Abstrações 2
No sótão da igreja
Habitava tranquilo pássaro.
Dia desses
Incapaz de resistir
Às inquietações
Que atitude lhe cobravam
Transformou-se
em ausente traço.
Abstrações 1
De inimagináveis devaneios
Surge a obra do pintor
Afinal o que é a sua tela
Senão
Uma incompreensível carta
Escrita á maõ...
Sedução
Minha paixão que ora se revela
Na vastidão do abraço sereno
É o amor na postura mais bela
É se entregar de corpo e alma, pleno.
Por ti esqueço infames mazelas
Espera, medo, solidão, tormento...
Numa clareira ou à luz de velas
Tu és o fruto do qual me alimento.
E sigo avante, tento desvendar
Tua essência, volúpia de mar.
Se me provocas por que afinal
Não te possuo, beleza imortal?
"A poesia, caro, qual a lua
Só te inspira, jamais será tua".
Telhados de vidro 2
I
Ardiloso é o tempo
Nas tramas do coração
Na dor é esquecimento
Do eterno a negação...
II
O silêncio é santuário
Guardado pelo bom senso
Atributo necessário
Pois se falo, logo penso.
III
Não há dor que se compare
Àquela do ente ausente
Que a Virgem Mãe nos ampare
Que Deus esteja presente!
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Haikai
Delírios de neve
Embriagados de vinho
A lareira acesa.
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Outono
Antes que o frio
Do vindouro inverno
Enrijeça os meus
Sentimentos
Desfolharei todos os
Temores
Que Insistem em fincar
Raízes adversas.
E em cada pedaço
De silêncio
Que o vento levar
Repousará um verso
Que servirá de elo
Entre os amigos ausentes.
E o inverno será
Aconchegante
Pois com os frutos
Produzidos no outono
Alimentarei a minha alma
Errante.
Releituras
Fiz cuidadosa releitura
Em refúgios de alvoradas
E descobri na partitura do
Tempo
O que me agonizava:
Um sustenido improvisado
Na pausa que a melodia buscava.
Objetos esquecidos
De todas as minhas mortes
Uma trouxe desalento
Não foi morte anunciada
Chegou às asas do vento.
Como quem tira o domingo
Pra visitar distante ente
Não trouxe qualquer bagagem
Esqueceu vários pertences:
- Uma inesperada lágrima
- Um fugitivo silêncio
- E um relógio adormecido
Sob a saudade e o tempo.
São tantas as minhas mortes
Mas nunca morri por dentro.
Seixo
Burilaste a pedra fundamental
acomodada às margens
de uma visão lunar,
e seixo inseguro
desvendei pequenos rios
sem nunca atingir o mar.
Enganos
Engano a morte todos os dias
com a aparência suicida
daquele que garimpa versos
como o próprio ar que aspira.
Alguns elementos inspiram
essa vigília:
- o odor imprevisível das marés
nada submissas
- as casinhas perdidas na imensidão
das campinas
- o aconchego colhido nas pessoas simples
numa cidadezinha qualquer de Minas
(por que me intrigam?)
- os últimos fragmentos do poente
deitando atrás da colina...
Engano a morte
como quem, ansiosamente,
procura a vida.