E para formar o rio O sereno se consumiu Em suas margens fez brotam árvores poéticas Impregnando cheiro de poesia no ar Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.
E o sabor da poesia É saudável Palatável Colorido Incomparável.
Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais. Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais. Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras. Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)
Desperto. Percebo alguma claridade, Ao meu lado ainda um saldo do teu calor. O perfume nas cobertas entranhado. No banheiro teus pertences espalhados.
Olhos semiabertos espiam a rua, Nem mais um passo teu, Na memória a mais linda imagem crua, Teu gosto doce nos lábios meus.
Busco motivos pra enfrentar este dia, Imagino seus cabelos desalinhados, seu rosto, seu sorriso, Busco no espelho meu olhar sem alegria Pensamentos de mim decolam sem juízo.
Consome-se em teu dia atarefado. Nem notícias tuas consigo receber. Dou passos te imaginando ao meu lado Buzinas, barulhos, correria nada me faz te esquecer.
429
Defumando versos
Tirou do violão, talvez a derradeira nota. A voz não respondeu. Mudo, apoiou o rosto no próprio instrumento. O fogo ainda o aquecia. A parede da alma amarelada. O tudo de mãos dadas com o nada. A fumaça aumentava Preenchendo cada vazio da poesia da sua vida, Defumando os versos, provocando tosse na rima. O pensamento mal cavalgava lembranças De um alfabeto extinto. De súbito soprou a vela Percebendo a complexidade escura do labirinto. Apenas vestígios de carvão. Nas cinzas, o destruído eterno. Nada mais das chamas galopantes Vistas pouco tempo antes. De costas deitou-se no chão. Cobriu o rosto com o próprio chapéu. De qualquer forma não viria o céu. Nos olhos apenas nuvens formando véus.
332
Protagonize
Pegue o vento com as mãos. Comprima, encha e solte o balão. Dê mais altura à pandorga. Finja que hoje é tua folga. Cante qualquer besteira. Apanhe a flor na roseira. Vibre com as conquistas. Aceite outros pontos de vista.
Prove a comida, Elogie a cozinheira. Passe pelo muro de cabeça erguida. Não tenha ganâncias descabidas No espírito é que está a nobreza. Preserve-se e a natureza.
Deixe recados. Diga que ama. Sinta-se amado. Pule sobre a cama. Não esconda que sente saudades. Não tenha vergonha da felicidade.
Nem tudo é tão sério, Preserve só alguns mistérios. Protagonize a própria vida Por você que ela quer ser gerida.
347
Águas
Águas nascidas na mesma fonte, invariavelmente chegam ao mesmo destino.
484
Embaçado
O dia estava me esperando. Lindo. Primaveris adornos a enfeitá-lo. O talentoso sol desenhava sombras dos meus pedaços. No outside marítimo pranchas a deslizar com surfistas equilibrados. E eu que acabei de chegar de um sonho “desperfumado” questionei Por que havia me acordado? Meus olhos buscaram também o céu. Límpido, mas estranhamente o vi embaçado.
388
Maresia
Maresia Do mar, Restou-me a maresia.
Da minha música preferida... Notas sentidas.
Do amor... A poesia.
Das enumeras palavra... A hipocrisia.
Das promessas... Demagogia.
A água vazou A caixa ficou vazia.
O carnaval morreu Pela falta de folia.
Emoção ancorou Naquele fatídico dia.
407
Fadas e Cinderelas
Vista teu sorriso contagiante. Expressão alegre de Mona lisa. Combine com teu semblante elegante. Traga no olhar a meiguice de uma sacerdotisa.
Dê passos firmes sem visualizar o chão. Pise como se nas nuvens estivesse. Na passarela da vida abre-se um clarão, Palmas de alegria são dadas a quem merece.
Curve-se ao final da aquarela. Deixe teu cabelo brilhar nas telas. Sinta o gosto de estar sempre bela. Faça a vida de fadas e Cinderelas.
291
A vida
A Vida A vida é um jogo que gira Ou você entende e joga, Ou então pira.
403
Reflexos
A vida me mostrou, Que portas se fecham. Que nem todo espelho tem reflexo. Que NÃO também é resposta. Que loucura é ponto de vista. Que amor não se hipoteca. Que os que amamos também partem. Que solidão não se reparte.
Que humildade é caso a parte. Que só eu respondo por mim. Que amigo falso é pra descarte. Que o certo e o errado andam de mãos dadas. Que o sol brilha de graça sim. Que riquezas materiais não servem pra nada.
Que o rio também seca. Que amando também se peca. Que estamos sempre na reta. Que o erro mais se destaca. Que na defesa muito se ataca. Que a união tende a ser fraca. Que com riso o olhar tem mais graça. Que é mais feliz quem vive sem máscara.
407
Pássaros da vida
Olhou encantado para o alto do parreiral. Se não estivesse diante de uma Isabel gaúcha, jurava se tratar de uma Nebbiolo Piemontês. O clima favorável possibilitou um desenvolvimento espetacular tornando-as viçosas e lindas naquele ano. A associação com a uva italiana que tanto apreciava foi inevitável. Fez-se adulto no tempo em que o vinho era feito de forma artesanal. Amassava-se a uva com os pés. Eram dias especiais aqueles que se ocupavam nos afazeres vinícolas. Orgulhava-se do progresso, mas mantinha certa nostalgia em seus abundantes e fantasiosos pensamentos. Repentinamente lembrou-se Dela. Há tempos não à via. Contudo mantinha na memória o sorriso tão lindo, tão mágico e tão doce como o vinho suave. Nunca a esqueceu, nem esqueceria. Por alguns segundos imaginou uma cena inusitada com o gosto de um beijo com uva Merlot que ela, atrevidamente, manteria apertada nos lábios carnudos e adoráveis num gesto de gostosa provocação. Adoraria viver isso. Jamais houve um adeus definitivo. Apenas deixaram que os pássaros da vida consumisse-os como devoram os grãos maduros dos parreirais. Despertou do pensamento alucinante e tratou de experimentar um cálice de vinho ali produzido. Impossível saber quanto bebeu daquele tinto maturado. Deduz-se que foi bastante, pois no dia seguinte ele afirmava com certa convicção: Ela veio me ver esta noite. Estava encantadoramente linda como sempre. Pode ter sido só um delírio, um sonho, uma ilusão. Mas o que importa saber a verdade se ela não faz feliz. O que importa? Pensou. Nada conta depois que o sonho acaba. Lenta, mas decididamente, com o copo na mão caminhou para a pipa de Chardonnay. Outro sabor, outra variedade, outra uva, outro vinho, mas os desejos mantidos de acordar feliz após passar mais uma noite, supostamente com a amada. Queria uma noite longa para o tempo de felicidade, quem sabe, ser... Eterno. Quem sabe... Se a sorte ajudar.