Apesar
Apesar de bonitas e modernas,
Estas máquinas fotográficas atuais
Não me agradam.
As antigas me fotografavam bem mais jovem.
Última foto
Era a última foto.
E toda aquela seriedade não se justificava.
Exatamente num dia de mau humor ela foi tirada.
Agora, por muito tempo assim estará.
Faltará nela o sorriso.
Melhor estar sempre pronto para a última foto,
Sorrindo para a vida,
Extrapolando a alegria,
Esbanjando simpatia.
Mantendo a expressão linda
Mesmo sem saber qual será seu dia,
Afinal a vida com tristeza será sempre mais vazia.
Sem metáforas
Feito menino atrás da bola.
Feito caderno indo à escola.
Feito pipoca pulando na panela.
Feito príncipe na busca da Cinderela.
Toco na pele cheirosa e macia
Da mais inspirada e sensível poesia.
E do verso balançado pela ventania,
Brota sorrindo o mais belo cacho de alegria.
Sigo no sinal verde da vida.
Escrevo uma frase para nunca ser lida.
Bate a angústia intrometida,
Soa o sinal, é hora da despedida.
Atenção:
Atenção:
O último poeta, por gentileza, apague a lua.
Galho
Ao anoitecer o pássaro não contou.
No galho fino pernoitou.
Escondeu a cabeça na asa e de alguma forma disse adeus.
Pelo que eu sei
Nunca mais voou.
Talvez
Talvez não seja tão decisivo saber se Deus existe se estivermos em dia com nossa consciência.
Árvore
Fui árvore.
Suscetível aos ventos.
Sustentei-me com as próprias raízes.
Fui sombra.
Fui pouso de pássaros.
O último bando me trouxe asas.
Alcei voo.
Não conheço mais limites
Nas asas poéticas da imaginação.
Voa poesia.
Bate teus versos.
Iça o poeta
Às nuvens de inspiração.
Protagonize
Pegue o vento com as mãos.
Comprima, encha e solte o balão.
Dê mais altura à pandorga.
Finja que hoje é tua folga.
Cante qualquer besteira.
Apanhe a flor na roseira.
Vibre com as conquistas.
Aceite outros pontos de vista.
Prove a comida,
Elogie a cozinheira.
Passe pelo muro de cabeça erguida.
Não tenha ganâncias descabidas
No espírito é que está a nobreza.
Preserve-se e a natureza.
Deixe recados.
Diga que ama.
Sinta-se amado.
Pule sobre a cama.
Não esconda que sente saudades.
Não tenha vergonha da felicidade.
Nem tudo é tão sério,
Preserve só alguns mistérios.
Protagonize a própria vida
Por você que ela quer ser gerida.
Rei de copas
Trago o cheiro forte de incenso.
Espalhado em meus perfumados pensamentos.
Ao longe, o barulho incessante de vento.
A lareira ofegante ainda aquece aqui dentro.
Na claridade deficiente avisto um vulto.
A garrafa de vinho deitando-me insultos.
Meu interno titubeia em total tumulto.
Foge o menino, grita de longe o adulto.
Eu que não venci meu irmão pra fundar uma cidade.
Não fui grandioso pra estampar o rei de copas.
Não bradei descobertas geniais na minha mocidade.
Nem naveguei, ainda que trôpego, pelos mares da Europa.
A água no vaso não impede que as rosas murchem.
Nas estufas da vida novas flores surgem.
Não vou deixar a vida no cofre trancafiada.
Sigo, mesmo que lôbrega possa ser a jornada.
Jogo.
Aposto tudo.
Espero que as cartas não me traiam.
Quero a sequência real.
Viver é jogo.
Só vai vencer quem arriscar.
É preciso querer ganhar.