Meu dia começava cinza, o sol nem tinha aparecido direito, tomava um café com leite e acompanhado dum pão com manteiga, e já me arrumava pra escola. Tinha vezes que passava em frente duma lanchonete, sempre olhava aquele balcão refrigerado, e lá estava ele: o leite fermentado. Certa vez pedi pra minha mãe comprar...não dava...passava vontade… Não questionava. Mesmo pequena achava que a vida era assim: por vezes querer mas sempre carecer!
291
vaporosa
Têm vezes que me sinto uma adolescente de 15 anos Sempre que vejo os clichês românticos dos filmes É como se pudesse sentir a sensação de desejar e ser desejada Torcer para que os personagens se entendam Que seja recíproco Me pego perdendo o fôlego com cenas prontas Roteiro manjado Tudo ensaiado Mas a sensação sempre brota Acho que sou terra fértil Ou teria uma mente débil?
211
clareza
Me peguei pensando sobre minha utilidade as várias vezes que iniciei algo por acreditar piamente que aquele era meu caminho Mas não, não era Não era ‘o caminho’ E sim uma das muitas ferramentas pra chegar nele Hoje sei! Em muitos anos parece que encontrei Consigo vislumbrar algum futuro Sei que não há certezas As coisas são fluídas Não há permanência Mas ao menos serve de alento Nessa minha breve existência
324
fita k7
Era uma aventura, procurar filmes na locadora, andar entre os corredores, os minutos fluíam sem dificuldades. Não tive videocassete, nas poucas vezes que fui numa locadora foi na companhia de algum parente - era visita.
Achava um máximo: pegar a fita, ver o filme, rebobinar, e devolver no prazo.
Hoje, o acesso é um pouco melhor - digo isso com base na minha realidade - o catálogo de filmes está logo aí, na palma da mão.
É, deveria estar satisfeita por esse tempo que estou vivendo…...não, não estou
Sinto um descontentamento voraz: olho a lista de filmes, pulo de uma seção para outra, e nada, nada é capaz de despertar meu interesse.
Chego a pensar que sou ingrata
Tantos outros querem e não podem ter - agora me refiro a qualquer outra situação genérica, além do acesso a filmes - sou um desperdício ambulante!
273
diário II
Hoje, não tenho motivos pra estar triste, mas estou…
É um torpor que não passa
Meus olhos pesam, como se tentassem me obrigar a fechá-los, e deixar o sono me pegar.
Na maioria das vezes cedo, durmo por um período de horas, geralmente a tarde, e esse é o único momento que não penso, nada dói, seria como um efeito analgésico.
Agora mesmo, estou sonolenta, sinto vergonha, por ver pessoas normais tocarem suas vidas, seus objetivos, e eu? Vegeto, apenas isso.
Chego a pensar que estou ocupando o lugar de alguém, que queria viver verdadeiramente mas não teve chance.
Sou um desperdício ambulante.
175
diário I
Descobri que posso alimentar meu vício em paixões por meio dos livros: parece que minha mente é inundada por ocitocina, mesmo com histórias tão clichês.
Talvez essa seja a saída que procurava, não precisar buscar paixões pra sentir aquele flutuar.
Parece que artificialmente estou conseguindo a mesma sensação, a diferença é que não é com alguém real, não há reciprocidade, nem expectativa, o roteiro vem pronto, logo, a chance de decepção é muito pouca, me arrisco a dizer que seria inexistente.
Demorei pra perceber que esse romantismo está apenas na minha mente fora dela não existe mais nada, apenas lágrimas, sofrimento e desapontamento.
Vou tentar aprender a amar aquilo que me faz bem!
Até escrevendo estas linhas sinto que estou aérea, é como se durante a escrita vivesse em outro mundo, capaz de me transportar pra qualquer lugar…
Isso não é normal, acho que isso explica esse sentimento de inadequação permanente que carrego desde sempre.
198
paranóia
Pra escrever coisas bonitas tenho feito uso de subterfúgios… ...filmes
Através deles consigo sentir parte daquele frenesi.
Só assim consigo lembrar que ainda existe aquela coisa sentimental, aquela subjetividade…
Há tempos não perco o fôlego, não sinto minha barriga estremecer, aquela ânsia por ver, tocar, beijar, como se aquele fosse o meu único instante, como se o tempo simplesmente parasse por uma fração de segundo.
Me sinto tola por agir assim
Como se fosse uma adolescente
Infelizmente não tenho com quem compartilhar
Os conhecidos diriam que endoidei - talvez estejam certos
Parece uma sede insaciável, busco, miseravelmente, por algum oásis, algum porto, qualquer coisa que me dê conforto.
264
distúrbio
Queria ter com quem desabafar Dizer o que se passa na minha mente No meu coração A confusão que me consome As paranóias que surgem E não vão embora Queria dizer que te admiro De alguma forma prendeu a minha atenção Como posso te desconhecer?
269
desembuchar
Acho que minha vida sempre foi pautada em uma fantasia é triste constatar isso. Estou alguns meses sem fazer análise, então ainda não sei como estou lidando com esse presente que de presente não tem nada.
Aquele que vive de forma semelhante vai se identificar: um pequeno sinal - mesmo irrelevante - já é capaz de fazer minha mente girar. É como se minha mente fosse uma terra fértil, propício a esse tipo de situação.
Tento fugir, mas quando percebo já estou repetindo o mesmo ciclo, as mesma atitudes, nesse momento me sinto fracassada…
Deixo de iniciar conversas por receio de perceberem minha condição, então, prefiro permanecer na minha insignificância, invisível, passando vontades, não estabelecendo pontes.
188
amortecido
meu dia foi vazio sempre espero por algo mas nada acontece é sempre o mesmo vazio e descontentamento olho ao meu redor não tenho coragem de chamar alguém ser um peso morto não é fácil cansada de nadar acho que vou deixar a maré me levar
Sou editor da Microeditora Press. Se tiver interesse em publicar um livro, conte com minha Editora. Tenho o mesmo pensamento desse portal maravilhosos ESCRITAS.ORG, de difundir o trabalho literário e, sobretudo, sem interesses econômicos. Parabéns pelos seus textos, por nos brindar com a poesia, a emoção. Deixo meu contato pessoal: [email protected] Estou te seguindo lá no MEDIUM também.