Paula Regina Scoz Domingos Damázio

Paula Regina Scoz Domingos Damázio

n. 1990 BR BR

n. 1990-04-04

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Desalento da noite ou da morte da noite pela virgem

Minha noite escura, por que me procuras?
Quer o alento de meu calor?
Quer o profundo do meu suspirar?
A mancha do meu cobertor?

Noite fria, por que me crias?
Não vias pois minha máscara de ferro
Meus olhos em fogo devasso
A angústia do desejo aprisionado

Noite tola, por quem me toma?
Acaso a ti o palor é graça?
Oh noite! Meus lábios são taças
De transbordante anseio

Pobre tola não vejas a mim
A musa do teu passado morto
Pois sou filha do mundo torto
Carnal e carmim
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Poemas

17

Vivo

Se tenho o encanto dos lírios roxos
e cheiro a saudosas cores outonais
é por ser feita do dia e do instante
e não ter ilusões angustiantes
a me arrastar nos pedregulhos do chão

Se ao mesmo tempo tenho um sopro azul
e aguento a dor dos sonhos mortos
é em ser flor d'água marinha
ter na beira do mar a certeza
que serei puxada prum fundo tecnicolor

Se nem sombra nem alegria profunda
e marcas de agulhas tenho em meu corpo
é que me mato de prazer pelas noites chuvosas
com o amante enlouquecido de vida
que me enche da seiva sagrada do homem

Se for assim por um risco de existência
com doces dúvidas de maracujá
sei que sou a fábula perfeita a me contar
as histórias do mundo antes do nada
a história do sim e do não

Se for assim para ter um risco de existência
brinco de vida com o dado do amor
a rolar em meu corpo e no teu
oh magnífico instante!oh meu amante!
Vivo.
865

Brincadeira

Tenho horror ao céu aberto
ao som de colores
horror do dia final
meu suspiro... uma gota d'água bailando

Baile

A vida surge da morte? O dia da noite
e a tarde do diabo
a vida um erro
a vida absurda

Um tempo inteiro, um tempo curto
tempo ou não tempo
tempo ou eternidade
o deus da alma, a lama do chão
um tempo todo pela frente
ou um tempo todo por trás
a ruína do meu corpo

Ter o espírito e não ter o sentimento
do tempo da terra
do só aqui e agora
do começo e do fim
um fim............ ter um fim
nunca ter existido e existir
e nunca mais, nem uma única vez
morrer e a morte ser um bem
o descanso eterno.... o eterno, nós somos eternos

Se eu cair pelo abismo de dentro
e sofrer o golpe sobre a minha cabeça?
Se eu berrar o erro o absurdo
o sonho dourado
o que será de mim?
Feito do feito do feito
eu já fui feita... e brinco
de rolar um dado que não existe

Cantar, e eu nem sei cantar
Dançar, e eu nem sei dançar
a vida, ao não tempo
ou suspenso
entre o céu e a terra
escrevo para me consolar
da dor de ser nada, ser suspiro
de uma vida maior
vida que não para de nascer
e me usa e me abandona
me devora, meus olhos meus ossoso som da minha voz

Eu nem sei mais se tenho
a força de um tigre pra matar e comer
matar um amor, retalhar
matar a amizade, fiapo
matar o desejo, fumaça
destruir o destruível
e não sorrir nem chorar
a linda força de ser um coração sem olhos
sem sombra nem consolação
ser o não a tudo,
e comer todos

Ser eu
será eu?
Foi eu... fui eu
o dia que eu morrer terá terminado
sem nem um segundo a mais
será o fim dessa loucura
sem razão sem destino
espaço sobre espaço com um ponto final
espaço sobre espaço pelos meus olhos
e destruir
e me reconstruir ou nem isso

E eu terei sido
e meu sofrimento será apagado
assim como a minha lágrima que já secou
assim como o adeus
apagado, nunca existido
até se repetir de novo sob outros olhos que não os meus
nem os teus, mas o de alguém que chegará a sofrer tudo que sofri
como se fosse a primeira vez debaixo do sol

É a brincadeira
vamos brincar?
Dizer que existimos e que a lua nunca nos viu
e dizer que descobrimos o segredo da vida:
é o que vem antes da morte
que é a eternidade sem memória,
é poder rolar e mudar e sair e voltar
é rasgar o rosto ou não sentir a dor
é assim parecer ser nada e ser o nada
o rabisco da natureza
Eu e Tu
Vamos brincar?
890

Meu Poeta

Os sonhos loucos de minha voz louca
Voam nas asas do pássaro alado

As pétalas de sons de meus lábios
Pendidas no ar como plumas
Dedilhada nos pianos da lua...
Eu! em canção derretida
Aos beijos do poeta rendida

Despedaçada em tecnicolor translúcido
Variante metafísica do escuro!

A ti super-amante do espaço
Entrego-me em gota destilada
A sonhar alto a quimera esfumaçada;
Rasgando-me nos céus num beijo transbordante
Em murmúrios secretos de nossos amores distantes

Os desejos loucos de minha boca sedenta
Voam nas asas do pássaro alado...

Para MD
882

Destino Amor Desamor, o amor maior

Minha doce ampulheta eterna
Como te quero como és!
De alto a baixo
No teu mais minúsculo

Minha clara manhã ensolarada
Como reluz cores lúcidas!
Investe em meus olhos
Esclarece e cura as dores

Meu querido amigo
Como se completa o meu e o teu!
Do grão de areia ao infinito céu
A canção maior de uma vida inteira!

Tu, meu tão amado Amor - Amor fati querido,
Eu...
838

Ondulada

Em ser nem alegre e nem triste
transformo o pouco de meu em lava
Sofro as pulhadas de lanças em riste
abandonada nas ondas bravas

Em ser nem alegre e nem triste
brinco de ser o deus do universo
Crio anjos e demônios se não existe
cavo fundo a dor sobre versos

Em ser alegre no sol de setembro
beijo as flores do caminho escuro
Apago meus passos e não me lembro
das dores murchas do destino duro

Em ser triste nas noites ermas
clamo alto pelo canto das sereias
Corro a qualquer abismo que me queira
choro lágrimas de espanto por minhas veias

Em ser o meio do nada
sem ponta fim dimensão
Sou feito pluma alada
bailando acima de Nãos
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Prisão de Fogo

Ah! Sol, brilha em teu rosto
Amor em sabores de luz...

Reflexo de minhas sombras amargas
Não te vejo mais, só, sob a noite,
Tumultuando a sonolência do alento
Das distensões do meu ser cruento
Que rasgou as vestes puras
Por rastro imundo e caveiras nuas.

Ah! Sol, brilha em teu rosto
Na doce tarde embalada de pássaros...

Mas o ruído perpetua em meus ouvidos
No sombrio obscuro do abismo em mim,
Brincam as pupilas do meu rosto vazio
Eu bruxa ferida pela espada branca
Perambulo solitária e ilusória
Cantando no vaso quebrado a minha glória.

Ah! Sol, cantas e minha mão não te alcança
Sou pétalas caída no lodo infértil
Sou ramo destroncado da árvore sagrada
Sou crua e sou eu e somente nada
Sou por passos no caminho apagada
Pela poeira dos ventos soprada.

Oh Sol revolve minhas cinzas!
Faça acordar do pó do exílio maldito
Em vermelho de fogo
O amor que em mim é chama fria
Que se cala em meus lábios um segundo
antes do grito,...
Pois és tu, o carrasco alado de meus dias...
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Amante Sepulcral

Me deu o beijo de lama meu amante da noite passada
não sofri nem chorei pelas amargas pesadas
nem meu corpo curvou ao soco e punhaladas
que recebi com amor de defunta descarada

Me alisei nos buracos que me sobraram
me senti pelo vento carregada para o chão
levantei o rosto morto pro amante
amante doce que me levou para o caixão

Empertiguei meus ossos pontudos
revirei os braços e pernas entortados
para alcançar mais um desejo afogado
e lançar um sopro podre ao primeiro alheado

Ver o meus requintes sobre pedra dura
ser alvo das chacotas de raparigas e putas!
na minha cela enterrar cantos e lamúrias
onde escondes, oh amante, tua boca muda?

Me roubaste o som me transformaste em serpente
e mais as pétalas do meu chorar de amor
não me ficou nem teu rosto nem teu beijo
para compensar a dor de morrer em teu ardor.
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