I-XC Jaezes de vida e morte
Quando não esteve por perto,
afundaram-me nesta Terra sob concreto.
Temos nos sentido sozinhos com o outro na mente,
vítimas da inevitável saudade de sermos carentes.
Não quero viver o vendo por baixo,
mas sinto-me perder a vitalidade fundindo-me a um corpo renovado.
Os rancores perambulam, mas o instinto está fresco.
Minhas vítimas se acumulam enquanto perco meu preço.
Imoral por escolha, deixo a sanidade para as próximas folhas.
O tempo volta a me regredir, colando-me a culpa que pode.
O fascínio que sinto por não perceber, pela discussão do que está para acontecer,
do que virá de um tiro ao acaso, de um amor infindável,
é deslumbrante o inimaginável.
É o que faz desta alma esquecer do melhor que posso,
restando-me a vida como chance de mais um encontro.
I-LXXXIX Jaezes de vida e morte
Que coisa sofrer pelo que não existe, o sinto nas palmas, vejo-me diante de suas garras,
e mal respiro pela dor que faz comigo, fingindo ser coisa do destino.
Os afagos que levei a ti, foram inúmeros, até um único que fez refletir:
Me ansiei pelo desgosto de ter que o criar com outro, apenas por mau gosto,
e agora mal sobra-me peito para o tempo que passa sem trazer cortejos.
Que mania tola de fazer da vida uma eterna caidela,
onde os bons momentos servem de peso para a dor da queda.
Aos nórdicos que criam arte apunhalando lagartos com asas,
às vidas que, por tesouros, foram colapsadas, às tristes coisas passadas:
Nunca nos sobra nada. Nem por mérito, nem por pena,
logo será a vez das memórias que perduram intensas.
Imploro por chances que estendam o fim deste romance,
por sorte durante a invasão das ruínas do norte,
que farei por paixão, pondo fim ao dragão que defende seu coração.
E às almas que me seguem caladas, que testemunhem
a tristeza que se disfarça do pouco homem que me escapa.
I-LXXXVIII Jaezes de vida e morte
Não é a alma ou o corpo que me traz,
o instinto me empurra
para onde não me encontro mais.
Nunca ouvi sobre o que falavam,
temo ser quem os ânimos os tiraram.
Não tive mais problemas desde a vida que tirou de mim.
Estar ou não, não me importa mais, ainda assim,
recomendo a todos uma vida como quem por baixo vê o céu,
sem paz e sem fim.
Já fiz de Cartago meu lar,
Insatisfeito, mas encantado:
já me perdi nisto uma vez,
e de novo acredito no acaso.
I-LXXXVII Jaezes de vida e morte
Dentre incontáveis dias, vivo mais um sob melancolia.
Lembrando dos privilégios que me envergonho,
meu peito rasga por medo de um sonho.
Vivo com o que tenho, sofrendo como se o perdi,
e cogito perdê-lo agora mesmo,
e finjo uma raiva que não tenho por ti.
Que inferno vivo no céu, queimo sob o que me abriga,
me desolo por mania.
Os fantasmas que me pertencem
são só fatídicas vítimas impotentes,
perdidas em caminhos rentes,
que por mim perderam a mente.
Assim vivo acompanhado por quem
me perturba por bom grado:
Na alegria me convence da tristeza,
até que na amargura me convence da loucura,
e assim por diante, até que o assuma.
Como eu poderia deixar de chorar por ti,
se desde sempre es tu que me viu dormir?
I-LXXXVI Jaezes de vida e morte
À direita, em um sonho, avistei-me como um conto.
Convenciam-me da mentira, dando-me a chance da reconquista.
Vi-me buscar as paixões levadas, fiz uso de feitiços e sensatas palavras.
A busca do fim nunca foi assim, foi sempre o oposto do sonho:
Emergindo das fraquezas, sequelas dos traumas,
lembrando-me das ideias que perdi nesta alma.
Cumprindo vidas, largando sonhos,
fascinado pela inquisição dos assombros,
quase vi-me junto aos mortos.
Era cinza e era vida, eram almas corrompidas
que se deveras em mim pensassem,
eu serviria de inspiração à arte:
Felizardo os irmãos que, com os deveres
postos em mãos, mal lembram do coração,
dando à verdade uma cova, ao Deus serve de prova.
I-LXXXV Jaezes de vida e morte
Carregado independente do desejo,
mais aprendo sem nenhum apreço.
Temos vivido diferente,
sem que nada deixe de terminar fatidicamente.
Nossos pais perderam a cabeça ao longo dos anos,
nos tratam como exceções de rivais assombrando o cotidiano,
que rebatem o mundo independente de tudo,
fazendo do intelecto ainda mais oculto.
Nada acontece desde que me parei no tempo,
salvo as ordens que me gritam a todo momento:
Reviva a vida sem agonia,
perceba-se no caos em harmonia.
I-LXXXIV Jaezes de vida e morte
Perdi tudo que me deu o mundo,
corri para o fim a fim de dizer-lhes muito:
Pouco respeito, muito castigo,
por que fazer de mim perda
de um tempo infinito?
Se só perdoo para que me perdoe,
por fazer de mim mais do que pretendi quando nasci,
por sofrer estando na média, por chorar na morada,
e mal engolir a comida que é dada.
Falando assim, até soa ter sentido o que fazem por mim.
Até mostro perceber, sem querer, que meu maltrato é mais
por dizer do que por viver.
Queria ir-me sem ter que escrever, mas é ingratidão
que me puxa o chão. Pelo menos, por honestidade,
digo como as coisas são, temendo não ser digno
de um fim ainda com paixão.
I-LXXXIII Jaezes de vida e morte
Amanhã nos tomará tudo, já sabemos disto.
É como meus presságios que tomam meus sentidos:
Não sairemos do inverno,
o verão se foi com os que se cumpriram.
Não é intrigante como tudo
que será dito finalizará o que foi vivido?
Lembro desta angústia desde sempre,
me convencia de esquecer você,
de tentar por mim, mas fiz-me inconsequente.
Não tem sido a justiça que me condena,
não como afunda minha alma em incertezas,
com orações atando ambas as nossas crenças.
Não foi por respeito, não foi por admiração
foi por liberdade, talvez por diversão.
Não por você, também não por mim,
mas por todas as razões erradas que,
fatidicamente, levam ao fim.