I-XXII Jaezes de vida e morte
Perdendo meu tempo transgredindo sete regras básicas,
quero perder o amanhã apreciando quem se diz bom,
apenas para lembrar-me que não melhoro.
Tenho motivos para não parecer convincente quando juro por esta vida,
pois anseio deixa-la enquanto a levo.
Aponte-me ao questiona-los, ouvirá o que eu disse com um pouco mais de besteira.
Já fui visto por aqui sem sequer ser ouvido.
Ao menos fui acusado sem antes ser agredido.
Com alguns delírios à noite, sobre um pai que cita estranhos em Dublin,
dizendo terem uns aos outros, vivendo bem certos ou não, termino mais um dia.
Resta-me sofrer o carma do que tenho dado atenção,
racionalizando ignorâncias de quem finge dar-me compreensão.
É um luto cômico, menos longo que o usual.
I-XXI Jaezes de vida e morte
Esquecendo pesadelos à medida que tenho outros,
arrependo-me do último que, aos porcos, jogou-me.
Era dor, não medo. Era raiva sem ambição.
E diante da injustiça, pouco me importa ter vida,
importa-me mesmo ser visto como ingênuo sofrendo
por privilégios que não tenho.
E quem garante ser eu se os sinais do meu corpo removeu?
Quem de mim lembraria sem as marcas que louvam santos que sofriam?
Estava sem tempo em meu tempo, temendo medos que não temo.
Morrendo como ignorante após décadas sendo hierofante.
Mal mais culpo os males dos meus romances, nem invejo alheias aventuras triunfantes.
Carregado ao único mundo que posso ser seu,
fez de minha fé cristã coisa vã.
Vivi pesadelos que fingem matar-me e orei por deuses que fingem libertar-me.
Fizeram das coisas minhas besteiras humanas, coisas de vivo, coisas da Terra.
I-XX Jaezes de vida e morte
Pelo maçante cansaço encerro minha oração a Gotardo,
restando-me esta consciência angustiante de minha vida infame.
Sou eu um dos muitos que tanto lembram-me dela,
um dos que, com o bem, jamais justificam o mal.
Com o bem, jamais justificam coisa alguma,
e nada sobra de arrimo à vileza que me encosta.
Acabo-me assim enquanto a fome nada faz em mim:
fazendo da carência uma loucura, e o que invento um passatempo.
E é tarde, pois esperei os artifícios desta Terra,
feliz no presente por acreditar estar feliz no futuro,
comovido com o passado por vê-lo mesmo com muros.
I-XIX Jaezes de vida e morte
Santo reflexo que me orienta à luz,
ergo-me e faleço perante a complexidade do que há.
Tanto sinto fundindo-me a você que pouco sinto ao morrer.
E toda clareza a mim explicada, faz-me querer que sombras haja,
apenas para ser escondido o que tenho de maldito, e o fim dos precipícios.
Fascino-me por amar e sofrer de tal maneira que, mesmo falecido, sinto-me contigo.
Foram tantas propostas a mim, e tão poucas minhas aos outros,
poucas estas que, se em vão, manter-me-iam são.
Mas por serem alguma coisa, fazem de mim trouxa.
Este que escreve-se morto e encontra-se vivo,
e vive de seu jeito: do jeito que não se vive.
I-XVIII Jaezes de vida e morte
Contemplando a vida,
inspirado na saúde e na doença alheia, perdi a melhor parte.
Um estrondo, desta vez trazendo alguém, que ao ver percebi ser mais de três,
fez-me faltar a disposição à civilidade.
Fingindo não ser daqui, me desmenti por tanto instruir.
Mas nada soa fatídico quando se instiga o irrealismo,
fazendo-nos crer andar sob um destino por nós escrito.
E de tantas ali, todas escolhi,
e de todas, uma ouvi o que, para mim, seria brecha para outros fins.
Bastei mentir para tornar-me convicto e uma noite ter-me contigo.
E aos tropeços ímpios diante de si, veio a ingenuidade que aos homens serve de auxílio:
Via-me tímido e pouco precavido, logo eu, quem tanto sorriu e esta noite constituiu.
Nos sabotamos, criando no erro o que nos faz sentirmos certos.
Não é mais prazeroso que o contrário, porém é mais que quando nada se faz.
E desta vez, tudo soa fatídico quando questiono meu destino:
Este que o início com incerteza esperei e o final com convicção aguardei.
Que tenhas mais criatividade que meu fim, e faça de ti alguém sem mim.
I-XVII Jaezes de vida e morte
Estava eu imerso há poucos instantes,
exausto por nadar, pressionado por tanto o ar segurar.
Fui salvo por uma colérica besta que, ao abocanhar-me, fez-me acordar.
E ao lembrar de minha vida, esqueci-me de outras.
Mas não me esqueço daquela que se mostra bela,
que me faz tantas noites perder tentando ela rever.
Lembro-me de dias e horas, dos países e das cidades.
Sorte minha ser entre todos o único em seu coração,
pois sou ingenuo como os bobos, e malícia alguma trago das vidas que sofro.
E antes que qualquer coisa eu pudesse a indagar, sumiu-se como mágica,
deixando-me como testemunha de tanta besteira inventada.
E sentindo mais do que lembro, sofro por saudade dessas vidas pintadas ao relento.
I-XVI Jaezes de vida e morte
Por aqui, matando o tempo, penso em crimes que, sem coragem, não cometo.
E julgando, tenho lembrado-me o que agora traz-me espanto: vivos são evidências que fazem de mim morto, e mortos fazem de mim coisa alguma. Dediquemos então a vida à gente assim, pondo-os a rir ou a se irar, livrando-os de se matar.
Digamos que voar é besteira para um mundo que voa por si só,
que nos leva parados ou não, ansiosos pelo passado, alheios ao futuro.
Encontremos um dia as costas de quem deixamos,
pois tanto ando que sinto-me voltando.
E mesmo quem paciência tem, não a tem quando a perde.
Que confessem então, desta vez, o que fizeram e o que merecem.
Esses homens que, rodeados por fumaça, acham sempre ar para zombar de nossas desgraças.