira sobre os meus olhos e eu me pergunto: o quão rude pode ser uma decoração? que rigidez silenciosa as coisas inanimadas podem provocar? o ar rodopia lá fora e parece não se sentir atraído o suficiente pra ultrapassar essas janelas. eu penso em te chamar. eu olho as outras acomodações e todas estão identicamente distribuídas com a mesma característica prática, séria e desconvidativa. não há casebres no entorno. você devia vir conferir como é feio. ou tentar me ajudar a achar um meio de não preencher o meu tempo pensando em sumir daqui. posso até deixar algo no forno e te oferecer um tanto. você sentar no sofá, e nós dois, sincronizadamente ressaltarmos que isso não é um jantar romântico. sua presença fazendo as paredes ficarem, de maneira harmoniosa, menos pálidas. passando até a se desculparem, por aquela vez que me esfregaram na cara a minha postura recente, escapista, absurdamente ociosa. você observa a conciliação. teus pés adentram para ir conhecer o restante da casa. cê repara que é complicado pra mim esse negócio de se organizar, e que o sol, por volta das quatro e meia, bate na metade do meu colchão. os livros que marcaram o meu batizado de leitora precoce estão empoeirados e empilhados ao lado de um de poesias que tu me deu. a gente fala sobre o que eu achei da narrativa e o teu olhar tateia a minha quantidade inútil de roupões. então, eu me lembro que ia te oferecer algo pra comer, da minha falta de tato com visitas, em como minha desenvoltura social se auto reprime quando eu tô perto de você, também me vem em mente todas as refeições que seriam agradáveis naquele momento, e um detalhe importante: nenhuma delas eu sei fazer.
411
corrida
Enquanto a mente busca um equilíbrio estável sobre os acontecimentos recentes, separar a vontade de tudo, ou quase tudo que sente. Não é ardendo de vontade que a gente consegue o que quer.. E muito menos se o seu querer for aquele papel, que te promete, te engana e depois desmente. Dá pra esperar pra ver quem ganha uma corrida, onde todas as apostas são um tiro no escuro? Será que é assim que se tornam atrativos os jogos de azar? em quem você apostaria? Um coração acelerado atropelando tudo, correndo com seus pés descalços, acho que nem lembra o porquê de estar aqui. Corre com os olhos baixos, cansados, parece viver constantemente com uma necessidade de dormir. No entanto, é um competidor ágil, tem os seus joelhos ralados, mas corre rápido como ninguém, a sua distração possui uma dualidade, fica quase que hipnotizado com a aglomeração de pessoas, agitadas, eufóricas e, claro, torcendo pelo miocárdio. O que quase lhe faz parar de bater, por alucinar diante de tanta vaidade, também impulsiona a ganhar essa afobada competição. Não vai querer fazer feio em meio a tanta torcida. E dessa maneira, com essas pretensões, ele corre, corre atropelando pernas e bandeirinhas do caminho. Todo mundo ver na pista um coração correndo, com seus repetidos passos rápidos, excêntricos, que ameaçam lhe partir.