I-LII Jaezes de vida e morte
Suplico por ter quem guie-me ao reto,
quem livre-me das tentações à direita,
quem cega-me das à esquerda.
Quem permita-me desviar do certo
quando nele já não me considero.
Procuro civilização amante da liberdade de expressão
e escrava da ignorância que nos tornam vãos.
Procuro pelas capitais que, dos que abrigam, tempo tomam,
e crescem dando à vida razões que nada consolam.
Lá há quem a natureza desvalorize e a carne ridicularize,
e esculpa, ainda assim, presentes a mim.
Ouço do alto, então, maiores insultos,
fazendo-me proporcional ao palpável mundo que oriundo.
E em nada posso julga-los sem que me lembro de meus pecados.
Maior seja a insipiência dos que de mim se afastam,
e profundo o inferno dos que, deste mundo, tanto acham.
I-LI Jaezes de vida e morte
É um espetáculo
minha insistência de sentir o que não quero viver.
Quando prendem-me com tantas correntes,
sinto-me tão livre quanto fui aos treze.
Pelo menos rimos quando caímos,
definhamos enquanto nos amamos.
Sinto o mundo impressionado por sermos
cada vez menos quando mais nos gostamos.
Mal sei a origem do que me faz incontestável,
mas sinto-me seguro sobre tudo que me trouxe ao báratro.
Não é como quando vivemos para aprender, ou morremos para voltar a crer,
é como sentir-se enganado sobre o que é dito de você,
sem mar que se abra por aquilo que crê.
Não faço por diversão, por rebeldia ou por fé.
Não faço por mim, e não me atreveria a fazer por você.
Faço por um racional instinto que persevera.
Como lhe disse sobre as japonesas velas entregues ao mar,
sinto ser eu o único audaz a me guiar.
I-L Jaezes de vida e morte
Vistes-me descer os céus, por que perguntas de onde vim?
Usas a liberdade mas esqueces da percepção,
exatamente como fui, carregando os homens com ambas as mãos.
Se dificilmente vê-se jovem, perdoe-nos enquanto ainda somos pobres.
Crio o que tens feito, a insegurança alimento,
e me empreguiço para evitar o que tanto tento.
Me apaixono por como ages sob o único sol que vejo,
mas a noite vem, lembrando-me ser ambos criados pelo Mesmo.
Prometa-me então, Charn, que à Londres nunca me levará,
pois me vicio em tu que me mata devagar.
Ouso enraizar-me ao chão,
abafo o mundo, guardo o perigo,
e mal sei sobre a loucura de quem cogita além do instinto.
I-XLIX Jaezes de vida e morte
Estou nervoso, mas não por estar mentindo,
temo coisas além de você e deste abrigo.
É a ansiedade por tanto desejar,
a incapacidade de esquecer o mundo que me faz viciar.
E culpa alguma sinto por vê-la chorar,
pois sei que não lhe resta tempo para durar.
Assombras um hipócrita que mata por futuros e julga prostíbulos.
Um fraco do tipo que chora por frustações que não vão embora.
Se julga-me não sei, mas sabes que para alguns o pior ansiei,
pois sou um ingênuo que nos zodíacos fiz-me e acreditei.
Há ainda quem aponte minha bondade santa, vendo-me como criança.
Calado e mutilado por quem permito e por quem insiste, sei que queres
mais uma vítima dessa tormenta, alguém que mostre, na arte, toda fraqueza.
Assim caminho longe e volto sempre, com coração frio e mente quente.
I-XLVIII Jaezes de vida e morte
Finalmente, livre da maçante liberdade, tens-me,
mas não me tenho com tanta facilidade.
Lembro-me sendo algo como dezoito ou vinte e oito,
vendo-te surpreso por esta vida que não mudou
diante do mundo que muitos desolou.
Qualquer horizonte é euforia
desde que és tu que cobres minha vista.
Então o poupo das sortes desta noite,
não impedirei de sofrer o que o destino reservou-te.
Poupe-se de erguer-me a mão quando contento-me no chão.
Poupe-se de comparar-me ao mal,
pois não houve segundo que não fui igual.
E quando caído, enfraquecido e entorpecido,
preserva-me do romantismo, pois tendo ao transvio.
I-XLVII Jaezes de vida e morte
O vi e é verdade, como vulto sob arbustos,
cochichava sobre promessas de um futuro longe de influências.
Poderia eu ter o parado ali, mas era mau por si só,
e acreditei que ali mesmo se acabaria.
Ainda estava encantado pelas palavras dos criados,
desejando que, ao menos, meia duzia dita se realizasse.
Quando, sob controle do gim, estou a caminho de casa, os ouço aproximando.
Perguntam se meus temores são consequências dos rancores e,
o tempo dado-me para explicar que não os possuo,
prefiro fingir-me de mudo.
Não diga que é por acaso,
conheço o bem por minha tendência
de fazer da verdade sempre miserável.
Pois é tu que levado foi pelos amigos,
e não estou arrependido. Estou a caminho de casa
e já sinto o que fizeste comigo.
I-XLVI Jaezes de vida e morte
Estou nervoso pela fome,
e pelas decisões sobre mim.
Não há conto curto que me faça
sorrir pela distância de onde vim.
O que de pior aconteceria a quem,
pelo tempo, é tratado como segundo?
Atado e feriado, ouço meus pais dizendo que
que demais me apeguei a este mundo.
Há tanto a ser escrito, mas a pensar me limito.
Quero dar vida às besteiras, e atar-me na tristeza.
E se puxas me sabendo que não me arrancaria,
seria o primeiro que faria.
I-XLV Jaezes de vida e morte
Quando acabar o prazer, e seu sonho frustrado voltar,
pegue o que tens e dê-me um tempo.
Sei que agirá como se superou,
quando há minutos chorou por tolices menores que o marcou.
Quanto aos meus, não os perdi,
os escrevi para quando eu precise rir.
Mas o cansaço que os feriados me traz,
faz-me dormir antes de me lembrar.
E acordo suando, sob o mal desta cidade que,
há anos, vi-me aqui sonhando.
Não me digo arrependido,
os fantasmas daqui têm me distraído.
E tenho meu tempo gastado assentando esta casa,
um tanto irritado por não haver quem mais faça.
Estou crente que terminarei a noite ansioso,
e desfruto do dia com mau gosto.
I-XLIV Jaezes de vida e morte
Nascido e domesticado,
enquanto o céu é superestimado,
tenho sido ludibriado.
Sinto que me vê como não vejo você.
E tudo que eu pensei saber,
o que penso apender,
faz-me temer teu perecer.
O futuro abre-se como refúgio do presente.
Mas, Deus, estou apaixonado pelas vítimas
de anos precedentes.
E sei que pensam ver como os veria.
Sei que falharam por não serem quem deveriam.
Mas, como um tolo humano,
vi-me aqueus assombrando.
Ameaçaram cortar-me a garganta,
e riram juntos quando jantando.
Como voz apaixonada,
fingindo um inferno que vem do nada,
foi o que pude fazer por Acates,
que, ao menos, Protesilau mataste.
I-XLIII Jaezes de vida e morte
Não há data que eu suporte
o Sol sobre esta cidade.
Orei para pisar nesta terra e, agora,
queimo como se meus pecados
adiantassem-me ao inferno.
Já não estou perdido suficiente?
Rodeado por almas fascinadas por lugares que não estou.
Vejo o dia que levarão meu corpo ao espaço.
Nem sequer sou livre
e ameaçam prender-me fora da realidade.
Sou âncora de qualquer coisa que os tirem daqui.
E não ligo, eu não vivo,
sou comida para almas cansadas do paraíso.