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paulinfantem

paulinfantem

n. 1949 BR BR

n. 1949-07-06, Rio de Janeiro

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Última Sorte - Virei Passado

Eu morri amanhã,
Talvez de manhã.
(Oh! Não me contem
Que isto foi ontem...)
Não sou notório,
Mas no velório
Eu não ter ninguém
Isto não convém.
Nos desencantos
Visitei tantos
Pobres defuntos;
Ficamos juntos,
Eu e a família...
Saudade ardia.
Ninguém agravo,
Se cherei cravo,
Rosa amarela...
Se vi arder vela
Junto do incréu
Que não ia pro céu....
Se perto dela
Pensava nela,
Nela, na morte -
Última Sorte.
Se levei caixão,
Fiz calo na mão;
Se com emoção
Chorei de montão...
Desfiz beleza,
Curti tristeza...
Mas tudo foi em vão:
Fui na solidão.
Neste hospital,
Onde passei mal,
Morri sozinho,
Nenhum carinho...
Abandonado,
Só, deste lado,
Triste, terreno...
Mas, do outro, ameno,
Anjos divinos
Em trajes finos,
Vêm me conduzir
Ao melhor porvir:
Dourada mansão -
Prêmio do cristão.
Combate lutei,
Minha fé guardei,
Carreira venci.
Eles estão aqui,
Anjos do Senhor,
Meu Consolador,
Me dão conforto
Enquanto morto.
Logo me despeço
De qualquer verso.
Nesta capela
Botaram vela,
Fizeram prece
Que não carece
P'ra quem tem Jesus -
Nossa maior Luz.
Velas queimadas,
Preces rezadas...
Tétrico lugar,
Onde fui parar...
Querem me salvar,
Eu que salvo sou -
Jesus me salvou!
Dentro do caixão,
Vou de rabecão
Pro necrotério
Do cemitério.
Chegam parentes
Com outras gentes.
Flores compradas,
Roupas trocadas...
Abriram o caixão
Com grande emoção:
Choram outra vez:
"Nós éramos seis!..."
"Volta paizinho,
Mais um pouquinho!"
Diante da morte
Há quem conforte?...
Só ressurreição
Nesta comoção.
Meu Jesus Cristo,
Se diante disto,
Se compadecia
De quem sofria
Em ver sem vida
Gente querida:
Os consolava -
Ressuscitava.
(A quem confiante
E suplicante
Pede com fervor,
Atende o Senhor.)
Enterram no chão
O meu coração...
Triste momento:
Sepultamento
Já foi concluído -
Sou um ex-marido.
Fui bom esposo?
Um pai amoroso?
Bom? Dedicado?
Dei meu recado?
Quem vai me dizer?
Eu posso saber?...
...................................
Após despedida,
A derradeira,
Voltam à vida,
Ainda sofrida.
Vida prossegue,
Não há quem negue.
Mulher já pensa
(E como pensa!)
No "meu" dinheiro...
Cabelereiro,
Roupas, beleza...
Oh! Que tristeza!
Eu que fui pobre -
Nem deixei cobre;
Só deixei pensão -
Direito da união.
.................................
Tempos passados,
Todos casados,
Nem sou lembrado:
Virei Passado!
paulinfantem
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Poemas

19

Envelhecer

Chega um tempo em que o perto se faz longe;
o leve se torna pesado;
o doce, amargo;
o salgado, insosso;
o colorido, desbotado;
o áspero, liso;
e o liso não se sente;
o lazer passa a ser sofrer;
chega um tempo em que a morte
nos acena na curva da vida.
Envelhecemos.
paulinfantem
746

A Renda e a Venda

Roubada
Na venda
A renda
Da moda;
Cai moda
Da renda
Na venda
Roubada.
paulinfantem
754

Veia Poética

Alguém entra no banheiro
Com o intestino preso
E o coração aceso.
O poeta é assim:
Está sempre afim!...
E com lápis e papel
Povoa todo o céu...
Porém não ganha dinheiro,
Vive quase sempre teso,
Mas, o coração aceso.
Vivendo assim ao léu
Pode ir pro beleléu.
Sentado no vaso,
Fazendo da vida
Grande pouco caso,
Pessoa vivida,
Com muito respeito,
Diz coisas sem jeito...
E se acha poeta
Na sala secreta;
E não se receia
De ter outra veia:
A veia poética...
Assim ascética,
Com o intestino preso
E o coração aceso,
Diz coisas de amor
Quem foi fazer "cocô"...
Posso ser arcaico,
Mas acho prosaico
Um alguém versejar
Quando foi só "cagar".
paulinfantem
720

Que Rei Sou Eu?

Minha querida rainha
Me responda: "Que rei sou eu?"
Se tu não podes ser minha
E tampouco posso ser teu.
Minha querida rainha
Eu quero ser teu,
E que você seja minha
E me chame sempre de "meu".
Minha querida rainha
Não perderás teu reinado;
quero você sempre minha
E eu sempre teu namorado.
Já que não sei "que rei sou eu",
Nem mesmo se sou algum rei,
Resta-me apenas ser teu;
Se tu quiseres, serei.
Que serve seres rainha,
Se sou apenas um plebeu?
Nunca poderás ser minha...
Eu que nasci só pra ser teu!
paulinfantem
848

Solução Final

Eu sou um homem, não um mulo,
Por isso sempre calculo.
Eu tenho que fazer contas,
Deixá-las sempre prontas,
Contas grandes, pequenas...
Nem sempre me são amenas.
São tantas as equações
Das quais nem tenho noções.
Se não consigo o acerto
Deixo-me num aperto.
Contas temos que prestar
Aqui e quando lá chegar...
Minha já foi prestada
E a dívida quitada
Por um ato de amor
De Jesus, meu Salvador!
Minha conta está pága,
Já ternho minha vaga!
Eu, certo de lá chegar,
Já posso regozijar.
Louvando sempre Jesus
Que por mim morreu na cruz!
Aqui é outra história,
Nunca zera a memória;
Eu sou sempre cobrado,
Tudo sempre lembrado...
Nesta vida incerta
A conta mesmo certa,
Outra vez calculada,
Podem achar errada.
Se faço certa a conta
Esta vida me apronta,
Faz uma grande troça
E me joga na fossa...
Até ja fiz meu lema:
-Não me arranje problema,
Não me peça Não me peça solução,
Não vão gostar dela, não.
São tantos os dilemas
Nesta vida de problemas...
Quando chego no total
Já é solução final!

800

Quero Apenas Uma Mulher

Fizeram a conta da humanidade:
São mais de seis bilhões de seres humanos,
População de campo e de cidade.
Se nós não considerarmos os enganos,
Serão três bilhões apenas de mulheres;
Mulheres da maneira que tu quiseres...
Mulheres pra toda e qualquer idade,
Tem mulheres de pouco e de muitos anos,
Mulheres perversas e de caridade,
Ou daquelas que só nos trazem desenganos...
Casadas, divorciadas e solteiras...
Ao menos uma, é certo que tu queiras.
Mas se você é mais um desses que não quer,
É mais que sobra pra quem gosta de mulher.
Mulheres que nos trazem felicidade
Ou à desgraça acaba levando-nos;
Que transformam o valente em covarde,
Homens de juízo em completos insanos.
Tantas mulheres... Velhas, maduras, novas...
No meio de tantas, alguma aprovas.
Quero falar com muita sinceridade:
-Louras, brancas, pretas, mulatas, morenas...
Prestem atenção nesta grande verdade...
-Gordinhas, magrinhas, altas e pequenas...
Quando se escolhe uma para amar,
Na vida, somente esta vai importar.
paulinfantem
773

Saudades do Trem

Deixa-me triste:
Trem não existe
Lá no interior,
Trem que tem valor.
Chores tu também:
Mataram o trem!
Findou a lida,
Morreu a vida...
Oh! Que saudade!
E de verdade,
Saudades do trem,
Do trem que não vem,
Trem do interior,
Que tem seu valor.
Janela de trem -
Saudades se tem...
Abrir janela,
Ver vida nela...
Tantas viagens,
Quantas paisagens!
"-Felicidade,
Vou pra cidade..."
"-Fui pro interior
Pra ver o meu amor..."
Ah! Os parentes
E outras gentes...
Quanta saudade
Daquela idade!...
Mãos abanando,
Olhos chorando...
Quanto carinho
Pelo caminho,
Nos acenos de mão...
Sofre coração!
Ah! Quanta vida
E bem vivida
Havia no trem,
No trem que não vem...
Quem só, chorando,
Sonha esperando...
Gente vem vindo,
Quase sorrindo...
No trem chegando
Aqui apitando;
Gente partindo
No que tá saindo...
Peito apertando,
Ah! Sufocando...
Saudades tenho
Do trem que venho,
Que não volto mais,
Trem que triste vais...
Que parto também
Atrás deste trem
Que não volta mais
Que não volta atrás.
Trem que acabou,
E tudo mudou...
Findou a lida,
Morreu a vida,
Vida do meu trem
Que não vem, não vem.
paulinfantem
777

Paciente Terminal

Estar num leito de hospital
Como "Paciente Terminal",
Tendo a morte sempre adiada
Pela ciência renovada
Com novos medicamentos
E melhores tratamentos...
Na vida não se volta atrás,
Não nos deixam morrer em paz...
Tenham a santa paciência,
Chega de tanta experiência!
Se temos mesmo de morrer,
Não prolonguem nosso sofrer.
Sem reflexos nos artelhos,
Desliguem os aparelhos.
Não ser cativo de tubo,
Não ter esta vida ao cubo,
é direito do paciente,
Precisam respeitar, gente.
Nada de vida artificial,
Queremos morte natural.
paulinfantem

745

Se a Gente Pudesse

Se a gente pudesse
o mundo ver
antes de nascer,
ver a vida que íamos viver,
ver o tanto que íamos sofrer;
se pudéssemos escolher,
a gente escolheria:
não viver.
paulinfantem
711

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