Nathanael

Nathanael

n. 1996

Apenas mais um amante caloroso da dúvida.

n. 1996-10-26

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Reflexo Nu

Despindo-me
Arranco florzinhas de girassol
Pergunto
Por que não te despes também?
Arranco florzinhas de girassol
Pergunto
Por que não te despes também?
Tu gritas
Tu esperneia-te
Tu escabela-te com tamanha extravagância
Tu choras com a inocência
De não saber a razão de todas as coisas
Tu gritas com a inocência
De saber a razão de todas as coisas
Um feixe de luz entra em meu escuro quarto
Desprevenido fecho a cortina
Para ti não chorar
E espernear-te diante do sol
Arranco as florzinhas de girassol
Com um olhar de fulgor
Diante do espelho
E pergunto
Por que não te despe também?
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Poemas

6

O Eu

Minha carne sintetiza
Sintetiza minhas vontades e
minhas inclinações
clama por desespero a desesperar-se
para tocar a si mesmo
enquanto corre os rios entre meus dedos
por de baixo do guarda-chuva acima
de minha cabeça
escondendo o rosto trêmulo da ode
aos meus próprios erros
e a fumaça que exala de minhas mãos
não passa de uma mera tentativa
a não deixar que desmorone a montanha
da coragem ao desespero
420

Fluxo

beijo-te os pés amo-te
enquanto os infelizes anjos gritam
recordo-me da dor e questiono-a 
junto aos emaranhados e desconhecidos
fios do amanhã
não amo meus inimigos 
com a falsa espera de que há
a punição metafísica 
mentira sacralizada 
de baixo do cinzento céu 
da insatisfação humana
que grita em nossos corações
sempre a espera da 
infíma felicidade 
e nunca questionamos aquilo 
que nos faz feliz 
a dialética consigo mesmo
amedronta
os vivos embalsamados pela sórdida existência
os mortos que estão vivos 
despedaçam-se e preenchem-se
com o que podem 
enquanto abaixam a cabeça 
e o rio corre em seu fluxo 
do qual nunca teremos certeza


443

O Conto de Madalene

Dentro da casinha de madeira vê-se claramente as plantas entrando pelas frestas subindo até o telhado, enquanto as florzinhas de girassol desabrocham no pequeno e velho sofá. No pé da mesa era possível ver as flores enroladas em seu encalço. E os antigos armários envoltos de gardênias. O cheiro do café exala como o perfume de uma querida avó, e os orvalhos ao lado acompanham o envelhecimento da casinha de madeira. É rotineiro olhar-se diante do espelho pela manhã e perceber seu rosto envelhecendo acompanhado de uma solidão da qual não envelhece e muito menos faz parte de uma juventude. Após a caminhada matinal costumeira em busca de lenha, o velhinho aproxima-se de sua pequena casa no campo e encontra uma jovem mulher. Ele, pondo em ordem seu surrado suspensório e seu chapéu metricamente calculado em sua cabeça após dar uma olhadinha para cima, pergunta a jovem mulher:
- O que fazes por aqui? Não quero visitas de ninguém, pode se retirar, agora!
- Desculpe. - Ela respondeu assustada - Sou fotógrafa e estou de viagem para fazer alguns registros... Achei muito bonita a sua casa, percebe-se as plantas e flores tomando conta...
- Não me interessa nem um pouco! Muito menos o que tu fazes da vida! VAI EMBORA DAQUI, DEIXE-ME PAZ!
A garota assustada, decidiu ir embora. Mas a verdade é que ela se sentira extremamente atraída pela simples casa com suas flores e plantas dominando-a, criando formas e vida sobre as velhas madeiras que compunham a casinha. A garota que fora mandada embora, interessada sobre porque o velhinho morava lá sozinho e também interessada em tirar fotos da casa pela qual ficou maravilhada, decidiu voltar até lá todos os dias no mesmo horário e sempre, era mandada embora com o mesmo tom grosseiro do velhinho. Contudo, ela não desistiu até que o velhinho cedeu e a convidou para entrar para oferecer-lhe um café.
Ao entrar na casa, a moça ficou em um grande deslumbre, em um estado de embevecimento em como aquela simples casinha era linda por dentro, pequena e rústica com flores e plantas enrolando-se pela pequena casa. Ela extasiada, sentou-se lentamente no sofá cercada por pequenos girassóis, e inspirava e expirava com prazer o cheiro daquelas flores. O velhinho preparou o café e após servi-la fez um sincero pedido de desculpas:
- Peço-te desculpas, minha jovem. Vivo aqui sozinho há trinta anos e tu és a primeira pessoa em que entro em contato durante todo esse tempo. - Ele deu uma coçadinha na grande e grisalha barba - Digo com toda a certeza, eu perdi a sensibilidade em como falar com as pessoas e admito que senti medo, medo até mesmo de aproximar-me mais de ti.
Após beber um pouco do café a moça levantou-se e começou a reparar nos mínimos detalhes da rústica casinha, virou-se e disse:
- Estou acampando aqui perto e estava explorando a área... O senhor se importaria se caso eu fotografasse sua casa? Ela é linda...
Em uma imediata resposta:
- Acredito que Madalene não se importaria...perguntarei a ela antes.
Em voz alta, o velhinho perguntou olhando para o teto se Madalene se importaria com as fotos que iriam ser tiradas pela jovem.
- Madalene não vai se importar. - Disse o velhinho  
Após uma expressão facial de estranhamento da jovem, ela capturou algumas fotos com grande maestria.
Todas as manhãs, a jovem voltava para conversar com o velhinho em sua rústica casinha, sempre admirada com as flores que habitavam por toda a casa. Até que uma certa manhã, a jovem perguntou curiosa:
- Gostaria de lhe perguntar algo...
O senhor parou o que estava fazendo e olhou-a de costas por cima do ombro
- Quem é Madalene? Venho aqui todos os dias e não encontro mais ninguém além do senhor.
O velhinho respirou fundo e disse:
- Madalene era minha esposa.
- O que aconteceu? - A jovem perguntou. 
- Madalene morreu em um acidente de carro, há trinta anos. Desde então, eu vivo aqui. Madalene amava as flores, as plantas, a natureza. Amava a simplicidade.
O velhinho gritou em voz alta, olhando para o teto:
- Madalene, aceita uma xícara de café? - E o velhinho sorriu com fulgor. 
- Todos os dias nesse horário, eu sirvo uma xícara de café para Madelene, deixando-a aqui em cima, na mesa. - Disse o velhinho.
Escorrendo lágrimas do rosto da moça ela caminha até a porta da casa. O velhinho se aproxima da moça e toca em seu ombro:
- Se importaria em tirar uma foto minha ao lado da minha esposa? Pode ser aqui mesmo, encostado na casa, ao lado dos orvalhos.
A jovem entregou a foto de sua Polaroid ao velhinho, e deu-lhe um abraço caloroso em uma calorosa despedida. E lá se foi o velhinho, em mais uma caminhada matinal, em busca de lenhas, para manter o coração de Madelene aquecido.
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Brasa Brasil

Cá estou eu outra vez
Prestando homenagem ao sincopado
A vibração que não me deixa de lado
Desnudo minha alma ao samba
E ao tropicalismo que não me abandona
Me perco e me acho no Concretismo ávido sonoro
Vejo-me refletido e compreendido
Em teus aspectos mais sagazes e florescentes
Tão pitagórico quanto alegórico
És teu choro em teu ventre
O chorinho e o cavaquinho
Ah meu rico Brasil... que tu não caias
Outra vez nas amarras sanguinareas
E que não te prendam
Como um passáro enjaulado novamente.
510

Barbarismo não-instintivo

O espectro do agora
Anseia por novidades inexistentes
Falsas ramificações da existência
Latéx extraído da seringueira
Também extraiu a vida dos verdadeiros donos
Escravos nos bastidores
E todos somos espectadores envenenados
Não é ficção
Não é surreal nem "Kafkiano"
É o obscurantismo que sempre
Circundou a humanidade.





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O que há?

O que há depois da amargura? 
A paz seria aceitar a solidão  
Ao caminhar pelos ciclos findáveis e taciturnos? 
Me sentir confortável com os velhos sapatos na estante? 
Lidar com tuas vontades seria  
A resolução do sopro efêmero da modernidade? 
O tempo também rompe laços 
Com pessoas, lugares 
E velhos amantes que agora enxergam  
A pérola da vida semelhante ao estado 
Em que flores desabrochavam sobre tua cabeça 
Ideias que refletiam o futuro 
Agora podem estar mais perto da tua alma substancial 
Talvez não há nada o que esperar de volta 
Talvez assim seja melhor
A astúcia de não esperar algo
Apenas o caminhar pela velha cidade  
Ouvindo o barulho do sapato 
"TAC" "TAC".
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Comentários (1)

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Gabriel Albuquerque

lindíssimos e profundos versos brancos. dahora demais!