Mel de Carvalho

Mel de Carvalho

n. 1961 PT PT

Pág. pesssoal http://noitedemel.blogspot.com/

n. 1961-01-23, V.F.Xira e/ou Peniche

Perfil
12 436 Visualizações

voz reflexiva

devolvo
o gesto repartido dos segundos e minutos
findos
em prenúncios evidentes de 
vazio

dedilho o inesperado
a filologia do momento, refervo louros e cascas de alhos 
em tons de prata no concavo bronze do caldeirão
de duas patas. 

soam as castanholas
um passo doble, um tango argentino, uma sonata…

da parte medial do segmento melódico a voz já tomba
em forma átona
- pronuncio-me in acto póstumo:
belatriz
ninfa duvidosa “seda carmim, botão de rosa”
caminhante sem fim, borboleta errática, 
de um estado de alma que se deseja ser
plena existência. 

ágape serei da incerteza…

na hora (in)certa, no limiar do gesto
auspicioso gesto
em que tomo minha a fera pela ponta pontiaguda dos cornos
em que me encaixo na embocadura da testa alta da própria besta
e aperto braços por sobre queixada e mandíbula

e a espuma enraivecida escorre os cantos da boca
balanceio quadris ao vento forte
olho a arena num derradeiro vislumbre
exalto a fé
das multidões aficionadas “olé, olé..."
que de pé me aplaudem em palmas
em brados
em interjeições de aplauso: "bis, bis…"

a meus pés agora
a terra envinagrada na tentativa vã de não coalhar o sangue do futuro
o pouco que,  incontaminado, me resta da virginal candura
do que fui.  do que era…
anátema criatura sou, nesta manhã engano, se não me vejo reflexiva em mim!
em mim própria, toureira e fera...

a lareira crepita ainda.
acordo. que faço afinal aqui?...
Ler poema completo
Biografia
Maria Amélia de Carvalho Luís (Mel de Carvalho) nasce em Portugal, Lisboa, a 23 de Janeiro de 1961.
Licenciada em Sociologia do Trabalho pela Universidade Técnica de Lisboa, em 2007 inicia Doutoramento na Universidade Nova de Lisboa em Ciências da Educação.
A par da actividade profissional na área social e educativa, publica pela primeira vez os seus trabalhos (da poesia aos contos…) na Internet em 2006.
Em 2007 dá à estampa o seu 1º livro, "Sibilam Pedras na Encosta", Corpos Editora.
Em 2008 lança o seu 2º livro, "No Princípio era o Sol", Edium Editores

Do seu curriculum literário fazem parte várias participações em Colectâneas/Antologias, nomeadamente:

- Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Vol. XVI, "Poiesis", Ed. Minerva, 2008;
- Antologia Escritores Brasileiros - e Autores de países em Língua Portuguesa , 8ª Edição, 2008;
- Antologia Escritartes, 2008;
- Antologia Luso-Poema, 2008;
- II Antologia de Poetas Lusófonos, 2009;
- Antologia "Quem acrescenta um ponto ....", 2009.
- Colectânea "A arte pela escrita", 2009;
- Colectânea "Contos Cardeais", 2010.
- Colectânea de Prosa e Poesia "A arte pela escrita, Três", 2010.

Para além dos seus blogs, colabora com diversos sites de escrita, jornais e revistas. Prefaciou e apresentou várias obras.

Poemas

1

que farei?

Que farei
quando tudo arde
e os restolhos gemem
e são lama densa

chão que me não és?

que farei das rosas
das ínfimas flores desta floresta
dos regaços
dos verbos

e desta trança
que, dia a dia,
me cobre resguardando
a carne púrpura da minha nudez

que farei de mim
que responderei de mim
aos olhos inquisitivos dos abetos
e dos ovos que descubro nossos
a pulsar de vida e canto
no coração dos pântanos?

que farei
da minha túnica de musselina branca

e do meu sonho de esvoaçar vagarosa e branda
ao som da banda sonora
de nossas ancas?

que farei a esta insistente palpitação
febril da terra
das bacias de águas férteis
das seivas coralinas do meu espanto?

que farei se
a minha entrega não te basta
e não te traz?
e me és vaga, verbo, canto, no mar de meu olhar?

e se
do amor não sei mais que o silêncio
a estrangular-me a aorta,
a atarracar-me abdominal, as costas,
e destas, vértebras de sílex, espadas de fogo, espinhos,
artefactos de pedra e osso,
a infligir-me verdades cruas de sal?
1 271

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.